Por que o número de divórcios no Brasil cresceu 160% em 10 anos: entenda os motivos

Foto Shutterstock, divulgação
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William Bonner e Fátima Bernardes terminaram o casamento. Como se já não fosse demais , 22 dias depois Angelina Jolie e Brad Pitt separaram as escovas de dentes. Não é apenas do lado de lá da tela da televisão. Segundo o dado nacional mais recente do IBGE, de 2015, o número de divórcios ao ano no Brasil cresceu 160% em 10 anos, de 130,5 mil, em 2004, para 341,1 mil em 2014.

Um dos motivos para o crescimento é simplesmente porque se separar, hoje, é bem mais prático:

– Desde 2010 (quando foi promulgada a Emenda Constitucional 66/2010), é possível realizar um divórcio sem passar pelo processo de separação judicial, desde que totalmente consensual. Isso eliminou de vez a questão da culpa de um dos cônjuges – observa a advogada Maria Berenice Dias, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família.

Ou seja, se em outros tempos William e Fátima desejassem se separar, o processo dividiria responsabilidades pelo fracasso do relacionamento, com possível impacto em questões como a guarda dos filhos e divisão de patrimônio. E mais, o divórcio só sairia em definitivo depois de um ano da separação. Mas como estamos em 2016 e os trigêmeos já são maiores de idade, hoje basta para William e Fátima entrarem em um tabelionato de notas na companhia de um advogado e o “Boa noite” derradeiro será selado.

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A mudança da lei é a primeira, mas não a única das razões para o aumento dos divórcios, segundo a percepção de Mônica Guazzelli, advogada especialista em direito de família e sucessões:

– Observamos casais jovens muito imediatistas, incapazes de lidar com as frustrações de um relacionamento depois de dois ou três anos de casados, quando o desgaste do dia a dia já pesa e os projetos de futuro começam a ser questionados.

Daí o alto número de separações após períodos estendidos de convivência, quando o relacionamento se mostra insustentável. Uma pesquisa recente da Universidade de Washington analisou os divórcios no Estado norte-americano entre 2001 e 2015. A maioria dos pedidos se deu em março, seguido de agosto, quando se encerram as férias escolares nos Estados Unidos. No Brasil, como o verão se soma às resoluções de final de ano, o boom de divórcios ocorre em março e abril, quando a decisão é concretizada e a rotina para o ano pós-término se estabelece.

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Colabora também para finais precoces a dificuldade, hoje, de se manter focado em um relacionamento. Em outros tempos era mais difícil se envolver com outra pessoa, mesmo estando frustrado com o casamento. Hoje, tentar a sorte com outra pessoa por estar ao alcance de uma mensagem. Também advogada de família, Liane Bestetti chama a atenção para um fenômeno recente decorrente dessa redução de distâncias. Pessoas que – atenção Jenifer Aniston – se separam após redescobrir um amor do passado:

– Sabe aquele namorado do colégio? Pois é, uma vez você passava 20, 30 anos sem ver a pessoa. Hoje dá saudade e ele está ali na sua rede social, todo bonitão. Em geral essa possibilidade já encontra uma pessoa frustrada com a relação atual, mas o reencontro com um amor do passado antecipa a tomada de decisão.

Tais fenômenos podem levar a crer em uma frivolidade decepcionante nos relacionamentos atuais, mas Maria Berenice vê a questão por um viés otimista:

– A instituição família nunca esteve tão bem. As pessoas estão juntas porque está bom. E se separam porque não admitem estar infelizes. Vejo com bons olhos essa percepção de que os bons relacionamentos não precisam mais ser eternos.

Mônica Guazzelli faz coro:

– Não te parece absurdo dizer que um relacionamento como o do William e o da Fátima não deu certo? Poxa vida, passaram uma vida juntos, criaram três filhos até a idade adulta. Por que exigir uma perpetuação?

O amor para toda a vida, no entanto, continua sendo idealizado. O que gera uma contradição interessante, nas palavras da juíza aposentada, professora e advogada de direito de família Maria Aracy Menezes da Costa:

– É como se as pessoas estivessem sempre insatisfeitas, mas nunca desistissem da satisfação.

Na opinião de Aracy, é a próxima geração que determinará se o alto número de divórcios é apenas um fenômeno do nosso tempo ou um caminho sem volta. Mas, se chamada a adivinhar uma resposta, opta pela segunda opção. Diferentemente dos filhos de “pais desquitados” das décadas passadas, as crianças de hoje já não sofrem tanto com esse estigma e lidam com certa naturalidade com o fato de terem pais separados. A tendência, portanto, é que esse comportamento seja, senão reproduzido, ao menos naturalizado.

Mas Aracy fica com um a pulga atrás da orelha com uma frase que ela tem ouvido com bastante recorrência no seu escritório. E que serve de alerta para que tende a achar que há um relacionamento perfeito aí fora, basta largar o maridão e procurar por ele: “Se eu soubesse que os problemas seriam os mesmos, eu não teria me separado”.

Ah, pois é.

 

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