#opinião Dos oito aos 80: Marcha das Mulheres conectou gerações

Foto: AFP
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Pilar Laitano Ferreira (*)

A Marcha das Mulheres em Washington foi diferente de qualquer outra manifestação feminista da qual já participei. Não só pela dimensão, monumental, mas pela variedade de pessoas presentes na marcha. Essa diferença ficou evidente quando uma senhora me parou e pediu para tirar uma foto minha. Meu cartaz falava sobre faculdades só para mulheres, e meu blusão trazia o nome da minha escola, o que levou várias ex-alunas a me pararem para conversar.

“Eu também estudei em Barnard, me formei em 1976”, saudou uma senhora com mais de 60 anos. O que mais me marcou, no entanto, foi o que ela me disse já indo embora: “Muito obrigada por estar aqui!”. Para ela, eu – a universitária de 18 anos – tinha menos obrigação de estar lá do que ela, provavelmente já avó de alguém. Para mim, até agora, isso era inimaginável. Se alguém tinha obrigação de andar 15 quilômetros no frio era eu, não ela.

Mais para frente, encontrei uma família com duas meninas pequenas. As duas estavam animadíssimas, gritando palavras de ordem como “This is what democracy looks like” (“assim é a democracia“). E como nada é tão sério assim para as crianças, rindo do slogan “hands too small, can’t build the wall” (algo como “suas mãos são muito pequenas para construir o muro“), piada com as notoriamente minúsculas mãos do presidente Trump. As crianças de Washington que não marcharam também fizeram questão de participar. Nas primeiras quadras em direção ao Capitólio, uma família com dois meninos que não tinham mais do que cinco anos montou uma barraca para distribuir café de graça. Um cartaz dizia: “Nossa família apoia a Marcha das Mulheres”. Mais tarde, uma ativista mirim, Sophie Cruz, fez um discurso emocionante direcionado às crianças presentes na marcha. Ela disse que as crianças não deveriam ter medo porque ainda existem muitas pessoas com “amor no coração”.

Esse foi o espírito da manifestação: sororidade transcendendo gerações. A marcha não era de uma “juventude revolucionária”. Era das avós que não admitem perder direitos pelos quais elas lutaram e das meninas que não conseguem imaginar um mundo onde elas não sejam donas de si mesmas. Por isso foi tão especial. Não foi um movimento de ativistas para ativistas. As mulheres eram mães, avós, trabalhadoras, donas de casa, estudantes, crianças, republicanas e democratas. Mais do que tudo, isso legitimou a marcha (não que precisasse): o futuro com o novo presidente parece tão preocupante para mulheres que todas sentiram necessidade de agir. Ninguém ali pensou duas vezes sobre marchar ou não. Marchar era uma obrigação moral.

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Pilar Laitano Ferreira na marcha/Arquivo Pessoal

Outro momento incrível foram as duas horas de discursos. Celebridades, senadoras e ativistas fizeram discursos emocionantes. Eu nunca tinha sentido o que senti naquelas horas. Um dos tópicos mais citados era a proteção da Planned Parenthood, centro de saúde que garante vários tipos de serviços como pílula anticoncepcional e abortos seguros. A nova administração prometeu retirar os fundos que o governo federal investe na instituição. Toda vez que Planned Parenthood era citada, a multidão inteira gritava. Todas as mulheres, incluindo e talvez principalmente as vovós, sabem da importância desses serviços para a vida das mulheres mais pobres.

Antes da marcha, já tinha certeza de que era feminista, mas participar desse momento histórico me deu ainda mais motivos. Senti uma conexão com as mulheres que lutaram por cada um dos direitos dos quais desfruto hoje e muita responsabilidade com relação às meninas que ainda virão e dependem da minha luta. Tenho certeza que não fui a única a sentir essa conexão. A causa transcende gerações. Essa mensagem é a mais poderosa que a marcha poderia trazer: a união entre as mulheres. Nós fomos, não por acaso, socializadas para competir umas com as outras. Sob um governo que nos ameaça, nada mais inteligente do que jogarmos todas juntas pela defesa dos nossos direitos.

* Pilar Laitano Ferreira tem 18 anos e estuda Ciência Política no Barnard College, na Universidade de Columbia, em Nova York.

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