O silicone encolheu: mulheres seguem turbinando os seios, mas agora é a vez das próteses mais naturais

As brasileiras continuam fãs do silicone, mas agora cresce a procura por seios visivelmente menores (ou invisivelmente maiores) | Foto: Jefferson Botega, Agência RBS
As brasileiras continuam fãs do silicone, mas agora cresce a procura por seios visivelmente menores (ou invisivelmente maiores) | Foto: Jefferson Botega, Agência RBS

Antes de mais nada, vale ressaltar que esta reportagem está longe de afirmar que brasileiras e silicone irão romper tão cedo uma relação que já celebra bodas e ainda impressiona o resto do mundo pelos números. Segundo os dados mais atualizados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica, em um país que é vice-líder mundial em cirurgias plásticas, o implante nos seios é o segundo procedimento mais realizado do Brasil, só perde para a lipoaspiração. Em 2015, foram 158,9 mil implantes, o correspondente a 13% de todas as plásticas realizadas no país.

A novidade é que, se no início da década passada, essa relação era pública e notória, agora ficou mais discreta. Dos consultórios gaúchos, passando pelos decotes das celebridades e pelas tendências da moda, é possível medir em mililitros que os seios pequenos (ou não tão grandes) voltaram à moda. Entre as famosas, há exemplos para todos os gostos. Scarlett Johansson diminuiu seios naturais. Anitta reduziu duas vezes: primeiro os seios naturais, depois as próteses. Victoria Beckham tirou completamente o silicone, justificando que não combinava mais com o seu estilo sofisticado.

Mesmo quando há implantes, não é mais o desejo das mulheres que se perceba que os seios aumentaram da noite para o dia. Pelo contrário. Quanto mais naturais e discretas parecem as próteses, mais satisfeitas ficam as clientes. Ou seja, a tendência é seios visivelmente menores ou invisivelmente maiores.

Em volta desses seios menores e mais discretos, há muito mais do que um sutiã (sem bojo, como veremos). Há todo um novo ideal de beleza que é apontado por médicos, clientes e estudado por especialistas em beleza e comportamento. Para entender o movimento, vale retornar mais ou menos uma Sasha Meneghel no tempo. Expliquemos.

Foto: Jefferson Botega, Agência RBS

Foto: Jefferson Botega, Agência RBS

Os turbinados anos 2000

Em abril de 2000, Sasha era ainda um bebê de um ano e nove meses quando, encerrado o período de amamentação, sua mãe, Xuxa Meneghel, decidiu fazer o que muitas outras brasileiras já vinham fazendo: colocou implantes de silicone. O exemplo de Xuxa é emblemático não apenas por ser uma das mulheres mais famosas do Brasil à época, mas também porque a apresentadora não tinha seios naturais tão pequenos. Tanto que os 230 mililitros implantados foram o suficiente para um efeito visual imediato. Xuxa, como se dizia naqueles tempos, “turbinou” o que já tinha.

Zapeando pela TV naquele mesmo ano, percebia-se que a apresentadora estava longe de estar sozinha. Na novela das sete, Danielle Winits hipnotizava a audiência de Uga Uga com seus decotes. No horário nobre, Vera Fischer vivia um triângulo amoroso com seios moldados a bisturi. Outra estrela de Laços de Família entraria logo depois na onda. Entre agosto de 1999 e agosto de 2002, a principal diferença entre as capas da revista Playboy com a atriz Deborah Secco são 235 mililitros a mais em cada seio.

Fora da tela, a febre foi tanta que, em 2000, o Brasil não deu conta da demanda e faltou silicone no mercado por alguns meses. O país, como de praxe, vivia com alguns anos de atraso algo que já era consolidado nos Estados Unidos na década de 1990. Antes de apresentadoras, atrizes de novela, dançarinas de axé, assistentes de palco e afins aderirem aos seios arredondados e volumosos por aqui, Demi Moore exibia os seus em Striptease, de 1996. Talvez o maior ícone desse modelo de beleza, a salva-vidas de SOS Malibu Pamela Anderson apareceu sete vezes na capa da Playboy norte-americana daquela década.

Um sinal de que os tempos mudaram está, curiosamente, em algumas dessas mesmas estrelas. Em março passado, aos 53 anos, Xuxa trocou as suas próteses por um novo par 90 mililitros menores. “Amei! Nunca desejei tão grande, incomodava. Agora está do tamanho que sempre quis”, disse a apresentadora. Pamela Anderson, hoje com 50 anos, após um ensaio de despedida à Playboy em 2016, também reduziu os seus. Em 2014, Deborah Secco declarou ter se arrependido da cirurgia, que lhe causavam problemas para interpretar determinados papéis.

Longe do mundo das celebridades, há um discreto reconhecimento de médicos e pacientes de que era uma época de exagero. Tanto no número de cirurgia quanto no volume dos implantes, que não raro causavam desconforto e estranheza em algumas mulheres que se empolgaram com a moda. Hoje, se formos buscar na tela um exemplo emblemático de como se dão as cirurgias, pode-se olhar para outra estrela de Laços de Família: Carolina Dieckmann.

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Foto: Jeffesron Botega, Agência RBS

Não parece, mas é

Carolina Dieckmann foi abordada por um repórter do programa CQC, em 2010, implorando que ela jamais colocasse silicone. “Mas eu já coloquei!”, contou a atriz, revelando ter feito o procedimento um ano antes. De tão discreto, passou despercebido.

De acordo com o cirurgião Felipe Simões Pires, esse é um pedido que vem sendo mais recorrente: que os implantes não pareçam implantes. Algumas pacientes chegam a levar fotos de duas amigas diferentes ao consultório. Da amiga que fez um implante discreto e imperceptível e outra de uma amiga em que o efeito ficou visível, para mostrar justamente o que elas não querem. Embora soe como novidade, Pires conta se tratar de um regresso:

– Quando os implantes começaram, nas décadas de 1960 e 1970, a ideia era justamente essa: implantes de cerca de 150 mililitros debaixo do músculo. Foram naquelas décadas de 1990 e 2000 que se popularizou aquele modelo de silicone bem marcado. Hoje, cresce a demanda por modelos de cerca de 200 mililitros e debaixo da mama. Tu vais ter um desenho. Vai dar um volume. Vai poder usar uma blusa sem sutiã, mas não vai chamar a atenção por ser prótese – explica.

Era exatamente esse o pedido feito a Felipe pelas irmãs Luisa Rosenberg Ghisleni, 30 anos, e Laura Rosenberg, 22 anos. Ambas fizeram implantes de 200 mililitros.

Luisa e Laura: as irmãs colocaram os mesmos 200ml de silicone, o suficiente para levantar a autoestima, mas sem chamar muita atenção | Foto: Jefferson Botega, Agência RBS

Luisa e Laura: as irmãs colocaram os mesmos 200ml de silicone, o suficiente para levantar a autoestima, mas sem chamar muita atenção | Foto: Jefferson Botega, Agência RBS

– Fiz porque era reta mesmo. Quando era adolescente, chegava a usar dois sutiãs para parecer ter mais volume. Então, óbvio que quando eu coloquei, algumas pessoas repararam. Mas nunca foi o meu desejo que olhassem para mim e enxergassem um seio volumoso. Meu desejo era simplesmente me sentir melhor, poder vestir algo sem sutiã, por exemplo – conta Luísa, a primeira das irmãs a fazer o implante, anos antes de Laura.

Felipe operou ainda Elisa Rosenberg, 32 anos, a mais velha das três irmãs, que diminuiu seios naturais e colocou uma prótese de 180 mililitros. Durante toda a adolescência, quando fazia balé, conviveu com o incômodo de seios grandes demais.

– A primeira vez em que coloquei uma blusa sem sutiã, percebi ter feito o certo. E disse para o meu marido: se um dia eu tiver de trocar a prótese, vou colocar uma menor ainda.

Laura, a mais jovem, tampouco desejava seios grandes, especialmente por ser de estatura pequena. Melhorar a autoestima e se vestir com mais confiança também foi o principal objetivo do implante, não seios voluptuosos.

– Mas olha só: como ando por aí na noite, te digo que ainda tem muita gente que faz o implante para deixar apelativo. Para mostrar mesmo. Podemos ser tendência, mas não sei se somos maioria – opina Laura.

Tendência que, para entender melhor a origem, é preciso tirar o celular do bolso.

Foto: Jefferson Botega, Agência RBS

Foto: Jefferson Botega, Agência RBS

A ascensão das musas do Instagram

Questionado se o seios menores sinalizam algum tipo de mudança mais profunda nos padrões de beleza, o cirurgião Guilherme Fritsch-Nunes resume bem:

– Sem dúvida. Se fosse definir em estilos a grosso modo, saem as assistentes de palco e entram as influenciadoras digitais.

O seio pequeno é um dos reflexos de um corpo que virou fetiche nos últimos anos, exibido em redes sociais por “musas fitness” como Gabriela Pugliesi e Bella Falconi. Se trata de um corpo que, ao mesmo tempo em que é esguio e musculoso, se mantém curvilíneo e vende um estilo de vida de hashtags: força, fé e fitness. Segundo Daniela Schimtz, pós-doutoranda pela UFRGS e pesquisadora em temas de moda e beleza, há uma série de fatores a serem observados nesse corpo que, em vez de aparecer apenas nas revistas e na TV, se mistura às fotos dos amigos nas timelines:

– Essa proximidade da rede social, que vem ainda com vídeos dessas mulheres malhando, vende um modelo de beleza que não é herdado. Diferentemente de uma atriz da novela que é linda porque nasceu linda, a musa fitness dá a entender a suas seguidoras que aquele tipo de beleza não é apenas para ser admirado, pode ser obtido. Passa à mulher a ideia de que ela pode construir a sua beleza. Antes, se falava em emagrecer. Hoje, se fala em secar e obter massa magra. O lado cruel disso é que pode gerar uma frustração na mulher por não conseguir se dedicar àquilo entre as tantas atribuições que ela já tem.

Um ponto interessante a ser observado é que se trata de uma beleza em que a opinião masculina pouco importa. Não é raro marmanjos resmungarem por aí que não é preciso tanta malhação. Que entre um seio maior ou menor, por exemplo, sem dúvida optariam pelo primeiro. Sobre isso, Daniela lembra o filósofo Gilles Lipovetsky, que vê no que define como “alergia feminina aos volumes adiposos”, um “novo desejo de neutralizar as marcas muito enfáticas da feminilidade e a vontade de ser considerada menos como corpo e mais como sujeito dono de si”.

E os seios, como se inserem nessa equação? Como contradição. Quase um contraponto, segundo Daniela.

Natural, pero no mucho

Perguntados se a moda do peito pequeno chegará ao ponto em que as mulheres dispensem o silicone, cirurgiões, embora se reconheçam suspeitos para falar, acreditam que não. Um implante parecer natural, observam, é diferente de ser natural de fato.

– Acontece que o seio natural, natural mesmo, tem um formato de gota. Eu não acredito que as mulheres abandonarão o silicone porque há muito esse não é o formato que elas almejam ter. Elas passaram a querer um implante que não se pareça um implante, mas isso não significa que aceitam os seios como são e que não se incomodem com os efeitos do tempo sobre eles – avalia Guilherme Fritsch-Nunes.

Não é apenas o tempo que atua sobre os seios. Daniela Schimtz observa que esse estilo de beleza de corpos esguios exige pouco percentual de gordura. Só que o seio é composto em boa parte por gordura, e ele inevitavelmente diminui conforme a carga de exercícios. De modo que o implante de silicone, ainda que pequeno, pode, para muitas, simbolizar um pé firme na feminilidade.

– Vejo alguma coerência entre essa exaltação do seio pequeno e uma espécie de feminismo chique. A mulher deseja exaltar os seios, sim, mas da forma como ela acha bonito. Ela não nega o seio, mas não o exalta daquela forma exagerada que remete a uma objetificação do corpo dela pelo homem, que estava nos seios grandes, naturais ou artificiais – declara a pesquisadora.

Moda que sinaliza otimismo

Questionada sobre o impacto dessa nova onda dos seios pequenos na moda, consultora e colunista de Donna Patrícia Pontalti cita os mais evidentes de cor e salteado. Nos sutiãs, por exemplo, os modelos com bojo deram lugar nos últimos anos aos modelos que exaltam o formato dos seios como são, e os colocam em evidência com rendas espiáveis entre mangas e decotes. O retorno das gargantilhas chockers noventistas, que levam o olhar direto para os ossinhos do colo da mulher, e dos decotes profundos setentistas, que exaltam o espaço vazios entre os seios, também sinalizam essa tendência.

Patrícia também enxerga como “inegável” o papel das redes sociais e suas celebridades como influenciadoras de moda hoje. Porém, ao opinar sobre esse modelo de beleza rigoroso das musas fitness, Patrícia prefere trazer contrapontos. E tem uma visão mais otimista conforme o olhar se distancia e passa a englobar outros sujeitos:

– As modelos de passarela, por exemplo. São exageros, claro, mas elas sinalizam tendências. A Kate Moss era símbolo do heroin chic, daquela coisa pós-noite nada saudável. Já a Gisele Bündchen sinalizava, para os padrões da moda, um modelo que concilia magreza a curvas e volúpia. Nesse âmbito, o que enxergamos em uma modelo como a Cara Delevingne?

Last night in Paris @valerianmovie

Uma publicação compartilhada por Cara Delevingne (@caradelevingne) em

Além dos seios pequenos, Cara chama a atenção pelas sobrancelhas grossas e pelas mudanças inusitadas de cabelo. Patrícia conclui:

– A meu ver, ela sinaliza uma mulher mais confortável no seu corpo. Se os seios vão diminuir até o dia em que as mulheres chegarão a abandonar o silicone, não sei. Mas espero, sim, que esse seja um sinal de que a mulher vem se aceitando mais.

Um sinal ainda muito discreto. Mas de mililitro em mililitro…

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