Não depilação: Mulheres questionam padrões de beleza ao abandonar a depilação

Pense rápido: qual a primeira coisa que você nota quando vê a foto acima? A beleza da moça e a delicadeza da imagem ou, admita, os pelos da axila? Na contramão de um padrão de beleza que condiciona a ala feminina a se livrar de cada fiozinho que cresce embaixo do braço, ao longo das pernas ou na virilha, mulheres têm cada vez mais aderido a uma espécie de corrente que clama pela liberdade de não se depilar. O movimento – ainda que não seja uma tendência da maioria – reflete uma mudança de comportamento que, para muitas, têm a ver com a imersão em ideologias feministas. É exatamente esse o caso da estudante de Jornalismo Antônia Kowacs, 25 anos, que deixou lâmina e cera de lado e aderiu à não depilação há um ano e meio.

— Nunca me encaixei nos padrões de beleza. Sempre fui gordinha, usava óculos e aparelho, era meio estranha. Sofri bullying no colégio. Foi então que comecei a ir atrás do que foge aos padrões. No fim das contas, conforme deixei os pelos crescerem, fui me sentindo mais empoderada — conta.

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Como tudo que questiona as regras, não foi fácil para Antônia assumir publicamente sua escolha. Se por um lado a recepção por parte da família não teve maiores percalços, a primeira vez que ela saiu para a rua com os pelos à mostra ficou gravada na memória. A ocasião era das mais corriqueiras na vida de uma universitária: pegar o ônibus. O dia quente pedia uma blusa mais fresquinha. Apesar do receio da exposição, optou por uma regata cavada. Quando entrou no ônibus e levantou o braço para se segurar no suporte, vieram os primeiros olhares dos demais passageiros.

— Muita gente me olhou com cara estranha. Com certeza me senti um pouco envergonhada, mas só de ver as pessoas olhando e refletindo em relação a isso dá mais vontade ainda de ir atrás dessa corrente, que torna a não depilação uma coisa muito mais natural, como deveria ser.

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Outra primeira vez que causou estranhamento – até na própria Antônia – foi ir à praia depois que parou de se depilar por completo, o que inclui axilas, virilha e pernas.

— É óbvio que você não chega na areia já com o braço para cima, até porque já tenho receio de praia em geral. Como gordinha, existe a questão do biquíni também, e quando eu uso, já é uma forma de me empoderar. Com os pelos já é algo a mais. Foi engraçado, algumas pessoas olhavam, mas é algo que a gente se acostuma, como qualquer outra coisa na vida — reflete.

Assim como Antônia, a estudante de Letras Tamiris Paturi (foto abaixo), 22 anos, que também deixou a depilação de lado há cerca de dois anos, vê no estranhamento inicial das pessoas a possibilidade de refletirem sobre o que é imposição e o que é escolha de fato. Garante, aliás, que nem se incomoda mais com os olhares de reprovação.

— Não duvido que a maioria das mulheres que me olham fica pensando “que nojo, que horror”, mas causar isso pelo menos vai mostrar que eu existo, que existem mulheres que têm pelos e que não vão tirar só porque vocês não gostam. É até um ato político, porque as pessoas te identificam como uma mulher diferente. Primeiro, presumem que você é sapatão, depois pensam que é uma feminista chata. É bom causar um incômodo para o mundo e fazer com que eles se questionem — resume.

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Por que tirar tudo, afinal?

Talvez o que mais se associe a uma mulher que não se depila é a imagem de alguém descuidada. Tudo porque, de certa forma, a depilação acabou, historicamente, sendo relacionada como indício de vaidade e até de asseio. Para a professora universitária e blogueira feminista Lola Aronovich, o padrão social para que as mulheres estejam sempre “lisinhas” tem influência, inclusive, da pornografia.

— Ali as mulheres começaram a aparecer completamente depiladas e, pouco a pouco, virou uma imposição da sociedade inteira. Está cada dia pior. Antes, era para que apenas as pernas e as axilas fossem depiladas, e hoje é tudo — pondera.

Autora do blog Escreva, Lola, Escreva, a docente da Universidade Federal do Ceará (UFC) ressalta, também, a cobrança dos homens para que elas estejam sempre livres de pelos – mas, vale lembrar, há também o julgamento entre as próprias mulheres.

— Eles aprendem que mulher com qualquer tipo de pelo é feia, suja, não se cuida. Eles fazem essa cobrança, e aí vem o bullying — explica Lola.

No caso de Antônia Kowacs, felizmente, foi diferente. Foi o próprio ex-namorado, que estudou Ciências Sociais, o precursor na introdução da guria ao feminismo – e, mais tarde, à prática da não depilação.

— Ele nunca reclamou. Me apoiou desde sempre. Fez questão de dizer que eu continuava bonita dessa forma, ou de qualquer jeito — relembra a universitária.

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No caso de Tamiris, deixar a lâmina de lado e os pelos crescerem livremente pelo corpo acabou contribuindo também para a sua própria autoestima. Desde os 12 anos, as sessões de depilação com cera passaram a ser rotina. Para manter as axilas lisas, chegava a ir duas vezes por mês ao salão de beleza.

— Comecei a ter pelos muito cedo, e eles eram bem escuros. Não gostava daquilo — recorda.

Por volta dos 20 anos, quando passou a se envolver com o feminismo, descobriu, em suas próprias palavras, “que as mulheres não eram obrigadas a se depilar”. Mas não foi de um dia para o outro que conseguiu parar.

— Não me sentia segura comigo mesma para abandonar de vez a depilação. Passei a fazer menos, mas ainda me depilava às vezes. Já estava tranquila com os meus pelos, mas ainda sentia vergonha de expor na rua, então peguei um raspador elétrico e tirei um pouco — conta.

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Quando o verão chegou, decidiu parar de uma vez por todas e fazer um teste: deixou os pelos crescerem e tirava só quando de fato se incomodava. Aos poucos, conseguiu aderir por completo. Mais do que se livrar do ritual com cera quente, Tamiris disse que conseguiu abrir mão também de outras convenções que não a agradavam.

— Senti uma melhora em mim. Já não me sinto mais tão insegura e não fico nervosa com coisas que me incomodavam antes. Junto com o processo de parar de me depilar, surgiram outras coisas, como parar de usar sutiã ou roupas desconfortáveis. Não uso mais salto alto ou vestido apertado. Foi um processo de me libertar e me sentir bem comigo mesma — conta.

Antônia também acredita que aderir de vez à não depilação não foi só uma decisão, mas um processo. Primeiro, foi se acostumando com a nova imagem de seu próprio corpo no espelho para só depois se deixar ser vista pelas outras pessoas.

— Você precisa estar muito bem com a sua escolha, ainda mais quando é passível de receber olhares. Quando você está insegura em relação a uma escolha, é muito mais fácil abandonar o barco ou ficar se sentindo muito mal. Primeiro, foi um processo meu — explica. — Por incrível que pareça, muito mais mulher também, pois a depilação significa também a infantilização da mulher. Tem mulheres que depilam tudo e isso é preocupante. Me sinto muito mais mulher, mais adulta e dona das minhas escolhas, de poder escolher como meu corpo vai ser — finaliza.

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Para quem se preocupa com as questões práticas a respeito de deixar os pelos do corpo feminino crescerem livremente, Donna conversou com as dermatologistas Juliana Jordão e Tatiana Jerez para ajudar a desfazer alguns mitos sobre a não-depilação. Confira abaixo:

Mitos & verdades sobre pelos

1. Não depilar deixa a região mais sujeita a odores?

A dermatologista Juliana Jordão esclarece a dúvida:

— A presença dos pelos pode manter o local com maior umidade, devido ao aquecimento local e a transpiração natural durante o dia. A maior umidade favorece o crescimento de bactérias presentes naturalmente na pele e responsáveis pela produção de odor nestes locais, e é mais perceptível em áreas com maior concentração de pelos e mais transpiração — explica Juliana.

Mas calma: isso não é regra!

— A bactéria que causa o mau cheiro aparece em pessoas que têm tendência genética e sudorese excessiva e pode aparecer em quem se depila periodicamente também. Nesses casos, o indicado é procurar uma dermatologista, que tratará o problema com antibióticos. A recomendação é optar por desodorantes antiperspirantes, que inibem a produção de suor e devem ser utilizados à noite. Durante o dia, pode-se usar desodorante normal. Também sugiro sabonetes antissépticos, com ação antibacteriana — diz Tatiana.

Quem transpira normalmente precisa apenas manter os cuidados básicos de limpeza do corpo que são comuns do dia a dia. O mesmo vale para outras áreas do corpo, como virilha e pernas – ou seja, ter pelos não é, de forma alguma, sinônimo para falta de higiene, viu?

2. A pele de quem não se depila fica diferente de alguma forma?

Sim, e para melhor! E a explicação não poderia ser mais óbvia:

— Independente do método, a depilação sempre é uma agressão à pele, alguns mais, e outros menos — confirma a dermatologista Tatiana Jerez.

Faz sentido se pensarmos que, no caso da lâmina, por exemplo, estamos raspando a pele. E a cera quente então? O método menos agressivo a longo prazo é o laser, explica a dermatologista. Juliana Jordão acrescenta: com os pelos, a cútis fica, inclusive, mais protegida dos efeitos do sol.

— Em geral, áreas cobertas por pelos são mais claras e menos foto-envelhecidas, com coloração mais homogênea e menor ocorrência de manchas — diz.

3. Que produtos são mais indicados para cuidar da pele de quem não se depila?

— Não há nenhuma recomendação quanto ao uso de produtos específicos. Somente é importante reduzir a umidade local sempre que possível e utilizar antitranspirantes com maior frequência, se preciso. No caso da presença de foliculite é importante optar por roupas de algodão, mais larguinhas, além de utilizar antibiótico se houver infecção no local, recomendada após avaliação do dermatologista — ensina Juliana Jordão.

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A não depilação adotada pelas famosas

Desde o início do século passado, depilar os pelos das axilas virou padrão por conta da mudança nos trajes femininos – antes mais fechados e, posteriormente, com os braços de fora. Mas o que deveria ser apenas uma opção estética acabou virando (mais um) padrão de beleza.

É raro ver uma mulher exibindo sem pudor os pelos por aí. E, quando mostra, são os fios que viram assunto, ainda mais quando se trata de uma celebridade. Quem não lembra do alvoroço causado pela, bem, não depilação íntima de Nanda Costa em seu ensaio para a Playboy?

— Não depilei por escolha. Fiz até foto em uma barbearia, mesmo assim não mudei de ideia — defendeu a atriz à época, em agosto de 2013.

Quem também deixou os pelos verem a luz do dia (ou melhor, atravessarem o tapete vermelho) foi a atriz Jemima Kirke, a intensa Jessa do seriado Girls. Além de posar para um ensaio com as axilas sem depilação, a londrina compareceu ao evento de gala CFDA Fashion Awards 2015 com um vestido que deixava a região à mostra. Ao ver seus pelos virarem notícia, Jemina retuitou a frase de uma amiga – que, aliás, resume o sentimento de muitas das mulheres que deixaram a cera e a lâmina de lado:

— É necessário se depilar para ir ao CFDA Fashion Awards? Qual o problema? Não seria apenas ela uma mulher que decide o que quer fazer com seu próprio corpo? — questionou a amiga.

Mais do que um ato feminista (mas em muitos casos, também!), o principal argumento de mulheres como Jemima e Nanda – além de Madonna e Miley Cyrus, para citar algumas – é ter a escolha de não se depilar e não serem julgadas por isso. Até Cameron Diaz lançou um livro no qual defende esta posição. Em seu The Body Book (“O livro do corpo”, em tradução livre), a loira disse que remover os pelos da região da virilha definitivamente é “uma moda passageira perigosa”, referindo-se aos pelos pubianos como “uma linda cortina a quem talvez esteja cortejando a sua sexualidade”.
Nos argumentos citados por todas, a questão de gênero: por que os homens não são julgados por exibirem suas axilas “peludas”? E por que, no caso deles, manter os pelos não é visto como falta de higiene? O debate, pelo visto, está só começando.

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