Por que as mulheres praticam esporte mais para entrar em forma do que se divertir?

Foto: Bruno Alencastro
Foto: Bruno Alencastro

Você pisou em uma quadra esportiva no último ano? Ou jogou uma partida com amigos na praça mais próxima ou na areia da praia? Costuma praticar esporte só por prazer e não por obrigação? Se você respondeu três vezes (ou, vá lá, duas vezes) “não”, está no time de boa parte das mulheres.

Com perguntas assim em mente, a ONG Think Olga foi a campo estudar a relação das brasileiras com o esporte. Foram 1.584 entrevistas sobre as suas modalidades prediletas, as motivações para praticar, o que as aproxima e o que as afasta das quadras, parques e pistas por aí. O resultado, infelizmente, estava bastante de acordo com o que esperava Maira Liguori, um dos nomes à frente do Think Olga e criadora do Olga Esporte Clube, praticante de bicicleta, pilates e basquete:

– Se eu disser que fiquei surpresa, estaria mentindo. Confirmou-se, por exemplo, a impressão de que a mulher, depois da puberdade, passa a encarar o esporte de uma forma funcional. O lado lúdico passa a dar lugar a uma cobrança interna e externa muito forte, ligada apenas à saúde e à boa forma. O próprio lifestyle do esporte é um bocado opressor.

Não à toa, uma das palavras que mais apareceu na pesquisa como motivo pelo qual as mulheres não praticam esporte é “vergonha”.

– Do corpo. De se achar desengonçada. De vestir uma roupa justa na frente dos outros. As pessoas dizem que as mulheres precisam de todo um look e um aparato para começar a praticar esporte, mas é que há toda uma indústria dizendo isso: que é preciso estar bonita até para malhar para ficar bonita – declara Maira.

Fernanda Scherer, 32 anos, publicitária e patricante de vôlei."Treinamos religiosamente quartas e sextas à noite. Ouço por aí: você é louca? Sexta à noite? Com esse frio? Mas é ótimo porque o estresse do trabalho e tudo mais fica na quadra"

“Treinamos religiosamente quartas e sextas à noite. Ouço por aí: você é louca? Sexta à noite? Com esse frio? Mas é ótimo porque o estresse do trabalho e tudo mais fica na quadra.” Fernanda Scherer, 32 anos, publicitária e patricante de vôlei (Foto: Bruno Alencastro)

A escolha das modalidades preferidas em cada idade (veja a partir da página 20) é reflexo disso. Enquanto na infância os esportes favoritos são mais divertidos e coletivos, conforme a idade avança a relação com o corpo leva a mulher a modalidades focadas no emagrecimento e na manutenção da saúde, em geral praticadas individualmente em academias.

:: Como você escolhe seu par ideal: especialistas explicam as leis da atração
:: No Dia Mundial do Orgasmo, descubra 5 mitos e verdades sobre o orgasmo feminino
:: Em premiação, Jogadora de basquete pede mais igualdade de gênero no esporte

Proprietária da Santa Academia, no bairro Bela Vista, a maratonista Daniela Santarosa sabe que logo logo, lá por setembro, começa a aparecer a clientela do chamado “projeto verão”.

– Via de regra, é o seguinte. As mulheres não têm a devida oportunidade de praticar um esporte de que realmente gostam na infância, na escola. Quando passa a adolescência, procuram uma academia com medo de ganhar peso. Depois de um namoro longo ou de um casamento, a coisa dá uma degringolada e elas voltam mais velhas para as modalidades da moda daquele ano: o kangoo, o crossfit… Vale tudo para tentar endurecer a bunda em três meses – diverte-se Daniela.

Brincadeiras à parte, Daniela destaca que muito tempo e mensalidades seriam economizados se as mulheres investissem em uma modalidade esportiva de que gostassem desde sempre. Tanto nas academias quanto nos divãs:

– A mulher é muito marcada por episódios de bullying. Experiências assim na infância as afastam do esporte. Deixam-nas complexadas com o peito que é muito grande, com a marca de suor na camiseta, com as pernas muito finas… O homem, se é gordo, joga bola gordo. Isso faz com que elas procurem o esporte só mesmo quando se sentem obrigadas, aí estão sempre perto de desistir. Digo sempre que é muito difícil não gostar de nenhum esporte. Falta investir um tempo em descobrir qual deles lhe dá prazer.

Stephanie Pedron, 28 anos, analista de projetos e praticante de handebol. "Jogar em grupo serve também uma incetivar a outra: se um dia você está pra baixo, lá as outras te põem pra cima."

“Jogar em grupo serve também uma incetivar a outra: se um dia você está pra baixo, lá as outras te põem pra cima” Stephanie Pedron, 28 anos, analista de projetos e praticante de handebol (Foto: Carlos Machado)

Da boa forma à meia-maratona

Há quem transforme essa barreira em goleada. A professora de inglês Flávia Amaral Diniz, 32 anos, por exemplo, esteve naqueles 59% das mulheres entre 25 e 40 anos que, segundo o Think Olga, buscou o esporte para o emagrecimento. O principal benefício, todavia, veio depois de uma colega convencê-la a praticar uma prova de rua de (hoje míseros) três quilômetros em 2013. Na preparação, ela passou a integrar um grupo de corrida, o Veloz.
– Conversando com outras pessoas, a gente descobre que várias começaram ali por estar passando por um momento difícil de vida. Um puxa o outro. Terminei fazendo amigos e me apaixonando por correr na rua com eles – conta Flávia, que no último dia 30 completou sua terceira meia-maratona, em São Paulo (ah, sim, e está 15 quilos mais magra).
Em meio aos treinos, contorna outros problemas que, não raro, deixam mulheres pelo caminho. O medo da violência e do assédio, por exemplo, aparece em mais da metade dos relatos da pesquisa da Olga, e impede que Flávia treine sozinha pelos parques e espaços públicos de Porto Alegre:
– Combinamos de ter pelo menos um homem em cada corrida em grupo. É uma pena, mas não corro mais sozinha. Nesse final de semana mesmo, fiquei sabendo de uma mulher que foi roubada no sábado de manhã por três homens na orla do Guaíba. Levaram o celular que ela trazia no braço. É outra coisa que não faço mais: comprei um iPod daqueles pequenos, e escondo na roupa.

Depois da escola: A idade do limbo

A insegurança, somada à falta de tempo, também bloqueou Fernanda Scherer nas quadras de vôlei, aos 20 anos. Nos tempos do Colégio Sinodal, em São Leopoldo, a hoje publicitária e professora jogou vôlei dos nove anos à formatura. Não tinha, no entanto, a pretensão de se profissionalizar. Se quisesse, teria provavelmente de se mudar para São Paulo. Além disso, seus 1m76cm de altura já são pouco para o esporte. Fernanda tentou continuar no início da faculdade, mas logo a rotina pesou.
– A turminha do vôlei era a minha turma. Era bacana porque fazia parte da minha identidade. Mas aí, trabalhando em Porto Alegre, tendo de pegar trem à noite, ficou complicado. A gente passa pela idade do limbo, sabe? Não é mais estudante para jogar na escola, mas também não é profissional. Oportunidades para desistir, não faltam.
Assim como (quase) aconteceu com Fernanda, o canudo do Ensino Médio representa para muitas mulheres a aposentadoria forçada das quadras. Enquanto homens seguem dedicando parte de suas agendas para bater bola entre amigos, colegas de faculdade ou de firma, as mulheres se distanciam umas das outras. Somente depois dos 60 anos, conforme apontam os dados do Think Olga, as mulheres voltam a privilegiar a diversão e a interação em vez da forma física.
Fernanda redescobriu o vôlei no time B da Sogipa, oito anos depois. Hoje, aos 32 anos, treina puxado duas vezes por semana ao lado de gurias como ela: nenhuma profissional, todas com empregos diferentes por aí, mas curtindo a rotina de treinos e campeonatos amadores pelo Estado. Sempre depois do treino da primeira sexta-feira do mês, elas marcam uma confraternização.
– Os namorados e maridos, de tanto assistir e acompanhar, ficaram amigos. Bom é quando o churrasco está pronto depois do treino – brinca uma das atletas, a jornalista Mariella Taniguchi.

Dos aplicativos para as Quadras

A intensidade dos treinos da turma de Fernanda e Mariella, na Sogipa, impressionou até o técnico recém-contratado, Alexandre Soares.
– Se eu não cobro delas, elas me cobram – brinca.
Porém, há alternativas tão divertidas quanto e menos intensas. Como parques e quadras públicas ainda são ambientes complicados para mulheres em termos de segurança, a solução de algumas turmas é fazer uma vaquinha para reservar horário em uma quadra privada com regularidade entre as integrantes de um grupo de WhatsApp. Às vésperas dos jogos, os celulares apitam questionando as presenças e ausências em cada partida. A alternativa, além de prática, é barata.
– Jogo futebol três vezes por semana e não chego a gastar R$ 100 por mês. Meu namorado, no início, se impressionou que eu jogava mais futebol do que ele. Mas resolvemos jogando partidas mistas – conta Iara Takehara, engenheira metalúrgica de 24 anos.
Um dos desdobramentos da pesquisa do Think Olga promete facilitar iniciativas semelhantes. A ONG pretende lançar até o final do mês um aplicativo para aproximar as integrantes do chamado Olga Esporte Clube. A ideia é propiciar, entre mulheres, oportunidades para experimentar modalidades diferentes, conhecer pessoas e confraternizar com amigas.
– Funcionaria como um Tinder para esportes. Você escolhe modalidades, locais e horários e o aplicativo “dá match” em outras meninas que se interessem em jogar com você. As integrantes formam ainda uma minirrede social para compartilhar conquistas umas com as outras – antecipa Maira Liguori.

"É muito dificil eu perder um treino, porque meu dia fica muito pior sem ele." Flávia Amaral Diniz, 32 anos, professora de inglês e praticante de corrida.

“É muito dificil eu perder um treino, porque meu dia fica muito pior sem ele.” Flávia Amaral Diniz, 32 anos, professora de inglês e praticante de corrida (Foto:Lauro Alves)

Inglesas suadas e orgulhosas

A vergonha do próprio corpo – apontada no levantamento do Think Olga como um dos principais motivos pelos quais mulheres não praticam esportes – não é exclusividade das brasileiras. No início de 2015, a organização Sport England, bancada com recursos da loteria da Inglaterra, resolveu confrontar uma estatística: havia o dobro de inglesas sedentárias do que ingleses. No entanto, 75% delas diziam querer fazer mais exercícios, mas tinham vergonha dos seus corpos.
O motivo, ironicamente, eram os próprios vídeos de incentivo ao esporte. Que atire o primeiro haltere a mulher que nunca desanimou diante do abdômen de uma Carol Buffara no Instagram. Deu-se, então, início à ação This Girl Can (Esta Garota Pode), a primeira campanha que convidava mulheres a se exercitar sem usar modelos, mas promovendo fotos de gente de verdade, suada e com os corpos que bem entendessem. Os slogans esbanjavam positividade e bom humor: “Suando como um porco, se sentindo uma raposa” ou “Eu nado porque amo o meu corpo, não porque o odeio”.
Um ano depois do lançamento e com o vídeo inicial da campanha exibido 37 milhões de vezes no YouTube e no Facebook, 2,8 milhões de mulheres entre 14 e 40 anos declaram ter se exercitado mais devido ao impacto provocado pela campanha. A estatística de duas inglesas para cada inglês sedentário baixou para 1,73. A campanha segue no ar (thisgirlcan.co.uk) compartilhando histórias e incentivando as esportistas a usar a hashtag #ThisGirlCan para exibir suas fotos no site oficial.

Uma ídola para chamar de sua

Ressaltar sempre que esporte bom é o esporte que diverte você é também uma preocupação da psicóloga da Associação Leopoldina Juvenil, Camila Piva da Costa, no trato com quem está começando. Incentivar uma criança a praticar algo de que ela não gosta ou cobrar resultados muito cedo pode ter, inclusive, o efeito contrário:

– São comuns casos de crianças que saturam de um esporte muito cedo. Os pais pressionam e, quando a criança atinge a adolescência, rejeita aquilo e nunca mais volta a praticar.
O fato de muitos times de meninas ainda serem comandado por técnicos homens, sem o devido tato, torna esse momento crítico de desistência na adolescência ainda mais presente.

Por fim, o Olga Esporte Clube pretende trabalhar para confrontar uma estatística curiosa. Questionados sobre seus ídolos no esporte, praticamente todas as entrevistadas citaram atletas homens. Camila, que trabalha com muitas meninas tenistas no Leopoldina, confirma o cacoete:

– São raras as gurias que dizem ter a Serena Williams como ídola, por exemplo. Só esporadicamente o nome dela aparece, exaltando a gana dela de seguir vencendo torneios. Elas se identificam mais com as personalidades de atletas homens, como a garra do Rafael Nadal ou a frieza do Roger Federer.
Serena, tenista vencedora de 71 títulos incluindo quatro ouros olímpicos, bem como a atacante brasileira Marta, ilustram as peças do Olga Esporte Clube para projetar em outras mulheres onde elas podem chegar. As que suam por medalhas nas próximas semanas no Rio de Janeiro tiveram e ainda têm de driblar, cortar, bloquear, ultrapassar problemas como o preconceito, a objetificação dos seus corpos e os salários inferiores aos atletas homens (confira texto na página 19). Mas este jogo recém começou, e as mulheres buscam vitória de virada.

iaratakehara_lauroalves

“Meu namorado atual até joga comigo em time de misto uma vez por semana, mas já teve guri que reclamou de eu arranjar tempo para o futebol e não para ele?” Iara Takehara, 24 anos, engenheira metalurgica e praticante de futebol (Foto: Lauro Alves)

A brasileira e o esporte

A ONG feminista Think Olga realizou uma pesquisa online com 1.584 mulheres de diferentes regiões do Brasil para investigar a relação entre as brasileiras e o esporte. A principal conclusão é de que o esporte, para a maior parte das mulheres praticantes, é visto como uma obrigação por motivos de saúde ou estéticos, e não como um prazer, embora provoque bem-estar. Veja alguns dados que chamaram a atenção:

Na infância, o caráter lúdico do esporte predomina.
As modalidades coletivas e divertidas têm a preferência das meninas. Até os 13 anos, as principais modalidades mencionadas pelas mulheres foram: NATAÇÃO, VÔLEI e DANÇA

E as razões mais mencionadas para a prática foram:
• Diversão: 69%
• Aprendizado: 46,2%
• Socialização: 35,4%

Com a chegada da puberdade, esta relação começa a se transformar.

A saúde e o bem-estar começam a fazer parte do repertório de benefícios desejados. Aos poucos, a diversão vai perdendo espaço. Entre os 14 e os 17 anos, as principais modalidade foram:
NATAÇÃO, VÔLEI e CAMINHADA
E as razões mais mencionadas para a prática foram:
• Diversão: 57,4%
• Bem-estar: 41,5%
• Saúde: 39,3%

No início da vida adulta, além de saúde e bem-estar, começam as preocupações com a estética.

As modalidades mais mencionadas também passam a ser exclusivamente individuais. Entre os 18 e 24 anos, as principais foram: CAMINHADA, MUSCULAÇÃO e CORRIDA
E as razões mais mencionadas para a prática foram:
• Saúde: 64,3%
• Bem-estar: 62,2%
• Emagrecimento: 52,7%

Conforme a idade aumenta, as modalidades se mantêm individuais e a relação vai ficando cada vez mais funcional.

O emagrecimento ganha ainda mais destaque. Entre os 25 e 40 anos, as principais modalidade foram: CAMINHADA, MUSCULAÇÃO e CORRIDA
Razões mais mencionadas para a prática:
• Saúde: 81,1%
• Bem-estar: 74,4%
• Emagrecimento: 59%

Apenas depois dos 60 anos, com mais tempo e menos pressão social, que as coisas começam a mudar, e o esporte passa a ser encarado com mais prazer.

Depois dos 60, as modalidades mais mencionadas são: CAMINHADA, MUSCULAÇÃO e HIDROGINÁSTICA
Razões mais mencionadas para a prática:
• Saúde: 86,9%
• Bem-estar: 76,8%
• Diversão: 48,5%

Elementos que afastam a mulher do jogo, segundoas conclusões da pesquisa:

Vergonha: entre os motivos mais citados, está a vergonha do próprio corpo. É também um dos elementos que levam as mulheres a preferir modalidades funcionais.

Medo e assédio: 57% afirmam não praticar exercícios em espaços públicos por medo de violência ou assédio

Preconceito: 1 em cada 4 mulheres (25%) dizem já ter sofrido algum tipo de preconceito, como o de que é “mulher masculinizada” por praticar esportes. O número cresce para 1 em cada 3 entre as que vivem em periferias.

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna