#NósTambém: leitoras de Donna compartilham relatos de assédio sexual

Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Texto Thamires Tancredi
Arte Gilmar Fraga

Está na internet, nos noticiários, nas premiações de cinema. Mas também está bem mais perto do que imaginamos: em casa, no trabalho, na faculdade, na rua e onde mais um homem use sua força ou seu poder para abusar de uma mulher, tocá-la, constrangê-la ou simplesmente ignorar a palavra “não”. Estamos falando de assédio sexual, nossa reportagem especial de Dia da Mulher. Donna trouxe 10 relatos de mulheres e agora mais 10 de mulheres sobre o assédio que sofreram.

:: Leia a primeira parte da reportagem

Fui molestada, que me lembre, dos seis aos 11 anos por meu padrasto. Sempre acontecia nas férias, pois a guarda integral tinha ficado com meu pai. Aos 11, parou porque descobri que aquilo que ele fazia não era carinho ao ler uma matéria em uma revista que não era para minha idade. Ameacei contar para a minha mãe aos nove anos. Contei… mas ela não acreditou em mim. E eu disse que ele nunca mais tocaria em mim. Para isso, me escondia embaixo da cama, trancava o quarto, me trancava no banheiro, até minha mãe voltar da rua. Às vezes, ficava com fome, mas não saía do quarto. Me lembro de fechar as janelas do quarto e ficar no escuro e de ele tentando abrir a porta. Ele me molestava enquanto dormia de bruços, geralmente estava bebendo whisky. Ele me molestava dentro dos quartos, na cozinha, no banheiro, nas salas, na garagem, na sala de jogos. Os empregados sabiam e eram todos omissos.
Para me proteger, decidi que tinha que ter um namorado. E assim o fiz: aos 14, me apaixonei por um guri lindo e meigo, que me trouxe paz. Consegui, assim, evitar as minhas férias na casa de minha mãe. Até que um dia não deu mais e tive que visitá-la. Eu tinha 15 anos, e ele me estuprou na frente de um espelho de corpo em cima da cama da minha mãe. Entrei em pânico e logo voltei para a casa do meu pai. Inventei para o namorado que o tinha traído, pois não poderia contar o que tinha acontecido. Meu padrasto havia ameaçado matar minha mãe, meu pai, meu irmão. Quando eu era mais velha, ele sempre dizia que tinha escolhido minha mãe por causa da filha menina. E que, quando ela me levava no consultório, ele era o meu pediatra. Que ele já me molestava sem minha mãe ver. E que ele não queria abusar das filhas dele, e por isso tinha me escolhido. Os empregados faziam a verificação se minha mãe tinha saído para o mercado para me deixar livre para ele, diziam que ele estava me esperando (nojo). A mãe do meu padrasto sabia de tudo. E dizia que eu era culpada da doença dele, que tudo era culpa da minha mãe. Eu tinha verdadeiro pavor dela. Hoje, tenho 42 anos e não tenho espelho de corpo inteiro. Não consigo. Me fechei por anos sobre esse tema. Cheguei a levar o assunto com minha mãe quando jovem, mas ela disse que não acreditava em mim. Foi a fase mais difícil, experimentei cocaína. Aos 23, tentei me matar, me joguei de um carro em movimento, mas fui salva pela minha melhor amiga. Aos 30, tive o primeiro episódio de depressão. Iniciei a terapia, porém a psiquiatra me culpou, dizendo que, na verdade, eu queria concorrer com minha mãe. Nunca mais voltei e tive outra recaída na cocaína. Aos 33, me dei conta de que todos os relacionamentos até então tinham sido abusivos, porque no fundo achava que eu não merecia ser amada. Entrei em um novo quadro de depressão. Foi por meio do grupo SOS abuso sexual que consegui me olhar por dentro e começar a cuidar daquela menina de seis anos. Mas a virada mesmo veio com a hashtag #primeiroassedio. Aquele monte de mulheres dando depoimento me fez jogar tudo no ventilador. Em 2016, procurei ajuda. Desde então, estou em terapia com uma psicóloga que trabalhou com crianças que sofreram abuso e violência e uma psiquiatra. Transformei minha dor em amor. Transformei a relação que tenho com minha mãe, e hoje não a culpo, pois ela foi tão vítima quanto eu. Com um ano de terapia, já consigo dormir de bruços de novo.”
Empresária, 42 anos

“Em 2014, depois de muito procurar emprego, fui selecionada para uma vaga de analista em uma grande empresa. Não tinha ideia do tipo de ambiente machista e sufocante que estava à minha espera. Fui tentando me relacionar (de maneira estritamente profissional) com todos, apesar de a minha presença ser questionada o tempo todo, principalmente pelo gerente geral da unidade. Havia, entretanto, um outro gerente que estava disposto a me ouvir e parecia respeitar minhas opiniões. Aos poucos, foi me incluindo cada vez mais em reuniões e em viagens curtas de trabalho. E fui começando a confiar nele. Na época, eu estava em um relacionamento bem conturbado, e um dia ele me viu transtornada no pátio da empresa, após uma discussão por telefone com o meu ex e me chamou para conversar. Em outra ocasião, me convidou para almoçar em um local um pouco distante, sob o pretexto de que a comida era boa e barata. No caminho, fomos conversando, e senti que ele forçava uma intimidade, me deixando extremamente desconfortável. Na volta, me disse que estava apaixonado por mim (detalhe, ele era casado). Fiquei sem ação e passei a evitar estar sozinha com ele. Aí, ele começou a forçar intimidade na frente dos outros. Me chamava por apelidinhos, citava situações e piadinhas internas como se tivéssemos uma intimidade que nunca tivemos. Comecei a sentir medo de estar em uma sala sozinha com ele. Um dia, contei, em prantos, ao meu então namorado, toda a angústia, o medo e a vergonha que eu vinha sentindo. Ao final, ouvi: ‘O que tu fez, o que tu falou pra que esse cara tivesse estas intimidades contigo? Alguma abertura tu deu’. Pronto. Era o que faltava para eu me sentir um lixo completo. Sabia que ir ao RH não ia adiantar nada, pois provavelmente todo mundo na empresa pensava que nós realmente tínhamos alguma coisa. Não duvido, inclusive, que ele tenha inventado alguma história. Felizmente, poucos meses depois a posição que eu ocupava foi extinta e fui demitida.”
Camila De Santi, designer, 37 anos

 

“Era início do ano, aquele em que eu seria monitora de sala pela primeira vez. Tinha 18 anos, estava cheia de expectativa e nervosismo, afinal era a primeira vez em que eu entrava em um cursinho pré-vestibular com aquela missão. Minha relação com a maioria dos colegas e professores era ótima. Mas tinha um professor que parecia esconder alguma coisa em seu olhar. Sabe quando você cumprimenta um homem, ele responde, mas não para de olhar para você com um sorrisinho misterioso? Esse professor tinha essa mania, o que já me deixava extremamente desconfortável. Mas fazer o que, né? Vai ver era só o jeito dele, coisa da minha cabeça. Tocou o sinal, o próximo professor viria. Era aquele. Fui apagar o quadro da última aula e, quando ele entrou, liguei o microfone e entreguei para ele. Ele me agradeceu com aquele olhar e aquele sorrisinho estranhos. Voltei para meu lugar, mas ele não parou de me olhar. Olhou para minhas pernas, para meus seios, para minhas pernas novamente e fez com os olhos esse caminho algumas vezes que me pareceram eternas. Quando acabou seu tour pelo meu corpo, testou o microfone com o dedo novamente, chegou a boca perto dele e falou em alto e bom tom: “Que saúde, hein”. Nesse momento, gelei, só queria sumir dali. Queria que ele começasse a aula, que acabasse para que eu pudesse ir ao banheiro chorar. Todos ficaram em silêncio, até os colegas ficaram com vergonha por mim. Mas ninguém falou nada. Nem eu. O que fazer? Não posso falar à gerente. Ela não vai acreditar em mim, vou perder minha bolsa, não vou poder seguir o cursinho, nem entrar na faculdade, enfim. Só tive coragem de contar ao meu namorado, hoje marido. Ele me convenceu a denunciar para a gerência do cursinho. Tomei coragem e denunciei. Mas a verdade é que nada mais aconteceu, me trazendo a sensação de que nada havia sido feito pela gerência. E ele seguiu lá, senhor da sua sala, do seu microfone e da sua liberdade de fazer o que quer.”
Babi Souza, criadora do movimento Vamos Juntas?, 27 anos

 

“Era meu primeiro emprego, eu tinha acabado de fazer 18 anos. O ambiente era composto majoritamente por homens, pois eu era auxiliar administrativa em um dos maiores sindicatos de Porto Alegre. Todos os cargos de chefia eram ocupados somente por homens. Algumas semanas após a minha contratação, meu chefe me chamou na sala dele para conversarmos a sós. Foi quando descobri que na sala tinha um espelho falso onde as outras colaboradoras, todas mulheres, eram observadas o tempo todo. Entrei, ele pediu que eu sentasse, me perguntou o que eu estava achando do novo emprego e se já estava ambientada. Respondi que sim, que estava gostando, foi quando ele passou a me fazer perguntas pessoais, com quem eu morava, se eu tinha namorado, o que eu gostava de fazer depois do trabalho… Em um primeiro momento, não vi maldade nas perguntas, pois ele havia dito que gostava de conhecer as colaboradoras melhor, já que aquela seria a minha segunda casa e que prezava pelo bom relacionamento entre as pessoas. A conversa seguiu até que ele me convidou para tomar um chope após o expediente, eu disse que não haveria problemas, e ele perguntou se minha mãe não se importaria, já que só tinha 18 anos. Tentei me esquivar e perguntei se podia sair da sala e saí. Alguns dias depois, esse mesmo chefe me ofereceu carona. Aceitei, mas inventei que morava mais perto do que na verdade morava. Então, desci do carro e peguei um ônibus. Levei algum tempo para perceber que, de fato, eu estava sendo assediada, afinal ele tinha a idade do meu pai e, aos meus olhos, seria improvável que ele tentasse qualquer coisa. Quando me dei conta de que os olhares eram invasivos e que as ‘piadinhas’ eram constrangedoras, eu já estava correndo risco de perder o emprego caso reagisse ou reclamasse. Nas vezes em que estava sozinha na copa e ele entrava, eu logo saía. No entanto, não ficava livre dos comentários de como eu era jovem e bonita e o quanto isso agradava aos associados. Isso ocorreu durante os oito meses em que lá trabalhei. Quando passei no vestibular para Direito, pedi demissão – e ainda sofri assédio moral, pois duvidaram que de fato eu havia sido aprovada no vestibular, já que não era inteligente para tanto. Esse foi só o primeiro episódio de tantos outros assédios que sofri.”
Mayara Bitencourt, advogada, 30 anos

 

“Fiquei um ano como estagiária em um órgão público de Porto Alegre. O chefe de gabinete, um homem bem mais velho do que eu, no início foi bem legal, elogiava meu trabalho, me passava tarefas importantes. Falava que eu tinha condições de crescer muito lá dentro, por ser dedicada, inteligente etc. Com o passar do tempo, começou a fazer perguntas pessoais, me deixando constrangida e pedindo segredo. Lembro que respondia apenas sim ou não, balançava a cabeça. Foi uma surpresa, não tinha intimidade para esse tipo de conversa. Ele começou a me cercar dentro do gabinete: toda vez que estava sozinha ele aparecia. Andava de cabeça baixa pelos corredores, creio que ainda não tinha noção de como isso estava me afetando. Me sentia mal, culpada, com vergonha, ofendida. Alguns colegas próximos começaram a notar e falaram que não era a primeira vez, que ele era ‘abusado’ mesmo. Eu precisava do estágio, achei que conseguiria aguentar, que era só ‘fugir’ dele. Uma vez estava atravessando a rua para chegar ao trabalho, quando vejo parar um carro na minha frente. Insistiu que eu entrasse no carro dele para pegar uma carona, já que estávamos perto. Mais uma vez não tive reação, entrei e ele falou: ‘Tu com esse cabelo molhado, vão achar que chegamos do motel’. Até que um dia o chefe disse que eu o excitava e que sabia que eu queria ficar com ele. Consegui pela primeira vez responder. Após isso, ele mudou minhas tarefas, colocou outra estagiária em meu lugar e fez com que eu fizesse outras coisas como ficar na recepção e organizar armários, tentando me diminuir. Comecei a ficar doente, não tinha vontade de levantar, sofria, chorava, ir trabalhar era horrível. Semanas depois, resolvi falar. Fui até o setor responsável e conversei com uma mulher. Desconfiou de tudo, pediu provas, disse que eu devia ter interpretado errado, que conhecia o homem e ele não era assim. Falei que não tinha condições, que não ficaria mais um dia lá. Peguei minhas coisas e nunca mais entrei nesse gabinete. Ameacei denunciar, pois ninguém estava me protegendo. Dias depois, comecei a trabalhar em outro setor. Tempos depois, ele me enviou uma mensagem pelo sistema interno dizendo que nunca quis me fazer mal e que eu teria interpretado errado. Não respondi. Tive que fazer acompanhamento psicológico e psiquiátrico, estava em depressão. Muitos colegas que viram e tinham conhecimento ficaram calados, se afastaram de mim. O que aconteceu foi abafado.”
Advogada, 29 anos

 

“Quando tinha 19 anos, conheci um cara através de uma amiga e começamos a sair um pouco antes das férias de verão. Depois, nos encontramos na praia. Numa noite, ele me ofereceu carona após uma festa. No carro, disse que queria ficar mais um tempo comigo e seguiu o caminho de um morro que liga duas praias. Eu disse que achava melhor não ir, mas mesmo assim ele prosseguiu. Chegando lá, descemos do carro. Rolou um beijo, ele avançou o sinal e eu disse que nada além de um beijo rolaria naquele momento. Ele insistia, no início me seduzindo, carinhoso. Mas, à medida que eu o barrava, ele tentava com mais força e segurava firme meus pulsos. Tive medo. A gente não espera essa atitude de alguém que já conhece, que é amigo de amigos, com quem tem um contato mais íntimo. Nesses casos, o início do assédio é sutil, até se confunde com desejo, pega de surpresa, você nem sabe ao certo como reagir, ‘Isso está mesmo acontecendo?’. Me senti intimidada. Consegui empurrá-lo e fui enérgica: ‘Me leva pra casa agora!’. Acho que ele se deu conta do que estava fazendo e recuou. Não trocamos uma palavra no carro e nunca mais falei com ele.”
Greice Antes, 40 anos, estilista

 

“Estava redigindo um livro que traçava a trajetória de uma empresária. O marido dela, coach, estava à frente da organização da obra comigo e prestava serviços à equipe. Para que eu pudesse fazer uma imersão no conteúdo em que estava trabalhando, comecei a aplicar as técnicas tal qual a equipe de empregados para compreender a dinâmica do negócio. Em uma das reuniões para acompanhar o andamento do meu trabalho, o marido da diretora fez uso do seu conhecimento técnico e persuasivo para me assediar moralmente e mascarou assédio sexual por meio de suas técnicas de relaxamento. Eu congelei. Por diversos motivos, não consegui reagir. 1: Ele e a esposa eram meus conhecidos de anos. Não esperava mesmo. 2: Por não esperar, tentei me convencer de que aquilo não estava acontecendo. 3: Como todas as mulheres, primeiro tentei culpar a mim mesma. Dias depois é que entendi que eu não provoquei nada. 4: Sabia que ele gravava todos os encontros por áudio e fiquei com medo de que os usasse contra mim em algum momento. 5: Ele seguiu me assediando moralmente, me atacando como mulher, como profissional e me ameaçando, me senti acuada.
Acabei saindo de lá fingindo que nada daquilo tinha acontecido, tentando me livrar da situação com o máximo de calma e agilidade que conseguia, para não deixar transparecer o medo que senti. Feminista militante, eu dediquei a minha vida acadêmica às pesquisas relacionadas à igualdade de gênero e não tive condições de dar sequência ao projeto, por questões éticas e também pelo pânico que senti de ter que estar no mesmo ambiente que ele. Mais tarde tomei conhecimento de que ele já assediou mais mulheres fazendo uso de seus conhecimentos técnicos para praticar e mascarar os abusos. Então, torno meu depoimento público não só por mim que passei por essa situação constrangedora, mas também por todas aquelas que sofrem com o mesmo e não têm condições psicológicas ou financeiras para se libertarem e darem um basta.”
Jornalista, 23 anos

 

“Vivi situações graves de assédio quando era criança e adolescente. Se fossem hoje, já saberia me defender melhor. Amadureci fisicamente muito cedo, como a maioria das meninas negras, e ainda sou alta. Então, com 9 ou 10 anos, eu já parecia um mulherão. Em geral, o assédio vinha a partir de homens bem mais velhos do que eu. Volta e meia, tinha aquela coisa de homens desconhecidos me seguirem na rua, em seus carros ou até mesmo a pé. Isso já dava uma sensação de insegurança grande. Uma vez, viajei junto com meus pais, e nessa viagem tínhamos que conviver todos os dias com um grupo de amigos. Havia um senhor que me ‘comia com os olhos’ sempre. Ficava olhando para as minhas pernas, pro meu peito, e meio que se perdia nesses olhares, o que me deixava extremamente constrangida.
Eu era bem nova, mas sentia como o olhar dele era inapropriado. Sentia que havia algo muito sujo ali. Ele nunca chegou a tocar em mim, graças a Deus, mas eu sentia tanto nojo que não conseguia nem olhar pra ele. Lembro de contar pra minha mãe, e ela então perceber o absurdo dos olhares dele. Combinamos de evitá-lo mesmo. Foi uma viagem que contei os dias pra acabar. Outra vez, aos 15 anos, eu e meus pais fomos a uma festa, e um senhor de uns 60 anos que era amigo deles me tirou pra dançar. Até ali tínhamos uma relação de tio e sobrinha. Eu encontrava ele desde pequena. Não sei se ele estava bêbado, não parecia. Sei que, durante a dança, ele colocou a mão na minha bunda e começou a apertar. Eu não tinha certeza se tinha sido acidente, então tirei a mão dele dali. Mas ele insistiu e apertou de novo. Aquilo foi um choque absoluto para mim. Foi bem traumático, porque eu sentia muito nojo dele, tinha que encontrar aquela figura muito frequentemente e pensava que ele poderia ter assediado várias mulheres naquele lugar. Ele era uma autoridade por lá, respeitadíssimo, carismático. Eu tinha vontade de contar para todo mundo que aquela imagem era uma mentira, mas senti que não podia. Só contei pros meus pais na época. E, como não havia provas, a gente não soube muito bem o que fazer senão me afastar dele e observar se haveria alguma suspeita de assédio por lá com outras mulheres.
Eu nunca tinha me dado conta de que não contei isso para ninguém, nem na terapia, que faço há anos. Acho que, como mulher, aprendi a zelar, cuidar e agradar. E acabei, de certa forma, ‘protegendo o assediador’, sabe? Eu lembro muito bem de uma ‘necessidade’ de não constranger as pessoas que estavam me recebendo na sua casa, na sua festa, no seu ambiente. Acho que eu fiquei com medo das consequências dessa denúncia. Se não desse certo, se não conseguisse provar, eu viraria ‘mentirosa’ e ‘criadora de caos’. Lembro de pensar que não foi ‘nada muito grave’, e de por isso optarmos por não fazer nada. E se tivesse sido ‘grave’, a gente agiria? A gente teria coragem de expor uma figura de autoridade ou de poder ali? E quem iria provar?””
Anaadi, 31 anos, cantora

 

“Sofro assédio sexual por parte do meu avô paterno todos os dias, desde criança. Não é possível, a meu ver, alguém que tenha sido violentada dizer que já ‘sofreu’ abuso. Isso não pertence ao passado, é vivo dentro de nós, é música que toca mil vezes na mente enquanto sobrevivemos. É tentar disfarçar na frente da família enquanto o patriarca te toca de forma que te faz relembrar aqueles momentos sórdidos… Acontecia no clube que frequentávamos, no sítio da minha dinda, na praia, na casa dos meus avós… Mesmo rodeada por familiares, ninguém pôde ser capaz de enxergar meu sofrimento. Quando criança, apresentava uma série de comportamentos que sinalizavam que algo estava errado – introspecção, tristeza profunda, depressão, ansiedade, medo, pânico. Eram sintomas cujo diagnóstico só chegou aos meus 33 anos quando consegui pronunciar em voz alta as seguintes palavras: sofro assédio sexual. As três palavras chave do que fui e sou. Assim como os sintomas do abuso se manifestavam em todos os ambientes (em casa, na escola, entre os amigos), ainda hoje eles me perseguem pelos lugares aonde vou, nas escolhas equivocadas que faço, nos empregos de que peço demissão, nos cursos de que desisto no meio do caminho. Enquanto imagens passam pela minha cabeça incessantemente, a ponto de pensar em tirar minha vida várias vezes: ao lembrar que fingia estar dormindo enquanto ele se masturbava com a minha mão, tocava no meu corpo dentro da piscina, me colocava em seu colo e me prendia nele, espiava enquanto eu tomava banho, abria minhas pernas para me olhar e se masturbar enquanto eu dormia. O meu sentimento era de medo, repulsa, desespero. Eu era só uma criança! Uma criança que nem entendia bem o que estava se passando, que estava sendo vítima de um crime. Foi viver a vida emaranhada na teia de mentiras de uma família feliz com pessoas de caráter invejável. Por isso, agora que tenho coragem de abrir ao mundo esse baú de histórias tristes, espero sinceramente que a parcela da sociedade que coloca a vítima de abuso na posição de alguém que ‘consentiu porque gostava’, entenda que seremos vítimas desse crime por toda a vida. Portanto, sofrer abuso é ser coagida a ficar calada, ter medo de julgamentos, ir toda semana fazer terapia. É tentar calar sua criança indefesa que grita por justiça, enquanto esta faz vistas grossas. Por isso, quem sofreu assédio ainda sofre desesperadamente todos os dias. Por isso digo que ‘é’ e nunca ‘foi’, no passado. É perverso, é crime.”
Biomédica, 33 anos

 

Logo no primeiro semestre de faculdade, fui assediada pelo meu professor. No primeiro dia de aula, ele passou uma lista pedindo que os alunos preenchessem com telefone e e-mail, para o caso de ele precisar fazer contato com a turma sobre algo relacionado às aulas. Mas ainda dentro da sala, recebi uma mensagem dele pelo WhatsApp. Ele salvou minha foto de perfil e me enviou dizendo que era a foto de uma moça muito bonita. A partir daí, as coisas pioraram muito. Ele nunca enviou uma mensagem sequer pra qualquer um dos meus colegas de turma para falar sobre a disciplina que ministrava. Todo o tempo, usou os contatos para assediar mulheres da turma. Comigo ele usava de ‘estratégia romântica’, dizia que tinha se encantando por mim, que me amava, que me desejava, pois tinha a mania de desejar o que não poderia ter, que sabia que não era bonito mas que gostaria de uma chance para me fazer feliz. Me disse até que tinha mostrado minha foto de perfil de WhatsApp para a mãe dele e que ela estava tão encantada por mim quanto ele. Até dizer que queria se casar comigo ele disse. Não importava que eu dissesse que aquilo ultrapassava os limites, que ele era meu professor e aquele tipo de assunto não cabia. Ele pedia mil desculpas, pedia pelo amor de Deus para que nunca contasse pra ninguém, pois isso destruiria a carreira e a vida dele. Mas, poucos dias depois, começava tudo de novo. Depois de um tempo, eu e minhas colegas começamos a conversar entre nós e foi aí que descobri que não era a única, ele vinha assediando sistematicamente a todas. Conversamos com pessoas que já estavam há mais tempo na universidade e descobrimos que não era exclusividade da nossa turma, que ele tinha longo histórico de assédio, que inclusive já havia respondido a um processo administrativo disciplinar, que o afastou por um curto período. Certo dia, estávamos fazendo prova, escrevendo de cabeças baixas, quando nos demos conta de que ele estava de pé, indo de mesa em mesa tirando fotos das mulheres da turma, dizendo que guardaria de recordação. Já me culpei tanto por não ter gritado, feito ele apagar as fotos, feito um escândalo… Até que parei de tentar achar culpa em mim. O comportamento abusivo é dele. Tempos depois, minha turma teria aulas com ele novamente, mas boicotamos a disciplina, até os homens. Nessa época, uma professora nova da universidade, advogada e feminista militante, nos ouviu e disse tudo que poderia ser feito para denunciar. Fizemos a denúncia na ouvidoria na universidade, tempos depois uma comissão preliminar foi instaurada, tivemos que depor, tudo muito constrangedor. Depois, um processo administrativo disciplinar foi aberto. Também fomos à Polícia Federal, mas a delegada não aceitou a denúncia, alegando não haver relação de hierarquia entre professor e aluno (?) e que apesar de o comportamento dele ser reprovável e lamentável, cabia à universidade punir.”
Cientista social, 30 anos

Leia mais
:: #EuTambém: para denunciar casos de assédio, mulheres criam novo movimento nas redes sociais
:: Modelos compartilham histórias de assédio sexual em campanha nas redes sociais

Leia mais
Comente

Hot no Donna