Não é só pelo shortinho: como o feminismo vem conquistando espaço entre as adolescentes

Elas ainda nem completaram 18 anos, mas já usam com naturalidade palavras como empoderamento e sororidade. Ficam horas no Facebook procurando páginas e lendo artigos sobre feminismo. Em vez de se preocupar apenas em passar de ano no colégio, organizam protestos e promovem debates. É a geração de meninas que não têm medo de colocar a boca no trombone e questionar comportamentos e regras.

– O feminismo vem ganhando uma nova força com essas adolescentes que estão aprendendo sobre empoderamento – afirma a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins.

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A recente polêmica sobre o shortinho no Colégio Anchieta, de Porto Alegre, é prova desse fenômeno: além da discussão em si, pôs em evidência a força do engajamento feminista entre as adolescentes. Nesse episódio, um grupo de alunas virou notícia nacional ao organizar um protesto contra a norma que regrava o comprimento dos shorts no ambiente escolar. Criado pelas estudantes Kessin Weber e Lara Dresch, do nono ano da instituição, a manifestação nasceu em um grupo de WhatsApp, que depois virou evento no Facebook. Mais: junto com outras colegas, divulgaram um abaixo-assinado na internet, com um texto que relacionava a proibição à objetificação do corpo da mulher. “Ao invés de humilhar meninas por usar shorts em climas quentes, ensine estudantes e professores homens a não sexualizar partes normais do corpo feminino. Nós somos adolescentes de 13-17 anos de idade. Se você está sexualizando o nosso corpo, você é o problema”, dizia o texto escrito por Giulia Morschbacher (foto abaixo), aluna do 2º ano, de 15 anos. A estudante conta que partiu dela a ideia de criar o manifesto e que lê sobre feminismo “há mais de dois anos”. Quando perguntada se considera-se feminista, não titubeia:

– Sim, sou feminista.

Assim como a maioria das garotas, o primeiro contato da estudante com as ideias de Simone de Beavouir e outros nomes de referência veio pela internet. Uma conhecida compartilhou no Facebook um post de uma fan page feminista, que logo despertou a curiosidade de Giulia. Desde então, ela passou a pesquisar outros artigos, livros e páginas sobre o assunto.

– Hoje, o feminismo é parte da minha vida – diz.

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Para a doutora em Ciências Sociais e professora do departamento de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Maíra Kubík Mano, as feministas sempre estiveram nas ruas e se renovando, mas agora há um boom “como não se via há tempos”.

– Essas jovens feministas têm contribuído para espalhar os ideais – destaca Maíra. – Isso se deve à internet, que permitiu que as mulheres relatassem como elas veem a opressão com que convivem. Algo que já aparecia em 1960 e 1970, quando as mulheres compartilhavam em rodas de conversa como elas sentiam o machismo no cotidiano.

Para Giulia, é justamente o apoio entre as “manas” (como as garotas tratam umas às outras nos grupos) que define a importância do feminismo, sobretudo às vítimas de abuso. Em resumo, a tal sororidade, que define em uma palavra a solidariedade entre mulheres.

– O feminismo cria um ambiente muito seguro para as mulheres falarem sobre a opressão, o preconceito, tudo o que elas sofrem no dia a dia. Elas conseguem se apoiar, trocar ideias e têm a certeza de que serão compreendidas – conclui.

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Para ajudar outras gurias que sofrem com abusos diários nas ruas, a estudante Catharina Doria abriu mão da viagem de formatura para Cancun. Depois de ter sido perseguida na rua por um homem, a jovem de 17 anos fez uma proposta à mãe: queria o dinheiro do pacote turístico para criar um aplicativo que mapeasse os lugares em que ocorressem casos de assédio no Brasil. Em novembro do ano passado, nascia o Sai Pra Lá. Mas, apesar da repercussão positiva em todo o Brasil, a ação não teve o mesmo impacto em algumas colegas de Catharina.

– Para ser honesta, não foi muito fácil. Muita gente não olhou na minha cara, não deu parabéns. Tive muitas amigas que disseram “Você arrasou”, mas não foi a maioria – conta.

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Mas por que isso acontece? A própria Catharina dá seu pitaco:

– Desde pequenas, somos ensinadas a ser competitivas. Você tem que ser a mais bonita, a mais legal. No momento em que outra menina faz alguma coisa diferente, parece que você fica para trás. Mas não é assim, a gente precisa ir para frente juntas. Nem fico brava com esse comportamento porque sei que é algo que foi imposto.

A análise de Catharina talvez não fosse a mesma há alguns anos. Ela conta que não acreditava muito em feminismo, até, como Giulia, ter o primeiro contato com textos sobre o tema no Facebook. Hoje, faz questão de conversar sobre o assunto com as amigas – e afirma, orgulhosa, que até já conseguiu “introduzir” várias meninas no time.

– Quando uma amiga tem atitude machista, eu digo: “Você já parou para refletir que talvez tenha sido educada para pensar isso?”.

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O tema da igualdade de gênero é cada vez mais parte do dia a dia de adolescentes. Aluna do Colégio João 23, Clara Satt, 11 anos, teve a chance de debater o assunto em sala de aula: foi lá que assistiu a trechos de Girl Rising, documentário que mostra o poder transformador da educação, sobretudo para meninas.

– Comecei a me ligar no que a professora falava em aula e percebi que havia machismo em vários lugares. Isso abriu meus olhos – lembra a garota, que integrou um grupo de teatro na escola, em que somente meninas interpretavam os papéis na peça Sonho de Uma Noite de Verão.

– É um olhar que quebra alguns padrões que fomos construindo, de gênero, de beleza, que são cruéis para as mulheres. Tenho alunas adolescentes, então acho bacana porque vejo o movimento delas, muito intenso, que é muito além das redes sociais. Não é um movimento isolado – avalia a mãe de Clara, a professora universitária Maria Henriqueta Satt.

Nas palavras da professora Maíra Kubík Mano, as meninas estão fazendo “feminismo da vida real”:

– Ainda que não tenham acúmulo da história, estão praticando o feminismo no dia a dia. As ações são tão importantes quanto a teoria.

Giulia, a garota por trás do texto que mobilizou muitas feministas além dos muros do Anchieta, concorda:

– Descobrir o feminismo quando se é jovem faz com que você cresça com outra mentalidade, dizendo todos os dias que não precisa caber em padrões e que pode questionar comportamentos que fazem você se sentir agredida ou assediada. Quando cresce com o feminismo como parte do dia a dia, você se torna uma mulher muito mais forte e segura de quem é.

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