Personagem da novela das 21h que sofreu abuso é aconselhada a procurar coaching; especialistas debatem a polêmica

Foto Raquel Cunha/ Divulgação Rede Globo
Foto Raquel Cunha/ Divulgação Rede Globo

Uma polêmica cerca a novela da TV Globo O Outro Lado do Paraíso. Na segunda-feira (5 de fevereiro), o Conselho Federal de Psicologia divulgou uma nota criticando a abordagem da novela sobre abuso sexual e saúde mental.

“O Conselho Federal de Psicologia entende que a telenovela, por se tratar de uma obra capaz de formar opinião, presta um desserviço à população brasileira ao tratar com simplismo e interesses mercadológicos um tema tão grave como o sofrimento psíquico de personagem cuja origem é o abuso sexual sofrido na infância” diz a nota,  publicada no site do órgão.

Na novela das nove de Walcyr Carrasco, os temas surgem a partir da história de Laura (Bella Piero), uma jovem que sofreu abuso sexual do padrasto (Flávio Tolezani) quando era criança. O trauma seria o responsável pelo desconforto constante e o bloqueio sexual que a jovem sente com o marido.

Para a psicóloga Luciane Rombaldi David, do Ceapia (Porto Alegre), o problema na abordagem da TV surge quando a solução encontrada para fazer com que Laura entender pelo que está passando é a consulta com uma advogada coach, capaz de acessar memórias reprimidas através de ferramentas de coaching e técnicas de hipnose.

– Quando há a suspeita de que alguém foi abusado sexualmente, o trabalho com esta pessoa exige cuidado e cautela, o que não parece acontecer através da advogada coach na novela, que fará poucas sessões para que Laura acesse as memórias traumáticas e assim “se liberte”. Acontece que não podemos escancarar a porta do inconsciente desta maneira, pois isso pode significar um novo trauma, não sabemos qual será a reação do paciente ao acessar memórias tão dolorosas, por isso vamos trabalhando com cuidado, em equipe multiprofissional, com o apoio e acompanhamento concomitante da família do paciente para lidarmos também com todo o ambiente – explica a psicóloga Luciane.

Em seu mais recente livro, Não me Iluda (Editora Integrare, 2017), o coach e palestrante Gabriel Carneiro Costa questiona o mercado atual de coaches e acredita que o coaching deveria, inclusive, ser uma formação complementar da Psicologia.

– A linha que separa a psicologia do coaching não deveria ser tênue porque as propostas são diferentes. Vale lembrar que a essência do coaching não é olhar para trás, mas sim criar um plano de ação para o futuro. O problema é a forma como o coaching é visto no Brasil, uma solução para todos os problemas. Não quer dizer que ele não possa ajudar alguém a tratar um trauma como o da personagem da novela, mas isso se o profissional for alguém que estudou psicologia e complementou a carreira com técnicas de coaching. Não é disso que estamos falando aqui – afirma.

Os profissionais temem que, com tanto alcance, a novela passe uma compreensão errada do que fazer na hora de lidar com assuntos tão sérios.

– Pessoas com as mesmas vivências podem deixar de recorrer a um profissional e seguir em grande sofrimento. Ou então, a partir de propaganda de curas rápidas, atualizarem o trauma na presença de um profissional que não tenha o devido preparo para lidar com o que virá à tona em sessão – finaliza Luciane.

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livroEm “Não me iluda! Até onde são reais as promessas da autoajuda e da vida perfeitamente idealizada” (Editora Integrare), o escritor gaúcho Gabriel Carneiro Costa escreve sobre porquê “o processo de coaching pode ser perigoso” e não deve ser confundido com atendimento psicológico:

Fui o primeiro autor brasileiro a escrever um livro de casos reais de processos de coaching de vida. Naveguei em uma espécie de onda que surgiu em torno desta profissão. Mas, assim como pude ver todo o crescimento deste mercado, infelizmente também pude acompanhar o rumo que tomou. As formações que inicialmente eram de muitas horas e exigiam estágio comprovado, através de entrevistas com os clientes, passaram a ser de poucas horas, sem nenhum tipo de avaliação.

(…) Surgiram no mercado dezenas de especificações de coach. Nada contra alguma pessoa em específico, mas confesso que me assunto quando vejo coach para emagrecimento, coach para grávidas, coach sexual, coach para idosos. A própria expressão “coach de vida” (que por muitos anos utilizei) agora já questiono. Fica uma confusão para o cliente.

(…) Quando penso na psicologia tradicional, como pode alguém que fez uma formação de 20 horas saber mais do que alguém que estudou por no mínimo cinco anos? Me assusta ver coaches querendo ocupar lugar de psicólogos, filósofos, historiadores, psiquiatras. Para falar a verdade, hoje acredito que coach nem mesmo deveria ser uma profissão, e sim apenas uma formação complementar. Por exemplo, há pessoas formadas em Administração de Empresas, com ênfase em Marketing. Isto seria mais justo e coerente. Uma formação em alguma área das ciências humanas, com ênfase em Coaching. Mas nada foi regulamentado. Infelizmente, qualquer um pode se dizer um coach.”

 

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