Para a Beatriz de 2002: “Esta carta é um alerta sobre o estilo de vida workaholic e a alimentação processada e industrializada”

A nutricionista Beatriz Pellin Moser (Foto: André Ávila)
A nutricionista Beatriz Pellin Moser (Foto: André Ávila)

No mês em que se intensifica a campanha pelo combate ao câncer de mama, Donna convidou três mulheres que passaram pela doença a escrever uma carta para elas mesmas às vésperas do diagnóstico. Mas esta mensagem também é para você, que nunca passou por isso. Para saber que sempre é tempo de se prevenir e que mesmo uma notícia tão temida pode ser o ponto de virada e redescoberta. Veja abaixo o depoimento da nutricionista Beatriz Pellin Moser, 55 anos:

 

Olá, Beatriz de 2002

Imagino que você esteja surpresa de receber uma carta minha, da Beatriz de 2017, porque eu lembro bem de como você pensava logo depois da virada do milênio. Você, com 40 anos, acredita que tudo na sua vida já está meio definido, não é mesmo? Afinal, é difícil na vida da gente uma surpresa maior do que uma terceira gravidez com 11 anos de diferença da segunda. E você teve uma surpresa maior ainda, não teve? Uma gravidez dois anos depois de uma ligadura!

Pois é, mas o Eduardo está aí e é um menino lindo, saudável, tudo nos conformes. Te adianto, aqui de 2017, que ele continua sendo. Um pouco menos disposto àquelas experiências no Exterior ainda adolescentes da Bárbara e do Bernardo, mas é o jeito dele e da geração dele. Aquele sentimento de que você poderia ter outros sete desses filhos lindos se mantém, mas fique tranquila. Nesse quesito, o Eduardo é a última surpresa.

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Mas o principal motivo de eu te escrever não é para nos vangloriarmos, como duas comadres, da nossa família maravilhosa. É para te falar de um abalo que você sofrerá daqui a três anos, quando fizer os seus exames de rotina. Aqui mesmo, na Sogipa (sim, continuamos com o consultório de nutrição aqui dentro), você vai um dia estar observando o Eduardo para lá e para cá na piscina, e receber um telefonema. Daquele jeitão seco dela, a ginecologista vai comunicar que você está com um tumor maligno na mama direita.

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Sei o que você está pensando. Com tudo o que eu me cuido?! Poxa, valeu a pena ter passado a vida comendo grãos e saladas. Frutas e legumes. Ter aturado na adolescência o apelido de “alpisteira” e ainda assim eu vou ter um câncer de mama? Pois é, vai.

Vai dar vontade de rasgar os diplomas todos? Vai, pode ter certeza. Medicina chinesa, nutrição macrobiótica etc. Tudo isso que você passou a vida estudando, aplicando e pregando vai parecer uma engambelação. Mas vou te pedir calma, por uma série de motivos.

Primeiro, porque você não estava errada.

Você é o que você come, certo? Ou, como Hipócrates dizia e você vive repetindo no consultório, “que o alimento seja o seu remédio”. Essa máxima continua valendo 15 anos depois, pode ficar tranquila. Mas me dei a liberdade, ao longo dessa década e meia, de colocar mais dois verbos nesse ditado. Você é o que você come, o que você faz e o que você pensa. Daí eu te pergunto, o que você anda fazendo, Beatriz?

Depois que você tirar uma das mamas e estiver impossibilitada de mexer o braço, vai chorar, vai se sentir atada, incapacitada. Como a mãe vai te dizer um dia, vai estar angustiada por não poder “voar as tranças” pra lá e pra cá. Mas para onde você está levando essas tranças aí, Beatriz? Trabalhando entre Gramado e Porto Alegre diariamente, tendo que matricular o Eduardo em duas escolinhas diferentes? Será que vale a pena esse estresse?

Quer outro exemplo? Há quanto tempo você não dança, Beatriz? Você esqueceu o quanto ama dançar? Mas fica tranquila que o câncer servirá como um divisor de águas nesse sentido. Sabe qual o diploma que eu tenho na parede aqui em 2017? Tricampeã sul-americana de hip hop master. Você nem sabe o que é hip hop, não é? Pois recomendo você ir prestando atenção em uma tal de Beyoncé (se não me falha a memória, ela ainda está em uma banda chamada Destiny’s Child), pois você vai ter de reproduzir umas coreografias dela daqui um tempo pelo interior do Estado. A gurizada vai fazer selfie contigo e com as tuas colegas. Ah, você não deve saber o que é selfie, né? Bom, deixa pra lá.

Eu dizia também que você é o que você pensa, e me alegro em te dizer que sou mais malvada do que você. Outra oportunidade que o câncer vai te dar é a de fazer terapia, e aprender que não precisamos dizer “sim” para tudo. Tampouco precisamos resolver os problemas de todos. E a cabeça fica consideravelmente mais leve no travesseiro sabendo disso.

Você deve estar curiosa sobre o tratamento. Pois saiba que o diagnóstico que você terá, aos 43 anos em um exame de rotina e em um estágio ainda impossível de tatear, é o que eu desejo para toda paciente de câncer hoje. Isso será fundamental para um tratamento o menos traumático possível. A quimioterapia será por medicamentos via oral, praticamente não haverá efeitos colaterais e você se recuperará em tempo recorde: quatro meses e a sua mama já estará reconstruída. Depois disso tudo, você perceberá o quão raro é isso.

O que eu testemunhei, como voluntária do Imama desde 2007 , é que a alimentação de “alpisteira” serviu para alguma coisa, sim. Ter uma alimentação saudável vale como prevenção, mas é igualmente importante até para quem fica doente, e mais ainda durante e depois da doença.

Todavia, eu tenho a convicção, Beatriz, de que muitos daqueles grãos e legumes que você vem consumindo estão envenenados de agrotóxicos. Por sorte nossa, na Porto Alegre de 2017 há 29 feiras orgânicas espalhadas pela cidade. Não há desculpa para nos alimentarmos mal aqui. Hoje, além de uma alimentação menos envenenada, você leva uma vida ainda planilhadinha, mas com tempo reservadinho para a ioga, para o sol, para a feira orgânica, até para o marido – que sim, daqui a 15 anos, ainda reclamará da sua agenda.

Essa carta serve para estragar algumas surpresas, mas serve também para alertar toda a nossa geração, Beatriz. Somos, infelizmente, a geração teste para um estilo de vida workaholic e de alimentação processada e industrializada. E o pior é que crescemos ouvindo que isso era o bom, o normal. Que dinheiro e refrigerante trazem a felicidade. Dia desses, eu fui a Foz do Iguaçu e tive de fotografar uma placa. Ela dizia: “Não alimente os animais. Eles estão hipertensos, diabéticos, agressivos e obesos”.

É o que a comida de humanos faz com qualquer tipo de animal, inclusive nós mesmos. Só faltou o “cancerígenos” na placa, mas aposto que é só por falta de diagnóstico. Então, Beatriz, fica tranquila que você vai enfrentar e sair dessa. Mas, além disso, você tem o compromisso de ajudar esses pobres animais em torno de você. É o que vamos fazer nos próximos 15 anos.

Um beijo,

Beatriz Pellin Moser

 

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