Por que a gente NÃO deveria julgar a Betty Faria quando ela diz que “não quer ser uma velha gorda”

Passei a tarde desta segunda-feira alheia à timeline, (tentando) me focar em transcrever a gravação de uma entrevista para a próxima edição da Revista Donna que precisaria entregar para a chefinha Mari Scholze nesta terça. Ao final do dia, pouco antes de reunir os pertences na bolsa para ir embora, dei aquele F5 no Facebook para ver o que tinha acontecido nas últimas horas – e qual foi minha surpresa quando vi a seguinte chamada em um post da página do Glamurama:

Betty Faria: “Sempre batalhei para não ser uma velha gorda”

Do alto (ou melhor, da circunferência) do meu jeans 48, nem preciso dizer para vocês que bateu aquela raivinha. “Ok, mais uma gordofóbica presumindo que a vida de gordo que nem eu é triste”, pensei. Fechei logo o computador e fui para a casa. Depois de assistir mais um episódio de série no Netflix, bateu aquela vontade que a gente tem de comer um docinho depois da janta, sabe? Sem pensar duas vezes, abri o armário e peguei um pacotinho de KitKat para me acompanhar em mais um capítulo da vida da Olivia Pope quando lembrei da Betty. Só havia lido a manchete por cima e, ainda que a conotação não fosse nada positiva, fui achar o tal link para ver qual havia sido a declaração completa.

“Eu, por exemplo, não gosto de mulheres gordas. Elas me incomodam profundamente. Tenho repulsa, rejeição. Sempre batalhei para não ser uma velha gorda. Jamais compraria um quadro do Botero”.

Fiquei pensando cá com meu KitKat. A Betty disse que sempre batalhou para não ser uma velha gorda. Será que a Betty também comia um quadradinho de chocolate enquanto assistia TV numa segunda morna? Ou será que ela ia na cozinha, tomava um copo d’água para encher o estômago e fazer a vontade passar? Será que a Betty repetia aquele pudim delicioso da avó no almoço de domingo ou negava até a primeira fatia, lembrando daquela saia justinha que viu na revista no corpo de uma modelo esquelética? Quantas vezes será que a Betty se olhou no espelho ou, no caso dela, na tela da televisão, e foi comparada com uma atriz mais magra?

Veja também
:: Opinião: afinal, quem é que pode usar biquíni?

Lembrei das muitas vezes em que ouço a palavra gordo no meu dia a dia. “Vou comer esse brigadeiro aqui, mas não me julguem pela gordice”, ouço de alguém. “Fulana é gordinha, mas tem um rosto bonito, né?”, é a frase que vem da senhora sobre a filha da amiga na fila do supermercado. “Nossa, como Beltrana engordou depois que começou a namorar! Embarangou, viu?”, diz uma amiga para a outra atrás de ti no ônibus. “Nossa, tô gorda, preciso dar um jeito para o verão”, confidencia uma colega no refeitório. Já notou como um termo que, no fim, é só mais uma característica sobre alguém – como alto, baixo, loiro, sardentinho – carrega um tom pejorativo? Isso acontece ainda hoje, vindo das mais diversas pessoas: adolescentes novinhas, universitárias, mulheres adultas que parecem super esclarecidas e modernas, mas ainda têm dentro de si esse sentimento de “algo ruim” relacionado com uns (ou vários) quilinhos a mais. Como então apedrejar tanto assim a Betty, uma senhora de 74 anos, quando diz que não quer ser uma velha gorda, se o que  muitas pessoas ao nosso redor dizem é “não quero ser uma gorda no verão”?

Vejam bem, eu não acho que a Betty esteja certa. Betty foi infeliz em cada palavra que balbuciou para o repórter da revista Joyce Pascovitch (outra gordinha, aliás). Betty foi preconceituosa, Betty foi politicamente incorreta, Betty me deixou chateada no final de uma segunda-feira (que ninguém merece, né?), mas Betty apenas repetiu esse discurso que a gente, em 2015, ainda ouve todos os dias de pessoas esclarecidas, das nossas amigas, de desconhecidas na rua. Imaginem que Betty está na mídia desde os anos 1970, quando todo esse conceito de aceitação e respeito que, ainda bem, tentamos enfiar na cabeça dos outros ainda estava longe de ser tão difundido. Quantas vezes a Betty já não ouviu “não” de um diretor porque estava gorda para o papel? Ou leu manchetes dizendo que “ainda não havia recuperado a boa forma após a gravidez”?

Autoestima em alta! 
:: Como as plus size desafiam os padrões e fazem a moda render-se à beleza em qualquer tamanho
:: As novas curvas da moda! Um editorial repleto de inspiração e estilo para as plus size

Dá para ficar brava, dá para escrever textão no Facebook, dá até para pensar em deixar um comentário “melhor ser gorda do que ser velha” (neste caso, por favor, pensem de novo e não deixem), mas não dá para julgar e apedrejar a Betty em praça pública virtual. Sororidade, irmãs. Betty vem há 74 anos ouvindo que é feio ser gorda; que a atriz gorda só faz papel engraçado ou, bem, de gorda; que a mulher gorda precisa ter uma personalidade muito incrível para atrair alguém; que o vestido não fica tão bem em quem é gorda. Ela apenas está reproduzindo o discurso entranhado na nossa sociedade e que a gente vem, todos os dias, tentando desconstruir, mas que está introjetado dentro da cabeça dela. É que nem essa colega que está paranoica com o biquíni pro Revéillon em Punta e que só fala disso no almoço.

Também em Donna
:: 5 frases que as gorinhas não aguentam mais ouvir
:: “Não usar o termo fofinha em vão”: os 10 mandamentos plus size

O que dá para fazer é debater, é discordar, é conversar, é argumentar. O que dá pra fazer é dizer para a amiga do biquíni que ela vai aproveitar o verão do mesmo jeito se a etiqueta mostrar 38 ou 44. É lembrar a colega do brigadeiro que “isso não é gordice, é uma delícia que a gente tem que se permitir de vez em quando, até porque magro também come docinho”. É retrucar a senhora que elogia o rosto da garota gordinha e lembrar que o corpo dela não é menos bonito porque ela tem uns quilinhos a mais. É fazer as pessoas pensarem antes de dizer esse tipo de coisa para irem, aos pouquinhos, aprendendo que não tem nada de ruim em ser uma velha gorda. O ruim é ser uma velha triste, uma velha frustrada que passa o tempo relembrando os anos em que passou se culpando e deixando de fazer coisas como usar um biquíni ou comer um brigadeiro por medo de ser encaixada nessa categoria de “gordas”. O ruim é a gente ter 20 e poucos anos e dizer por aí que está se sentindo “feia porque está uma baleia”. O que a gente não pode querer é chegar aos 74 anos achando que é triste ser uma velha gorda. Porque triste mesmo, no fim, é nem chegar a ser velha.

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna