Ninfoplastia: psicanalista Diana Corso reflete sobre a polêmica cirurgia íntima

Youtube, reprodução
Youtube, reprodução

Na semana passada, uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo causou rebuliço nas redes sociais. Intitulado “Mulheres superam o tabu e encaram laser e cirurgia por ‘vulva ideal‘”, o texto chegou a 11 mil compartilhamentos, boa parte deles com críticas, o que levou o jornal a retirar o trecho “superam o tabu” em seu site. Entre outros dados, apontava-se que, em 2016, 25 mil brasileiras deitaram nas mesas de cirurgia para reduzir seus lábios vaginais, número que faz do país de longe o campeão mundial em ninfoplastias (ou labioplastia). Donna convidou a psicanalista Diana Corso a refletir sobre o assunto.

Diana Corso

A cirurgia plástica se beneficia da dura autocrítica dirigida à nossa imagem corporal. Quando falo “nossa”, não me refiro apenas a mulheres, mas a todos os humanos. Quanto menos sabemos com quais referências nos identificar – nossa origem, ideais, valores –, mais ganha força a forma do corpo como parâmetro de certo e errado. A imagem corporal acaba sendo a tradução da nossa devoção aos ideais do nosso tempo.

Dentro dessa ideia, tudo deve ser esculpido e estar sempre alerta. O que inclui peitos, pênis e, agora, lábios vaginais. Quanto ao pênis, se não houvesse tantas críticas em relação às suas dimensões e funcionalidades, a internet não estaria cheia de propostas de alargamento ou encompridamento, assim como não haveria a epidemia do uso de remédios para ereção, inclusive entre pessoas jovens, para que o órgão fique rígido mais tempo do que seria humanamente sustentável. Essa transposição para o feminino da preocupação com os genitais é a prova de que não há parte do nosso corpo em que a normatização não tenha entrado.

Sobre as labioplastias, há diferentes fatores importantes a serem considerados. Em primeiro lugar, há pessoas que sofrem e escolhem uma marca corporal para ser representante de todo o seu “desencaixe”. Algumas elegem o nariz, que não é o da Barbie, as orelhas, que aos seus olhos são as do Dumbo, ou seus peitos, que seriam ou caídos, ou não devidamente centrados, ou um maior do que o outro… E agora lábios vaginais que seriam desproporcionais, grandes ou eventualmente da “cor errada”.

Que algumas pessoas façam correções por razões médicas ou por razão de um sofrimento associado a determinada forma, é algo admissível. Tudo bem, cada um sabe de si. O problema da labioplastia e do clareamento é que esses procedimentos têm muito a ver com uma estética pedófila. São lábios vaginais diminutos, esticadinhos e rosados. Tudo isso envolto da depilação total chamada, veja só, “à brasileira”. Ou seja, nós somos campeões mundiais em esperar que mulheres adultas tenham vagina de criança.

Chamou a minha atenção, na reportagem da Folha, o caso de irmãs gêmeas que se operaram juntas. É como se elas tivessem corrigido um “defeito” de nascença. É como se elas renascessem com a vagina com que deveriam ter nascido. É peculiar porque a vagina vai se transformando ao longo da vida e elas “rejuvenesceram”. Como temos uma representação muito parca e verdadeiro horror da morte, associamos todo tipo de sinal de passagem do tempo a uma transformação gradual em zumbi.

Esta discussão deveria no mínimo lançar uma pergunta. Que personagem é essa que corresponde a estética do nosso tempo? Uma mulher ilesa à passagem dos anos, com a bunda de adulta, uma barriga de adolescente, peitos rijos de adolescente e lábios vaginais de criança. Esse é o ideal social.
Corresponde ao desejo masculino, mas, ao mesmo tempo, transcende os homens, porque há homens que não se importam e mulheres que buscam isso por conta própria. É a imagem considerada correta, normatizada, do nosso tempo.

Não está na hora de a gente se perguntar em vez de se transformar?

Leia mais
:: Divã de almas femininas e inquietas: Diana Corso lança livro que mistura literatura, cultura pop e psicanálise
:: Diana Corso: Um filme up sobre uma época down

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna