“Mulheres”: projeto sobre preconceito e feminismo ganha versão em livro

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Ana saiu com de vestido na rua e ouviu homens assoviando, chamando de gostosa, gritando “ô lá em casa”. Fernanda vive ouvindo que as roupas que usa não ficam bem no seu corpo e que ela deveria “perder uns quilinhos”. Joana é bissexual e alguns amigos perguntam o tempo todo quando ela vai se decidir.

Esses são casos vividos diariamente por mulheres, que são criticadas pelas suas roupas, corpo, relacionamentos – o que os outros esquecem é que eles não têm nada a ver com isso. Cada uma é dona de si e livre para fazer o que quiser. É exatamente isso que a ilustradora Carol Rossetti tenta mostrar com o projeto “Mulheres”. A designer de Belo Horizonte chamou atenção quando começou a postar imagens de mulheres de bem consigo mesmas com frases inspiradoras. Motivada pelo interesse através de comentários e curtidas, Carol continuou o trabalho que virou um livro publicado pela editora Sextante no ano passado.

– Eu queria começar a fazer ilustrações de forma descompromissada para praticar desenho. Eu fazia e postava no Facebook, as pessoas foram curtindo e eu novas – ela contou em entrevista a Donna. – Fui traduzindo pro inglês e notei que elas foram ganhando visibilidade fora do Brasil também.

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Vendo a repercussão, a editora entrou em contato com a Carol, e o livro está sendo vendido no Brasil, Portugal, México, Espanha e EUA, além de um contrato sendo fechado na França. São 130 ilustrações ao todo, divididas em seis temas: corpo, moda, identidade, escolhas, amores e valentes. Mesmo que a palavra não seja usada nas ilustrações (ela só aparece em uma), é difícil olhar para as imagens sem pensar em feminismo.

– Antes de começar, eu já vinha lendo um pouco sobre feminismo, conversando sobre diversidade, representatividade. Para desenhar, comecei a pensar em mensagens positivas, que poderia passar pras amigas mesmo, por isso que elas têm esse tom intimista – explicou a ilustradora. – A primeira ilustração que fiz foi a da Marina, uma menina gorda de vestido. Eu fiz porque uma amiga tinha postado um comentário bem desagradável sobre uma mulher gorda usando leggings. Foi uma indireta e um questionamento: Por que quando são as nossas amigas a gente defende até os dentes e outras são criticadas?

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Carol conta que já recebeu muitos comentários maldosos sobre as personagens representadas em suas ilustrações.

–  Eu vejo comentários tanto de pessoas que parecem desinformadas, quanto pessoas que querem ser agressivas, machucar. A internet acabou se tornando uma forma cômoda de propagar preconceito porque as pessoas não sentem o peso da responsabilidade – reflete.

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Não só de críticas vive o trabalho da Carol, no entanto. Bem pelo contrário, na verdade. Ela conta que recebeu vários comentários, de homens e mulheres, que repensaram ideias a partir das imagens. Alguns disseram que, por concordarem com várias frases, repensaram suas ideias ao se deparar com estranhamentos. A ilustradora defende a importância de discutir sobre representatividade, principalmente por parte de uma pessoa que trabalha com comunicação, diretamente falando para os outros.

Maíra é uma das ilustrações mais queridas pela Carol, porque foi a primeira que teve uma grande repercussão

Maíra é uma das ilustrações mais queridas pela Carol, porque foi a primeira que teve uma grande repercussão

O fato de que as ilustrações da Carol chamaram a atenção em diferentes lugares do mundo leva a pensar em como situações diárias vividas pelas mulheres são, também, universais. Na página do Facebook em que as imagens foram postadas, as frases foram traduzidas para 18 línguas.

– A gente ainda tem muito que evoluir em direitos humanos e feminismo em diversas partes do mundo, mesmo que de formas diferentes. Existem diferenças culturais, mas as pessoas estão pedindo visibilidade para quem não tem – ela comenta, dando como exemplo países da Europa que dão mais liberdade reprodutiva para as mulheres, mas ainda sofrem muito com racismo e transfobia.

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Um exemplo interessante de impactos diferentes foi a ilustração de Amanda, a garota que não se depila. Ela foi muito criticada no Brasil, mas, quando traduzida para o inglês, não chamou muita atenção.

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Críticas à parte, o importante é que o trabalho tem chamado atenção, levado os outros a refletir e, principalmente, tocado as pessoas que importam. Carol conta que recebeu diversas mensagens de desconhecidos contando histórias íntimas que não tinham coragem de compartilhar com as pessoas mais próximas e agradecendo pela ajuda. Se continuar assim, tudo valeu a pena.

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