O que vi e vivi: jornalista conta como foi a sua experiência de dois dias como diarista

Foto: André Ávila, Agência RBS
Foto: André Ávila, Agência RBS

Treze anos depois de sua morte, a escritora norte-americana Lucia Berlin se tornou uma das apostas literárias de 2017 no Brasil. Neste ano, foi lançado por aqui Manual da Faxineira, coletânea de contos autobiográficos em que, como diz o título, ela conta, entre outras histórias, sua experiência limpando a casa de outras pessoas.

Foto: Companhia das Letras, divulgação

Foto: Cia das Letras, divulgação

E foi justamente no meio desse burburinho do mercado editorial que soubemos da história de Cristina Livramento, jornalista de Campo Grande que veio tentar a sorte em Porto Alegre. Em um texto publicado no blog Diário de uma Ex-jornalista, ela comentava ter vivido uma experiência exatamente assim. A seguir, Cristina nos conta o que ficou de sua jornada como diarista.

“É, no mínimo, interessante observar o desconforto das pessoas com a situação: uma jornalista em uma entrevista para uma vaga de diarista. As patroas não sabem se trocam beijinhos, se apertam a mão ou apenas sorriem”

A lotação faz a curva no Gasômetro. Sigo em direção à Casa de Cultura Mario Quintana com um nó na garganta. Sou feliz em Porto Alegre. Todos os ipês estão floridos, e meus amigos estão à minha espera. Há três meses, atravessei três Estados para resolver, aqui a crise existencial dos 40 anos. Precisava ser livre.

O ponto que desencadeia essa história começa em uma sexta-feira, em julho de 2015. Uma dor incômoda apareceu no meu ombro esquerdo, de madrugada, e travou todo o braço. Eu não tinha nada, só raiva do trabalho, das pessoas e de mim. Naquele dia, na minha primeira semana de volta ao trabalho após as férias, fui para a redação do jornal onde trabalhava, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, com o braço travado e a cara cheia de remédio. Discuti com minha editora nos primeiros 10 minutos. Peguei meus blocos de anotação e pedi demissão. Era a vida me dando a deixa – eis a porta que você tanto procurava, garota, faça acontecer.

Vou até o fim, era o mantra. Desde a saída do jornal, precisei de um ano e meio até conseguir engolir o choro, colar uns curativos nas feridas e seguir pela estrada. Sem dinheiro para absolutamente nada, em dezembro de 2016, viro camelô. Sigo o conselho de um amigo e vou para a rua vender os exemplares do meu livro, São Paulo & Notas Cinzentas de Amor e Saudade. Faço R$ 600 em 10 dias. O dinheiro foi o menos importante. Pela primeira vez, sabia o que era autonomia. Terminei minha pós-graduação em Direitos Humanos, Sistema Prisional e Execução Penal, retomei a fotografia, escrevi o livro Campo Grande 1889, 6 Baladas para Forasteiros e derrotei alguns demônios. Fiz as malas e comprei a passagem para Porto Alegre.

Foto: André Ávila, AGência RBS

Foto: André Ávila, Agência RBS

Fim de abril de 2017. No primeiro fim de semana, fui para o Brique da Redenção vender minhas caixinhas de fósforo com bordados, meus blocos de anotação costurados à mão e meu livro. Vendi R$ 30. Tudo bem, eu estava aqui, e isto já era suficiente.

Foi até reatar o namoro, morar com o namorado e a sogra, e uma semana depois o relacionamento terminar. Em pânico, comecei a procurar emprego. Passei por uma imobiliária, como call center, tentei um frila em uma pet shop, numa lancheria e nada. O que rendeu uma grana foi como diarista, R$ 150 por faxina. Fiz duas. Nunca pensei que estaria me rebaixando. Médico, diarista, pedreiro, fotógrafo, todos são iguais. Mas não era o que dizia a cara dos meus amigos.

No condomínio de luxo, no bairro Rio Branco, onde me hospedei, minha anfitriã me propôs trabalhar como diarista. “Te coloco no grupo do Whats do prédio”. Perfeito! Indicada por alguém que me conhecia, eu poderia conseguir faxinas na mesma região. A primeira, eu fechei com uma moradora do prédio. É, no mínimo, interessante observar o desconforto das pessoas com a situação: uma jornalista em uma entrevista para uma vaga de diarista. As patroas não sabem se trocam beijinhos, se apertam a mão ou apenas sorriem. Até minha anfitriã sugeriu uma postura mais adequada. “Você vai usar o elevador de serviço para ir lá, não é?”

Na noite anterior à faxina, a patroa avisa que vou limpar o salão comercial, no bairro Floresta, e não o apartamento. Às 9h05min, estou na porta da casa dela, uma empresária do ramo de alimentação. Toco a campainha e um homem, com uma criança no colo, abre a porta. Cheguei pelo elevador social, óbvio. Me apresento e ele diz “Ela está ocupada, aguarde” e fecha a porta. Dois minutos depois, a babá abre a porta e me convida para entrar. Aquele que me fechou a porta na cara, agora me sorri. Desconfio que tenha sido informado de que não sou uma diarista de profissão. Chegamos, no salão, por volta das 10h. “Não tem aspirador, não pode usar vassoura, só pano úmido.” Não sei como alguém consegue viver sem aspirador, mas tudo bem. “Quero que você tire todas essas caixas e limpe todas as estantes.” Olhei na minha volta e bufei internamente. “Tá aqui seu pagamento. Depois você aprende como faz pra voltar porque eu tenho compromisso agora.” A fome bateu no mesmo instante. Eram quase 11h. Com medo de perder a faxina, nem abri a boca. Nem sobre o almoço, muito menos sobre as passagens que ela deveria ter acrescentado ao meu pagamento.

Dois banheiros, uma cozinha, dois ambientes, um salão de mais ou menos 260 metros quadrados. Não contei as estantes, mas era eram altas, largas e havia mais de cem caixas. Saí dali por volta das 17h30min, com frio, tontura e fome. No trem, olhando para o Guaíba, fechei os olhos e sorri entre tantos rostos desconhecidos. Eu estava vencendo sozinha.

Foto: André Ávila, AGência RBS

Foto: André Ávila, Agência RBS

Na segunda vez, fui chamada para limpar o apartamento de 40 metros quadrados de uma professora universitária. “Está imundo porque ficou fechado um mês.” Quando ela abriu a porta, pressenti a pressão: tudo arrumadinho, parecendo limpo. Ela explicou que produtos usar, a utilidade de cada pano e por onde começar.

Existem dois tipos de faxina, até onde eu sei, e confirmado por outras diaristas. A geral e a pesada. Na segunda, você limpa janelas, por dentro de armários, geladeira e arreda móveis. O que também sai mais caro. As duas faxinas que fiz se encaixam na segunda opção. Só descobri qual delas faria quando a cortina do mundo maravilhoso das empregadas domésticas me foi escancarada. Você precisa da grana e você já está lá dentro. Ninguém questiona. Faz.

Dois banheiros com portas de vidro. Limpei as paredes, cada produto de higiene e cosmético, tudo. “Agora, vou tirar as roupas e você limpa por dentro do armário.” Eu estava me divertindo até ali. Poxa, você só quer um jeito de fazer dinheiro e pagar as contas, conseguir fazer o futuro acontecer. Limpei o mofo de sapatos e sandálias, guardados em saquinhos. Do armário para outro menor, com o material de trabalho dela. Arreda cama, passa pano úmido, nada de vassoura nem aspirador. “Quem sabe se você passar um álcool no chão, não fica melhor?” Queria ligar um batidão bem alto, colocar um fone e falar apenas com os meus demônios cativos. “Quero que você tire esse resto de obra da janela.” Já tinha tirado toda a poeira do quarto, dos móveis e do piso. O prédio estava em reforma. Não era só o pó branco, era pedra mesmo. Tirei. Limpei o outro quarto, de uma garota, acho que era da filha dela. Tirei algumas coisas de dentro do armário, como me foi pedido. É estranho mexer na intimidade de uma pessoa que não está presente. Arreda cama de novo, limpa estante, arreda outro armário. Mais resto de obra. Mais pano úmido no chão. Não rende, sabe? Você fica vendo a sujeira ser levada de um lado para outro. Comecei a função às 9h30min, já eram 15h30min.

Quando comecei a respirar aliviada porque estava finalmente chegando na sala, outra novidade. “Vou te explicar como quero que você limpe os armários da sala. Com esse pano, você coloca esse produto, só um pouco, passa uma vez por fora e por dentro. Aí, você molha o pano no balde e passa de novo.” Jamais vou saber como uma diarista se sente, mas naquele instante, comecei a me sentir bem mal. Isso é só comigo, é azar?

Limpei as estantes, como ela queria. Tirei livros, porta-retratos. Limpei garrafas, prateleira de bebidas, cadeiras, mesa, mais armário, bibelôs, arredei sofá, mais resto de obra. “Agora só falta você limpar a geladeira…” Foi quando consegui dizer “Não!”. Ela saiu, e eu terminei a cozinha, a área de serviço e outro quarto com mais estantes e livros. Passavam das 18h. Ela voltou, e fui direto para uma confeitaria comer um sonho e respirar.

Nenhuma delas voltou a me procurar. Nem fiz outra faxina. Uma senhora me ligou tentando me convencer a pegar dois ônibus até sua mansão. Dois dias, segundo ela, para limpar tudo. “Mas R$ 150 é muito caro e ainda vou ter que pagar as passagens?” Pensei muito sobre as duas experiências e decidi me dedicar ao que me trouxe aqui: investir minhas economias e minha energia em mim.

Foto: André Ávila, Agência RBS

Foto: André Ávila, Agência RBS

Ivone, diarista de uma vida toda, não passou pela mesma experiência. “Graças a Deus, não tenho o que reclamar. Todos, para quem eu trabalho, me respeitam e sabem que não gosto que fiquem na minha volta. Faço do meu jeito.” Enquanto ela andava na minha frente, arrumando a pousada onde moro, fiquei pensando no que Ivone faria se tivesse tido a chance de escolher a profissão. “E o valor da faxina é R$ 180, faz tempo que subiu”, disse com as sobrancelhas franzidas.

Conto para um amigo brasileiro que mora na Bélgica, que vou escrever para a Revista Donna sobre minha experiência como faxineira. “Aqui não existem diaristas. Aqui temos a Martiette, vem às sextas de manhã, de carro, é aposentada. Toma refrigerante com minha mulher, antes de ir embora. Como é cozinheira aposentada e tem um grande jardim, sempre nos traz de presente algo bom de comer. Quando viaja, nos traz vinho, patê… Volta e meia, vamos à casa dela.”

Não vou mais dar importância ao incontrolável – a conta bancária, o amor, o mercado de trabalho. Quero saber do agora. Com a espinha ereta, meus demônios se aquietaram. Ponho-os um a um, no seu devido lugar, toda vez que opto em criar. A editora desta revista pediu para que eu contasse qual será meu próximo passo. Minha resposta, suicida para muitos: não faço planos. A única coisa que sei é que preciso continuar escrevendo. Foi isso que me trouxe até aqui.

Este espaço é seu: cada semana uma leitora conta uma experiência marcante por que passou aqui nesta seção. Participe!

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