Orgulho LGBTQI+: cinco mulheres celebram as conquistas e apontam no que é preciso avançar

Foto: Pexels
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Neste mês, celebramos o Dia do Orgulho LGBTQI+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersex). A data de 28 de junho de 1969 é um marco na luta contra o preconceito: neste dia, gays, lésbicas e transexuais que frequentavam o bar Stonewall Inn, em Nova York, reagiram a uma série de represálias e batidas policiais. Dessa tomada de posição resultou a primeira parada livre, realizada no ano seguinte, dando início a um movimento que se espalhou mundo afora para comemorar a diversidade e reivindicar igualdade de direitos.

Aproveitando a deixa, perguntamos a cinco mulheres LGBTQI+ que conquistas podemos celebrar e no que precisamos avançar.

Natália Borges Polesso

Escritora, autora de Amora, livro de contos que tem mulheres lésbicas protagonistas

Foto: Mateus Bruxel

Foto: Mateus Bruxel

Conquistas que podemos celebrar

Acho que avançamos bastante na questão de direitos, como casamento igualitário e nome social, e na questão das ocupações de espaços midiáticos, acadêmicos e literários. Porém, me parece que, de uns anos para cá, precisamos prestar mais atenção à manutenção dessas conquistas, até mesmo reivindicar que se cumpram algumas delas. Essa virada conservadora, somada à invasão religiosa das bancadas legislativas, parece um pesadelo do qual não conseguimos acordar. A organização dos movimentos sociais e a eleição de representantes que se preocupem com nossas pautas, me parece o único caminho para que isso não nos prejudique e para que não nos mate por negligencia e ignorância.

Em que precisamos avançar

Precisamos avançar na criminalização da homofobia, na extinção da expressão horrenda “ideologia de gênero”, empregada erroneamente para a comunidade LGBT (e não para a ideia estúpida de um feminino e um masculino únicos) e na extinção de projetos que deem qualquer brecha para esta aberração de tratamento chamado de “cura gay”.
Bônus: educação inclusiva, professores capazes de lidar com bullying, para que nenhum aluno/a LGBTQI+ se sinta desambarado/a.

Pamela Machado

Formada em Marketing e blogueira

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Conquistas que podemos celebrar

Ainda temos muito, mas muito mesmo o que avançar, mas conseguimos enxergar hoje alguns pontos que melhoraram, como o direito à adoção por casais do mesmo sexo, a realização de declaração de união estável e ao casamento civil, através da Resolução 175 do CNJ que proíbe os cartórios de todo o Brasil a se recusarem a celebrar casamentos homossexuais ou a não conversão de união estável a casamento civil, a mudança de nome civil e social. Em questões de comportamento, conseguimos enxergar um aumento da visibilidade dentro da mídia, papel hoje fortemente desempenhado por estrelas como Liniker, Pabllo Vittar, Gloria Groove, Linn da Quebrada, levando a público uma reflexão e a discussão sobre assuntos em torno da comunidade LGBTQI+.

Em que precisamos avançar

Quanto às coisas que ainda faltam serem conquistadas, penso que nosso maior problema hoje é a imensa taxa de mortalidade devido à homofobia. Somos o país que mais mata transexuais e travestis, e de forma cruel, e ainda não temos uma lei que criminalize a homofobia. Precisamos aprender e educar a sociedade a falar sobre sexualidade, orientação sexual, sobre diversidade e realmente levar a inclusão na prática: termos mais espaço na mídia, na política, projetos de inserção ao mercado de trabalho, de capacitação, incentivos reais e garantidos. Espero que a sociedade entenda que queremos respeito.

Marília Floôr Kosby

Poeta e antropóloga, autora de Mugido e Os Baobás do Fim do Mundo, entre outros

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Conquistas que podemos celebrar

Em 2016, durante as ocupações das escolas de Ensino Médio, tive a oportunidade de, acompanhada por outras poetas e algumas antropólogas, visitar instituições de ensino mobilizadas, em Porto Alegre e em Pelotas. Algumas das questões mais problematizadas pelxs estudantes eram o binarismo de gênero e a heteronormatividade. Nos percebemos bastante desatualizadas com o universo que nos foi apresentado e aprendemos muito, inclusive sobre nós mesmas.
Podemos listar ainda:
– Prêmios Jabuti e Açorianos de literatura para Natália Borges Polesso, pelo livro Amora.
– Mobilização em torno da criação do Estatuto da Diversidade Sexual e de Gênero;

Em que precisamos avançar

Precisamos da intensificação do debate de gênero no cotidiano das escolas brasileiras, considerando suas interseccionalidades com os debates de raça e classe, por exemplo. De vigilância e engajamento das mulheres no sentido de combater a misoginia nas universidades e no demais ambientes institucionais _ especificamente erradicar motivações que concebem e endossam o estupro corretivo ou qualquer outra violência que vise a “cura” e/ou a aniquilação de mulheres homossexuais.
Tratar uma mulher lésbica como se ela fosse “um cara”, “um amigão”, é uma forma de tentar docilizar sua dissidência sexual, está bem longe de ser uma maneira de respeitá-la. Esse costume poderia deixar de existir.

Marcelly Malta

Presidente da ONG Igualdade, mais antiga associação de travestis e transexuais do RS, e vice presidente da Rede Trans Brasil

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Conquistas que podemos celebrar

Quando eu mudei meu nome civil em 2008, tive que entrar com um processo judicial _ e neste processo um juiz entendeu por um laudo que eu tinha um transtorno. O laudo foi assinado por Elizabeth Zambrano, nele ela explicava como eu me sentia. Até acho que isso ainda tem que ser melhorado, porque só é possível ser operado por exemplo, se alguém diz que tu sofres de transtorno. Não basta a tua própria palavra dizendo que tu se sente uma mulher.

O Rio Grande do Sul tem uma galeria com celas específicas para travestis e seus companheiros(as) no Presídio Central de Porto Alegre (PCPA), inaugurada em 2012.

Por muito tempo, as travestis tinham como unica opção serem prostitutas. Eu, por exemplo, fui prostituta por 40 anos, e poucas que conheço acabavam o Ensino Médio. A família exclui e depois a sociedade exclui essas pessoas. Mas o que tem que lembrar é que nós somos seres humanos. Hoje isso está mudando, nós estamos em mais espaços e somos mais respeitadas.

Em que precisamos avançar

É preciso parar de usar termos pejorativos. O termo traveco é muito utilizado ainda pelas pessoas, principalmente pela falta de conhecimento. Outro tipo de tratamento é dizer um homem vestido de mulher: eu me sinto uma mulher 24 horas por dia, não sou um homem vestido de mulher.

O evento é conhecido como Parada Gay, sendo que deveria ser chamada Parada Livre ou da Diversidade. Isso faz com que entre em uma caixinha, o que não deveria acontecer, já que a proposta é exatamente o contrário.

Nanni Rios

Militante, produtora cultural e idealizadora da livraria Baleia, que privilegia literatura de autoria feminina e as temáticas de gênero, sexualidade e direitos humanos

Foto: Anderson Fetter

Foto: Anderson Fetter

Conquistas que podemos celebrar

Uma conquista é a possibilidade de retificação do registro civil para travestis e transexuais sem a necessidade de cirurgia de mudança de sexo. Também o casamento igualitário: um direito que qualquer casal heterossexual tem de assegurar, perante a lei, a legitimidade de sua vida compartilhada e proteger os direitos das partes em caso de morte do cônjuge ou litígio.
Ainda que o interesse seja comercial e a abrangência restrita, reconheço como uma vitória a preocupação de algumas empresas e organizações em capacitar atendentes e funcionários para a não discriminação por gênero ou sexualidade em seus ambientes, juntamente com algumas ações afirmativas para a contratação de pessoas LGBTs, a fim de promover a diversidade, tanto interna quanto externamente.

Em que precisamos avançar

Temos de avançar na questão de doação de sangue: o estigma de que pessoas LGBTs têm “vida promíscua” impede que o nosso sangue seja aceito em hemocentros, mesmo se a pessoa estiver com os testes de DST e HIV/Aids em dia ou estiver em um casamento monogâmico. Já qualquer pessoa heterossexual, promíscua ou não, é potencialmente doadora de sangue, basta realizar os testes necessários. Precisamos de inclusão das questões de gênero e sexualidade no Plano Nacional de Educação, para que todas as crianças cresçam sabendo respeitar as diferenças e consigam, sem maiores sofrimentos, viver plenamente a sua sexualidade e/ou identidade de gênero ao longo da vida. E que a representatividade LGBT seja importante o ano todo e não só no mês do Orgulho LGBT: que a nossa sexualidade e/ou identidade de gênero sejam transversais e não o assunto em si.

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