O que vi e vivi: leitora conta a história de amor ao reencontrar uma paixão da infância depois dos 60 anos

Ernesto e Clesis se reencontraram em 2014 e namoram desde então:
Ernesto e Clesis se reencontraram em 2014 e namoram desde então: "A maturidade é a grande responsável pela construção deste amor que nos une" | Foto: Arquivo pessoal

Às vésperas do Dia dos Namorados, Donna compartilha uma história de amor. A assistente social aposentada Clesis Crochemore, 66 anos, conheceu o produtor rural Ernesto Konradt Sobrinho, 77, ainda garota em Pelotas. Mas sequer sabia o nome daquele moço bonito de quem jamais esqueceria. A vida seguiu seu curso, eles casaram com outras pessoas, tiveram filhos (três, tanto ele quanto ela) e ambos enviuvaram. O destino os reaproximou em 2014, mais de 50 anos depois de terem se visto por acaso pela última vez. Desde então, vivem uma história de amor plena, serena e transformadora, nas palavras de Clesis. Moram em casas separadas, mas se falam todos os dias e têm na música e na dança um grande prazer a dois.

“Enquanto a gente estiver respirando, a vida continua. O amor e o romantismo acontecem em qualquer momento, em qualquer idade”

Nasci na zona rural de Pelotas em 1950. Saí de lá aos 11 anos para estudar na cidade. Não havia escola, à época, além do quinto ano. Era comum aquele êxodo, ainda que sofrido. A vida foi transcorrendo em suas etapas, formaturas, trabalho, amores, desamores, casamento, maternidade, alegrias, tristezas. Entre várias lembranças, havia os bailes e as bandinhas. Uma em especial, por ter um jovem trombonista, no meu ponto de vista, lindo. Era só uma apreciação platônica, pois eu era criança a acompanhar meus pais nas festas e ele, um jovem já a namorar. Soube de seu casamento, nascimento dos filhos e não mais vi o moço bonito.

Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

Em 2013, após uma longa enfermidade, faleceu meu marido, pai dos meus três filhos, com quem vivi por 31 anos. No ano seguinte, o rapaz bonito reapareceu. Separado daquele primeiro casamento e já viúvo de uma terceira relação. Um dia, após 52 anos, a gente se esbarrou. Nunca, até então, havíamos conversado.

O primeiro contato partiu dele: marcou um horário para conversar comigo no meu trabalho em 1º de novembro de 2014. É esta a data que consideramos o início do nosso namoro. Ele me convidou para fazermos companhia um ao outro como amigos, sair para dançar, viajar, estas coisas. No início, achei muito estranho: como que isso foi acontecer? Mas, depois, por que não? Somos tão livres hoje. Ele começou a me elogiar, disse que lembrava muito de mim como uma garota magrela trabalhando na bomba de gasolina da venda que meus pais tinham. Disse que, ao me ver pela primeira vez, perguntou a um amigo quem eu era, ao que responderam: “Filha do seu Nestor”. E ficou por isso. Nunca havíamos trocado nem uma palavra, nem um sorriso… Eu lembrei da carinha que ele tinha naquela época, continuava com os mesmos traços de jovem.

Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

Quando percebi, já estava completamente envolvida. O primeiro beijo ocorreu no dia 9 daquele mês, na saída de um baile. Eu estava toda desconfiada… Senti que ele era diferente; gostei do beijo e fiquei ansiosa esperando pelo próximo encontro. Desde então, há quase três anos levamos nossas vidas, juntos – cada um na sua casa. Somos um casal moderno (risos). Ele lá no seu sítio, com seus afazeres (para manter-se ativo, como ele próprio diz), criando cabeças de gado, dedicando-se a piscicultura, apicultura e hortaliças; eu na cidade, fazendo pilates, oficina literária e minhas atividades culturais. Estamos a 50 quilômetros de distância, quando usamos o caminho da estrada asfaltada, ou 37 quilômetros, em um atalho por uma estrada ruim. Vivemos para lá e para cá a buscar a companhia um do outro, todas as quartas-feiras e todos os finais de semana. No verão, mais na cidade; no inverno “para fora”, pelo calor do fogão à lenha. E nos falamos duas vezes por dia ao telefone para matar a saudade.

Dançamos todas as semanas em bailes na cidade, com música brega boa de dançar – ele conduz muito bem, é um pé de valsa e sabe qualquer ritmo -, ou em festas nas comunidades rurais, ao som das adoráveis bandinhas, que tocam as mesmas músicas que ele mesmo tocava quando eu era menina. Ele, aliás, tem a sensibilidade dos músicos: além de ainda tocar trombone, vai bem no violão. Encanta-me com as músicas da nossa juventude, dos anos 1960, 1970 e até 1980… Me arrisco a cantar acompanhando-o e passamos horas juntos assim. Nossa música a dois é Como É Grande o Meu Amor Por Você, do Roberto Carlos.

Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

Viajamos e nos divertimos muito, mas não escondo que somos bem diferentes: na formação, nos hábitos e na visão de mundo. E também somos, ao mesmo tempo, iguais, no entendimento mútuo das nossas diferenças, no gosto pela vida, no prazer em estar juntos. Tivemos uma vida farta em emoções e amores. Nosso maior legado no quesito coração são nossos filhos, os três dele e os meus três. Ernesto com duas mulheres e um homem, de 48 a 54 anos, e sete netos. E eu tenho dois rapazes, um de 33, outro 30, e uma “pequena” com 25 anos. Aliás, meus filhos não gostam quando eu me refiro aos meus “últimos anos de vida”. São os que vou passar ao lado de Ernesto construindo nossa história juntos até o fim.

Acho que é a maturidade a grande responsável pela construção deste amor que nos une. O que mais me encantou foi justamente a vitalidade dele. E isso é o que quero dizer para outras pessoas. Que enquanto a gente estiver respirando, a vida continua – e o amor e o romantismo acontecem em qualquer momento, qualquer idade. Muitas mulheres evitam, têm vergonha de se expor. Mas nós já trabalhamos, temos filhos criados, não devemos nada para ninguém, nem explicação: nossas escolhas são só nossas. Agora é a hora da contemplação, de viver muito bem este tempo que nos resta e deixar o amor chegar, pois nós merecemos. Não há o que temer, e sim o que sentir.

Foto: Arquivo pessoal

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