Negocie com mulheres: empresas que valorizam a mão de obra feminina crescem em Porto Alegre

Fotos : Feliz Fucco, Arte: Melina Gallo
Fotos : Feliz Fucco, Arte: Melina Gallo

Um vazamento na pia da cozinha confrontou a assessora de imprensa gaúcha radicada em São Paulo Camila Mazzini com um movimento que ganha força nas redes sociais e no mercado de trabalho. Em geral, em uma situação dessas, ela recorria ao zelador do prédio. Mas não naquele dia de março.

– Eu havia recém me mudado e não tinha essa opção. Teria de chamar alguém, mas estava com receio de procurar um serviço e receber um estranho dentro de casa. Pensei: “Poxa, será que não existe uma mina que tenha a manha de consertar isso?”.

E tinha. Camila recorreu a um dos oráculos do nosso tempo: a timeline do Facebook. Postou uma mensagem apelando à sua própria rede de amigos em busca de um serviço – nesse caso de encanamento, prestado por uma mulher em São Paulo. Mas por que não partir do mesmo princípio para saber de uma eletricista em Porto Alegre? Ou uma taxista no Rio de Janeiro?

Nasceu assim um grupo no Facebook chamado Garotas no Poder, hoje com quase 12 mil participantes. Protegidas pela privacidade da ferramenta e diante de milhares de quem enfrenta problemas semelhantes aos seus, proliferam iniciativas que, com uma e outra particularidade, têm o mesmo objetivo: indicar mulheres a outras mulheres. E não faltam opções a apresentar. Só nesta reportagem compartilhamos dicas de cinco empresas de prestadoras de serviço que oferecem serviços gerais com foco no público feminino.

– Fiquei orgulhosa dessa rede que eu criei. Sobretudo por provar que essa imagem de que mulher não gosta de mulher não é verdadeira. Bá, olha, não é assim mesmo – declara Camila, em busca, agora, de uma mulher que faça fretes na capital paulista.

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O que surgiu de uma necessidade cotidiana para Camila, a consultora em estratégias de gênero Deb Xavier defende por ideologia. Por meio do Jogo de Damas, plataforma para integrar mulheres no mundo dos negócios, Deb promove iniciativas como o Compre de Uma Mãe Empreendedora, que listou 69 pequenas empresas comandadas por mães. A ideia era que filhos e filhas aproveitassem a data para comprar presentes de quem se aventurou no empreendedorismo em meio à maternidade.

Deb Xavier, a criadora do Jogo de Damas (Foto: Lisa Roos)

Deb Xavier, a criadora do Jogo de Damas (Foto: Lisa Roos)

– Comprar de uma mulher tem a ver com equilibrar a balança, com corrigir distorções. Não se trata de um preconceito com os homens, mas de estimular a diversidade para que, no fim das contas, homens e mulheres trabalhem mais juntos. Consumir de mulheres, em um primeiro momento, estimula mulheres a empreender e a iniciativa privada a contratar mais mulheres – avalia Deb.

As distorções entre homem e mulher no mercado de trabalho aparecem em levantamentos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgados em março. Comparando dados de 2004 e 2014, o Ipea aponta avanços, mas ainda um longo caminho a ser trilhado. Nestes 10 anos, os rendimentos das mulheres cresceram em média 61%, enquanto homens tiveram 44% de aumento. Tal crescimento fez com que elas atingissem pela primeira vez 70% da remuneração média masculina. Em 2004, essa proporção era de 63%. Em 2014, a brasileira recebeu em média R$ 1.288, enquanto o homem, R$ 1.831.

– É importante a consciência de que contratar uma mulher é aumentar a renda dela e da família dela. A economia gira quando tu colocas uma mulher para trabalhar – declara Estela Rocha, fundadora da ONG Empoderamento da Mulher.

– Para a indicação de uma médica, vejo que elas se sentem mais à vontade de consultar outras mulheres – destaca Estela.

– E uma mulher entende o que a outra passa, como o sentimento de exposição ao entrar no carro de um estranho.

O exemplo leva Estela a lembrar de uma experiência negativa da ONG. Surgiu a ideia de disponibilizar uma planilha colaborativa listando contatos de taxistas mulheres de Porto Alegre. Tempos depois, as próprias taxistas pediram para que o documento fosse retirado do ar, pois estavam recebendo ameaças pelos números divulgados.

– A internet é um lugar inóspito. Aí a gente enxerga o quanto manter grupos fechados entre mulheres é importante e o quanto às vezes é difícil explicar a importância desse tipo de atitude para um homem – comenta Estela.

Visibilidade é representatividade

Além de questões práticas, a indicação de mulheres desde para vagas de emprego a palestrantes em eventos importa, na visão da consultora de estratégias de gênero Deb Xavier, pela representatividade. Enxergar uma profissional se destacando é fundamental para que outras almejem fazer o mesmo. E também é fundamental para que os homens lidem com mulheres em todo tipo de postos de trabalho. Daí a enxurrada de críticas, por exemplo, ao ministério 100% masculino formado pelo presidente Michel Temer. Deb exemplifica citando outro evento recente, em Porto Alegre, cujo tema era “quem move o mundo”:

– Dos 21 painelistas, 20 eram homens. Acho que aí fica claro quem move o mundo, né?

Por essas e por outras, o Virando o Jogo, evento de palestras sobre negócios do Jogo de Damas, faz questão de ter somente elas no palco. Homens, por ora, apenas na plateia.

– Quando me perguntam o motivo, eu justifico que escolhi por mérito. É a justificativa que sempre ouvi por aí para fazer o contrário. E é mesmo. Elas não deixam de ter mérito. E são mulheres – declara Deb.

O mesmo princípio está por trás do projeto Entreviste uma Mulher, mantido pela ONG feminista Think Olga. Desde 2015, o site da ONG mantém um banco de dados de especialistas (no feminino) nas mais diversas áreas, com os devidos currículos e contatos. A iniciativa surgiu de uma pesquisa constatando que, de um universo de 352 notícias de capa do New York Times em 2013, apenas 19% das fontes consultadas pelo jornal eram mulheres.

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Em 2010, a revista Superinteressante chegou a dados semelhantes pesquisando a própria revista. Apenas 23% das suas fontes eram do sexo feminino, mesmo metade da redação sendo composta de jornalistas mulheres.

A UFA!, de Gabriela Siqueira (à esquerda) e Amigas de Aluguel, de Luciana Dorfman (á direita), estão entre as empresas que oferecem serviços gerais de mulher para mulher

A UFA!, de Gabriela Siqueira (à esquerda) e Amigas de Aluguel, de Luciana Dorfman (á direita), estão entre as empresas que oferecem serviços gerais de mulher para mulher

Elas se indicam

Carioca radicada em Porto Alegre, já há algum tempo a professora de inglês Juliana Ricci pensava em fazer algum tipo de trabalho focado em empoderamento feminino. A motivação final aconteceu em meio à repercussão do estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro.

– De alguma forma aquele episódio mexeu comigo. E aconteceu bem quando rolava, entre amigas minhas, discussões sobre dificuldades com chefes homens. Aproveitei o meu momento de vida e coloquei no ar o Indique uma Mina no Facebook.

O projeto mantém paralelamente um espaço de debates sobre mulheres no mercado de trabalho e um grupo bem objetivo. Assim que uma participante aponta uma vaga de emprego, as outras indicam mulheres que poderiam se interessar por ela.

A surpresa foi a velocidade com que o grupo cresceu: em um mês e meio, atingiu 82 mil participantes, indicando postos de trabalho principalmente em Rio, São Paulo, Brasília e Porto Alegre.
O crescimento súbito fez com que Juliana buscasse cinco outras amigas para ajudar na moderação dos posts, além de estabelecer algumas regras básicas. Não são aceitos posts de autopromoção nem pedidos pessoais de emprego.

– Evitamos também postagens de empregadores que digam coisas como: “No momento não estou podendo pagar muito, mas gostaria de alguém para…”. Como se um grupo de mulheres fosse o lugar adequado para procurar mão de obra barata. Não, é justamente o contrário disso.

Juliana comemora feedbacks de empresas que conseguem formar equipes inteiras de mulheres por meio do grupo. Percebe também um movimento de organizações sondando o grupo com o objetivo de promover a diversidade em vagas tradicionalmente masculinas, como as áreas de tecnologia da informação. E, acima de tudo, celebra a formação de uma rede colaborativa inteiramente feminina:

– Ouvi, certa vez, que toda mulher nasce dentro de um concurso de beleza para o qual ela não se inscreveu. Está mais do que na hora de acabar com essa lógica. Não, nós não nascemos para ser rivais umas das outras.

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