#pedalecomoumaguria: mulheres aderem à bicicleta como meio de transporte

A biomédica Gabriela Pessin Meyer usa a bike até para ir em eventos sociais: por conta disso, cogita até vender o carro
A biomédica Gabriela Pessin Meyer usa a bike até para ir em eventos sociais: por conta disso, cogita até vender o carro

Rossana Silva, especial

Já era noite na Avenida Padre Cacique, em Porto Alegre, quando a designer Jessica Nakaema, 28 anos, viu que havia furado o pneu da bicicleta. No mesmo instante, ela enviou uma mensagem para o grupo Pedal das Minas, no aplicativo Telegram. Em poucos minutos, cerca de 20 ciclistas – todas mulheres – chegaram para ajudá- la: remendaram a câmara e ainda levaram Jéssica para participar da pedalada exclusiva para garotas, o Pedal das Gurias.

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Fundado em janeiro, o grupo chega à primavera reunindo entre 30 e 50 garotas toda semana para pedalar, além de outras centenas que interagem diariamente no WhatsApp e Facebook e trocam dicas sobre a vida de ciclista em Porto Alegre. Cada bike traz um adesivo com a hashtag que identifica o coletivo e serve como uma convocação a outras mulheres: “ Pedale como uma guria”.

– Pedalar como uma guria pressupõe apenas essas duas coisas: ser guria e saber pedalar. Qualquer pessoa nessas condições é bem-vinda. Não precisa nem ter bicicleta, porque, muitas vezes, nós podemos emprestar – explica a assistente de marketing Cris Oliveira, 31 anos, que percorre de bike 180 quilômetros a cada semana, sem contar os deslocamentos de sábado e domingo.

cris oliveirasite

Assistente de marketing Cris Oliveira. Foto: Ándre Ávila

O Pedal das Gurias surgiu na carona de um movimento maior, que ganha cada vez mais espaço entre as mulheres: adotar a bicicleta como meio de transporte e ícone de um estilo de vida mais saudável e sustentável. Em pesquisa realizada em março, a Empresa Pública de Transporte e Circulação ( EPTC) contabilizou que as mulheres correspondem a 20% dos deslocamentos em bicicleta realizados na ciclovia do cruzamento da Rua Mariante com a Avenida Protásio Alves, o ponto com maior volume de ciclistas entre os monitorados.

– Além da pesquisa, é só andar pela cidade para ver que a participação feminina tem aumentado bastante entre os ciclistas – afirma Alessandra Both, 44 anos, gerente de Projetos e Estudos de Mobilidade da EPTC, que costuma ir trabalhar de bicicleta.

A descoberta de uma rotina com mais tempo ao ar livre e ventinho no rosto tem feito com que a biomédica Gabriela Pessin Meyer, 29 anos, raramente tire o carro da garagem. Há quatro meses, ela aderiu aos pedais para ir à academia, ao supermercado, à feira e até nas saídas noturnas. A bike só não a acompanha até o trabalho, por ser em Canoas.

– A bicicleta me incentivou a adotar hábitos saudáveis, cuidar da alimentação e ter qualidade de vida.
Dar uma volta melhora o meu dia. Qualquer pessoa que tenha uma bike em casa pode experimentar – aconselha a moradora do Centro Histórico.

A biomédica Gabriela Pessin Meyer. Foto: André Ávila

A biomédica Gabriela Pessin Meyer. Foto: André Ávila

De capacetes floridos ao “ selim que vibra”, produtos e iniciativas pensados para elas acompanham o aumento no número de mulheres pedalando: cestinhas e bolsas especiais para a bike são as mais requisitadas nas lojas especializadas. E também surgem pontos de encontro para ciclistas, como a Vulp Bici Café, no Bom Fim, administrado por quatro sócias, que cuidam da decoração e organizam a criação colaborativa do cardápio com os chefs.

Além de pedalar, as mulheres contribuem em ações como a Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta ( Mobicidade) e o Bike Anjo, que auxilia a pedalar no trânsito. E, se precisar, também sujam as mãos de graxa. A professora universitária Mônica Meira, 55 anos, já usava a bike em trajetos curtos quando aprendeu algumas técnicas na oficina de mecânica básica organizada pelo Pedal das Gurias.
Uma semana depois, seu pneu traseiro furou, e ela teve de colocar os conhecimentos em prática.

– Arrisquei trocá- lo e deu certo.  Achei o máximo e postei no grupo. Hoje, levo o kit remendo comigo.
As meninas apresentam possibilidades para as mulheres pedalarem mais. O resultado é que a gente quer usar a toda hora – conta.

Nos últimos meses, Mônica tornou a bicicleta sua primeira alternativa de transporte. São entre 60 e 70 quilômetros pedalados de segunda a sexta- feira. Para ir ao trabalho, costuma usar bota com salto ( que não atrapalha porque fixa a planta do pé no pedal, e não o calcanhar). Se a calça for mais larga na altura do tornozelo, usa um acessório para deixá-la justa e não encostar na correia.

O bagageiro, ela mesma adaptou, na parte traseira, a partir de um cesto de refrigerador: – Descobri que vou mais rápido assim do que de carro ou de ônibus. E é um deslocamento prazeroso. Até na chuva já pedalei.

Confira o vídeo do Pedal das Gurias:

PEDAL DAS GURIAS

Toda quinta- feira, a partir das 20h, mulheres de diferentes idades começam a se preparar para a pedalada, com ponto de encontro na Rótula das Cuias, na Capital. Uma rápida votação decide o trajeto e, por volta das 20h30min, o pelotão começa o passeio: na noite de 15 de setembro, o destino escolhido foi a Praça da Encol. Como de praxe, ao cruzarem com outras mulheres pelo caminho, as ciclistas as convidavam a participar do grupo. E o chamado muitas vezes funciona: há alguns meses, uma motorista baixou o vidro do carro para perguntar sobre o ponto de encontro. Na semana seguinte, apareceu lá. Volta e meia, alguns homens se autoconvidam, mas são informados de que aquele é um momento exclusivo delas.

Pedalada noturna às quintas-feiras reúne dezenas de mulheres em Porto Alegre. Foto: André Ávila

Pedalada noturna às quintas-feiras reúne dezenas de mulheres em Porto Alegre. Foto: André Ávila

Como esta repórter era novata, a estudante Caroline Rolim, 24 anos, emprestou luzinhas de sinalização e me orientou durante todo o percurso. Entre uma instrução e outra, ela compartilhou a relação afetiva com a bike:

– Ganhei uma bicicleta e comecei a experimentar andar pelo bairro. Gostei e passei a levar para tudo o que eu fazia: isso me deu autonomia. Hoje, eu me realizo quando encontro uma guria pedalando na rua.

Cerca de 20 minutos depois da largada, ocorreu o episódio mais perigoso da noite. Na Rua Amélia Telles, uma van passou a centímetros de uma das ciclistas e quase a derrubou, provocando apreensão. Apesar do incidente, minutos depois, em uma pausa no meio da Praça da Encol, quando a cicloativista Tássia Furtado pediu que cada uma dissesse seu nome e como se sentia, apenas palavras positivas foram escutadas: “ feliz”, “ alegre”, “ satisfeita”, “ contente”.

– Sempre encontrava mulheres de bicicleta, mas sentia a necessidade de pedalarmos juntas e trocar informações que são nossas. A mulher tem um cuidado com o outro. No Pedal das Gurias, quando chega uma pessoa nova, temos o cuidado de que seja ajudada. Quando ela se sentir confortável, estará apta a ajudar outra mulher a pedalar – explica Tássia.

Tássia Furtado durante oficina mecânica de bicicletas para mulheres na ocupação Pandorga. Foto: Mateus Bruxel

Tássia Furtado durante oficina mecânica de bicicletas para mulheres na ocupação Pandorga. Foto: Mateus Bruxel

Aos 32 anos, ela vive integralmente a bicicleta. É sócia da Vulp Bici Café, membro da Mobicidade, organizadora da VeloFesta e voluntária da oficina comunitária de mecânica básica para bicicletas da Ocupação Pandorga e do Bike Anjo. Além disso, Tássia e as integrantes do Pedal das Gurias realizam aulas de mecânica mensais exclusivas para mulheres.

– Iniciamos a oficina de mecânica por uma necessidade das mulheres, que desejavam aprender a arrumar suas bikes e, às vezes, até achavam que eram enroladas quando precisavam fazer um conserto.
Vemos quais são as principais necessidades do grupo e quais gurias podem ensinar. Se é algo que não sabemos, vamos atrás e aprendemos juntas – explica.

Foto: André Ávila

Foto: André Ávila

Depois de 15 quilômetros pedalados a uma média de 12 km/ h, o passeio do Pedal das Gurias se encaminhou para o fim com uma confraternização na Cidade Baixa. Entre uma cerveja e outra, é hora de compartilhar histórias além do pedal. Gurias que se conheceram andando de bicicleta encontraram outras afinidades em comum e combinam saídas para o cinema, bares e eventos.
Sempre de bicicleta.

MÃES CICLISTAS

O clube das mulheres ciclistas também é formado por mães que descobriram no veículo uma alternativa para deixar mais divertido o caminho de casa até a escola. A professora Arlene Foletto, 39 anos, Incorporou a bici à rotina para fazer passeios em família e buscar a filha Cecília, de um ano e nove meses, na escolinha. Mãe e filha atravessam o Parque da Redenção aos finais de tarde, com a pequena acomodada em uma cadeirinha com cinto segurança próxima ao guidão. A mochila da Moranguinho é acomodada na cestinha removível, junto a uma garrafa de água.

Arlene Foletto

A professora Arlene Foletto com a filha Cecília. Foto: André Ávila

Dar carona de bicicleta para a filha transformou Arlene em uma motorista mais atenta a quem transita em duas rodas. Quando não dá para ir de bici e Arlene busca Cecília com o automóvel, já sabe que vai ouvir reclamação.

– Ela pede pela “ cleta”. Na lógica da Cecília, os passeios só podem ser de bicicleta ou a pé. Se vamos de carro, não é tão divertido para ela.

Ciclista desde antes de ser mãe, a arquiteta e professora universitária Eugenia Kuhn, 35 anos, carrega na bicicleta Lara, seis anos, desde que ela era bebê. Eugenia e o marido se revezam para levar e buscar a filha na escola de bicicleta. A pedido de Lara, algumas vezes a menina realiza o trajeto em sua própria bicicleta, sempre com a supervisão do pai ou da mãe.

– Para nós, era uma forma de locomoção, mas para ela, é algo muito divertido, ela ama. A bicicleta torna a rotina mais prazerosa, nos traz muitos benefícios e qualidade de vida – afirma a arquiteta.

DICAS PARA COMEÇAR

• Se você está começando do zero, fique atenta à escola da bicicleta promovida pelo Bike Anjo uma vez ao mês. Ciclistas experientes dão dicas sobre como se portar no trânsito e ajudam a perder o medo de pedalar.

• Para quem já sabe pedalar e deseja adquirir mais prática, o Pedal das Gurias ajuda a dar segurança ao andar pela cidade em grupo.

• Teste modelos diferentes para decidir em qual bicicleta se sente mais à vontade. A escolha do modelo deve levar em conta a finalidade do uso e as características físicas de cada pessoa.

• Alguns acessórios são indispensáveis para a segurança, como o capacete e os faróis dianteiro e traseiro.
Já a cestinha é útil para carregar bolsa e mochila.

• Depois de escolhida a bicicleta, você pode aprender a fazer os reparos básicos, como consertar uma câmera furada.  O Pedal das Gurias realiza oficinas de mecânica básica para mulheres uma vez ao mês.

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