Brigar pode ajudar o relacionamento: saiba como ter uma boa D.R.

Não finja que este assunto não é com você. Quem tem alguém para trocar presentes e carinhos neste dia 12, muito provavelmente já quis espremer o suco da sua metade da laranja em algum momento. Quem ama briga. Mesmo em relacionamentos saudáveis.

Mas alguns problemas de relacionamento se repetem, levam a novas brigas e irritam de tal maneira que cansam. Às vezes, levam casais a pensar se uma rotina de conflitos em looping está valendo a pena.

Donna questionou suas leitoras no Facebook sobre quais brigas faziam com que elas cogitassem, ainda que não concretizassem, voltar à solteirice. Em poucos minutos, dezenas de comentários surgiram (confira alguns, anônimos, na página ao lado) listando reclamações com duas peculiaridades: repetem-se em um coral de diferentes bocas e são interligadas entre si.

Falta de diálogo, acomodação, indecisão e desatenção a questões práticas do dia a dia são exemplos de problemas mais comuns.

Especialistas trazem boas notícias: se relacionamento é sinônimo de discussão, ao menos há maneiras de tornar essas brigas mais “construtivas” do que “destrutivas”. Existe, inclusive, um grupo especializado nisso na UFRGS. O Núcleo de Pesquisa Dinâmica das Relações Familiares, coordenado pela psicóloga Adriana Wagner, estuda o tema desde 2010, quando iniciou uma pesquisa com 750 casais gaúchos.

– Há um mito de que o casal é um sistema fechado, vem daí o “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. E isolados, os relacionamentos fenecem. A conjugalidade é, sim, um tema em que você pode ter ajuda – declara Adriana.

A partir da pesquisa, o núcleo da UFRGS criou o Viver a Dois, um programa de seis encontros destinado a casais juntos há mais de seis meses (para saber mais acesse ufrgs.br/relacoesfamiliares). Ali, os casais aprendem estratégias que vão desde formas de fazer o parceiro entender melhor o que você está sentindo até negociar para que as duas partes saiam de um conflito satisfeitas. A primeira dica é tão simples quanto difícil de cumprir: não brigar justamente quando mais sentir vontade de brigar.

– É natural que ocorra ao casal discutir quando o problema surge, mas é ruim quando um casal debate um impasse ainda impregnado de emoções muito fortes. Às vezes, é preciso dizer para si e para o outro que está com muita raiva para discutir naquele momento – recomenda a psicóloga Patrícia Scheeren, também do núcleo da UFRGS.

Porém, tão importante quanto evitar uma discussão no momento da raiva é voltar a ela mais tarde, de forma que aquele sentimento não forme um passivo de mágoa em relação ao outro. E quando se volta ao assunto, é mais eficiente dizer a outra pessoa como ela fez você se sentir, o motivo da sua insatisfação, do que fazer uma acusação.

Após ter dedicado o seu doutorado a táticas de resolução de conflitos conjugais, a psicóloga catarinense Simone Azeredo Bolze dá um exemplo vindo do seu consultório:

– Uma paciente reclamava que o marido passava um turno inteiro em casa por semana, mas que só limpava o banheiro naquele dia, conforme o combinado entre eles, depois de ela chegar em casa. Ele argumentava que não via diferença entre fazer a tarefa no turno livre ou à noite. Perguntei, eu mesma, qual era a diferença. “É que se ele tira uma hora para limpar o banheiro nesse horário, é uma hora que ele não fica no sofá comigo”. Era isso que ela tinha de dizer a ele, entende?

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A estratégia é tornar o parceiro empático ao seu sentimento, já que dificilmente uma pessoa quer deliberadamente fazer mal ao outro ao fazer algo que incomode. Isso evita, também, que a pessoa instintivamente se veja como injustiçada diante de um apontamento do outro.

– Se você disser ao outro que ele nunca escuta o que você fala, ouvirá de volta que é besteira. Mais eficiente é apontar uma situação específica em que a outra pessoa ignorou um comentário seu. E então dizer como aquilo fez você se sentir diminuída – compara Simone.

A esse processo, Patrícia chama de “dar um nome” ao sentimento:

– Muitas vezes, uma briga começa sem nem sabermos exatamente o porquê. Quando vê, o casal está discutindo. Deixar para discutir uma questão de cabeça fria e, nesse meio-tempo, pensar no motivo da própria insatisfação com o relacionamento deixa a situação mais clara para você. Depois, fica mais fácil de debater com o companheiro.

Por fim, as especialistas apontam que uma forma de ter discussões mais produtivas é estabelecer como regra que todo impasse deve ser solucionado com os dois lados cedendo em um ponto e ganhando em outro. Se incomoda almoçar todo domingo na casa da sogra, a solução pode ser combinar um final de semana mensal de viagem em troca. Se o parceiro nunca decide para onde sair de férias (e tampouco deseja decidir), combine de você decidir o destino e ele reservar passagens e hotel. Assim por diante.

O lado alentador de tudo isso é que a ocorrência de conflitos é algo absolutamente normal em relacionamentos, mesmo os mais felizes. Adriana tem isso contabilizado em números. Apesar dos pratos quebrados revelados em inúmeros outros índices, 85% dos casais de sua pesquisa relatavam bons níveis de qualidade conjugal.

Então, feliz Dia dos Namorados e boas (e produtivas) brigas.

10 mandamentos para evitar brigas (ou torná-las mais produtivas)

1 – Não discuta de cabeça quente. Aprenda a saber quando você não está apta emocionalmente para discutir.

2 – Não discuta minutos antes de algo obrigatoriamente interromper a discussão, como pouco antes de sair para o trabalho.

3 – Antes de iniciar uma discussão, tenha claro para você mesma o que fez você se sentir tão mal.

4 – Volte ao motivo do seu descontentamento. Brigas mal-resolvidas geram mágoas ainda maiores.

5 – Ao discutir algo que a incomodou, foque em como aquilo a fez se sentir, não apenas acuse seu par.

6 – Não ignore o outro lado da discussão, sobretudo se houver um impasse. Respeite o sentimento e a opinião do outro.

7 – Saia das discussões com uma negociação acordada entre as partes, e com os dois lados “ganhando” algo em troca.

8 – Não abrace tarefas e compromissos sozinha se você acha que o(a) parceiro(a) deveria participar delas.

9 – Estabeleça na rotina do casal um espaço para diálogo. Um jantar semanal, uma caminhada aos sábados, um café da manhã prolongado…

10 – Jamais recorra a apontamentos que agridam física ou psicologicamente o outro. Seja sensível à autoestima de quem você ama.

O que elas dizem

Pelo Facebook, leitoras nos confidenciaram os principais motivos que as levam a partir para a D.R.

“Me irrita o meu marido não gostar muito de sair à noite e eu ter que fazer isso quase sempre sem ele, como se não fosse casada. E, mesmo ele sabendo onde estou, me sinto sempre meio clandestina.”

“Discutir o que/onde se vai comer (é motivo de briga). Parece uma bobagem, mas isso me incomoda bastante, porque sou sempre eu quem tem que decidir.”

“Falta de diálogo! Meu marido vem de uma família que não conversa. Eu sou uma gralha! Então, o silêncio dele me irrita profundamente!”

“A falta de parceria. Sempre digo que amor não segura relação. Se a pessoa não faz a sua parte, não é parceira, não se engaja no relacionamento, não funciona. Por mais que ame. Diferença de opinião no começo é lindo, mas, com o tempo, é um pé no saco.  você não consegue escolher um filme na Netflix para assistirem juntos.”

“Valorização! Às vezes, o homem acha que não precisa elogiar a companheira porque acredita que ela já sabe que é aquilo, que não precisa elogiar!”

“Falta de iniciativa, dinheiro, comodismo. Nós, mulheres, temos o lado maternal até no relacionamento. Com isso puxamos as responsabilidades pra nós, deixando os homens mal-acostumados.”

“Ter que me repetir. Parece bobagem, mas ter que ficar me repetindo e implorando por alguma iniciativa própria por mais de seis anos esgota!”

“O que mais irrita é tratar marido como filho. Mandar ele fazer as coisas que eu achava que ele deveria saber.”

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