As praparadas! Mulheres recorrem a aulas de autodefesa para se sentirem seguras e confiantes

(Diego Vara/Agência RBS)
(Diego Vara/Agência RBS)

Caue Fonseca, especial

Noite escura em Porto Alegre, e Lara Coletti caminhava solitária do Centro Histórico em direção à Cidade Baixa. Restava meia quadra da Rua Lima e Silva até que a amplitude e a luminosidade da Avenida Loureiro da Silva garantisse à jovem alguma segurança, mas a poucos metros um obstáculo se entrepôs. Entre ela e a esquina, um homem a desafiava sorrindo. A mão direita se movendo dentro da braguilha. Não havia uma boa alternativa: era passar por ele ou dar-lhe as costas, correr e assumir o risco de ser perseguida. Alguns segundos se passaram com os dois frente a frente, feito duelo de faroeste.

– Só que o medo foi se transformando em raiva, e raiva e cada vez mais raiva daquela situação… Até que eu resolvi ir em frente.

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Lara respirou fundo, encarou e caminhou firme. Conforme os 1m80cm de uma mulher furiosa foram se aproximando, o sorriso foi desaparecendo, a mão saindo de dentro das calças até que mal houve tempo de o homem abrir caminho para que os dreadlocks da jovem zunissem ao seu lado.

Lara jamais terá certeza de que tomou a decisão mais prudente naquele momento, mas no dia seguinte, sim. Antes que uma nova situação como essa acontecesse, ela pegou a mãe pelo braço e ambas se matricularam juntas em um curso de autodefesa para mulheres.

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Pode ser mais um efeito do movimento recente de empoderamento feminino. Ou uma reação preventiva a um cotidiano de assédio e violência crescentes. O mais provável é que seja um misto das duas coisas. Unanimidade entre instrutores e praticantes de longa data é que as mulheres vêm tomando academias e outros espaços em busca de modalidades voltadas especificamente ao preparo para situações de risco.

– Nossas turmas eram quase todas masculinas. De uns três anos para cá passou a haver uma procura forte e crescente de mulheres. Hoje, elas respondem por cerca de 30% das turmas.

(Jefferson Botega/Agência RBS) Alessandra pratica krav maga desde 2012

(Jefferson Botega/Agência RBS) Alessandra pratica krav maga desde 2012

A constatação é de Marcus Begossi, instrutor há nove anos de krav maga, arte israelense (não marcial, civil) voltada ao que de mais eficiente há em termos de defesa pessoal: ataques rápidos a partes do corpo de alta sensibilidade, preparo psicológico e prevenção. Acima de tudo, prevenção. O perfil das alunas nas 10 localidades em que se ministram aulas da modalidade na capital gaúcha é bastante diversificado em idade e forma física, mas a motivação é, via de regra, semelhante à de Alessandra Reolon. Após a mudança de Cruz Alta para Porto Alegre, em 2012, ela tinha caminhadas noturnas como parte inescapável de sua rotina. Decidiu prevenir antes de remediar.

– Sei me defender, mas nunca precisei. Isso não é por acaso. Quanto mais preparada para situações de risco, menos a gente se expõe a elas – explica a jovem advogada que ilustra os golpes demonstrados ao longo desta reportagem.

Conheça as respostas do krav maga para ataques comuns a mulheres:

Aprender para não precisar usar

Segundo o instrutor Marucs Begossi, embora as aulas de krav maga sejam por vezes extenuantes, apenas 10% de uma situação de risco se resolve com o físico. Os outros 90% envolvem a vítima estar bem posicionada e bem preparada psicologicamente.

– Também por isso trabalhamos com turmas mistas. Preparamos as mulheres para enfrentar homens mais fortes do que elas, e mostrar que pouco importa o tamanho de um cara quando ele recebe um golpe nos olhos ou no joelho – exemplifica Begossi.

Mesmo preparadas fisicamente, o principal benefício de dominar uma técnica como a do krav maga é aprender a evitar as situações de perigo antes que elas surjam. Quem explica é Sandra Manica, consultora de recursos humanos de 42 anos e praticante do krav maga há três anos por incentivo do filho adolescente.

– São posturas como escolher um assento no ônibus em que você enxegue todos os demais passageiros. E jamais sentar na janela, onde é fácil ser embretada. Certa vez desconfiei de um homem e desci imediatamente. Quando o motorista arrancou, deu tempo de ver ele puxando o revólver da cintura – relata, sem vergonha alguma de ter praticado o “fugitsu”, como ela chama.

(Jefferson Botega/Agência RBS)

(Jefferson Botega/Agência RBS)

Sandra ensina outros macetes aprendidos em aula:

– Desenvolvi a técnica de caminhar na rua observando o reflexo dos retrovisores dos carros. Assim, me dou conta se posso estar sendo seguida.

No caso de estar, o conselho é deixar claro – por meio de uma atitude corporal, ou adentrando um estabelecimento comercial – que a possível vítima se deu conta da presença do suspeito. Na maioria das vezes, o sucesso de um assalto depende da abordagem a uma pessoa distraída. Ao perceber que foi flagrado, o assaltante, em geral, desiste e busca outra oportunidade.

Se mesmo sabendo evitar situações de risco, um praticante de defesa pessoal se vê com um revólver a sua frente. Bem, aí o problema é outro.

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Quando não reagir é a melhor reação

Soraia Góes pratica o hapkido há 12 anos. A arte marcial sul-coreana é uma das mais procuradas para a autodefesa, pois busca sempre uma resolução rápida e contundente para uma luta, em até três movimentos. Com o tempo, Soraia se tornou a primeira mulher instrutora da modalidade no Rio Grande do Sul. De todos os seus conhecimentos, ela só não ensina um:

– Embora eu saiba como, não ensino aluna minha a reagir a um assalto a mão armada. Nesse caso, dificilmente vale a pena correr o risco.

Todo bom conhecedor de uma técnica de defesa se equilibra nesse dilema: ele pode até saber como reagir, mas a reação pode acarretar um risco ainda maior. Nesse caso, avaliar a situação com frieza é fundamental. Em casos de assalto a mão armada, ou de uma abordagem já dentro de um veículo, professor algum recomenda reação.

Nas aulas de krav maga, mulheres aprendem a se defender de ataques comuns

Nas aulas de krav maga, mulheres aprendem a se defender de ataques comuns

Há outras situações em que reagir com violência é tentador, mas perigoso. O intrutor de krav maga Marcus Begossi exemplifica com uma bem corriqueira:

– Quando um sujeito passa a mão em uma das minhas alunas na pista de dança, por exemplo. Ela tem o conhecimento para quebrar o nariz do cara, se quiser. Mas e se o ato gerar uma reação de um grupo contra ela? E se algum outro homem atacá-la com uma garrafada pelas costas? Como ela vai controlar essa reação em meio a uma multidão?

Isso não quer dizer que as gurias precisem se sujeitar a esse tipo de abuso. O segredo é decidir até que ponto reagir. Alessandra Reolon dá um exemplo: certa vez, um sujeito tentou soltar o seu sutiã em uma festa. A velocidade com que ela se livrou do braço com um movimento de cotovelo e o encarou foi o suficiente para intimidar o sujeito, que foi se constrangendo e murchando conforme ela tirava satisfações:

– Estava meio bêbado, mas ficou sóbrio rapidinho. Deu pra ver o brilho do olho sumindo.

Bêbados em festas são uma incomodação passageira. Bêbados dentro de casa são ameças bem mais perigosas…

Quando o agressor mora sob o mesmo teto

Judocas faixa preta, Marcelo Xavier e Viviane Brionderlim ministram aulas públicas de defesa pessoal para mulheres. A última ocorreu na quinta-feira passada, organizada pela ONG Participa Poa, no Centro Estadual de Treinamento Esportivo (Cete) do bairro Menino Deus, na Capital. Em eventos semelhantes, já se acostumaram a ouvir questões como:

“E quando o agressor arremessa um objeto?”

“Como reagir contra alguém alcoolizado?”

“E se a gente é surpreendida com um golpe? O que fazer?”

São sinais não muito claros, quase cifrados, de um inimigo silencioso ainda mais perigoso do que a violência urbana, a violência doméstica. Os números são alarmantes: segundo o Mapa da Violência contra a Mulher de 2015, 27% dos homicídios cometidos contra mulheres no Brasil ocorrem dentro de casa. Entre homens, o índice é quase três vezes menor (10%). Em agressões, 67% dos casos que necessitaram de atendimento médico vieram de um parente direto (pai ou irmão), de um parceiro ou de um ex-parceiro. E se números nacionais podem parecer difusos, a delegada Rosane Oliveira de Oliveira, da Delegacia de Polícia para a Mulher de Porto Alegre, traz um dado local chocante.

(Júlio Cordeiro/Agência RBS) Os judocas Viviane e Marcelo ministram aulas gratuitas de defesa para mulheres

(Júlio Cordeiro/Agência RBS) Os judocas Viviane e Marcelo ministram aulas gratuitas de defesa para mulheres

– Todos os dias registramos, em média, 40 ocorrências. A esmagadora maioria de violência doméstica. Nas segundas-feiras, quando as mulheres podem escapar para registrar uma agressão do final de semana, as ocorrências ultrapassam 50 – conta Rosane, ela mesma aluna de Marcelo em aula ministrada no último Dia Internacional da Mulher.

Por isso, os ensinamentos parecem banais, mas fazem toda a diferença. Os judocas ensinam, por exemplo, como posicionar o corpo preventivamente quando uma discussão esquenta: uma das pernas para trás e as mãos sobrepostas frente ao abdômen contraído. Dessa forma, aumentam as chances da mulher se defender com os braços e de manter-se em pé caso receba um golpe. Os professores também aconselham a mulher a se posicionar discretamente atrás de uma cadeira a qualquer sinal de descontrole do parceiro. Compõem ainda a cartilha caneladas frontais e empurrões fortes na altura dos ombros, para que o agressor se desequilibre e a vítima corra até a porta.

– São movimentos simples, que qualquer um pode executar se controlar os nervos, e que salvam vidas – avalia Viviane.

Mas há espaço, nas aulas, para ensinamentos mais descontraídos e igualmente úteis. É o caso da defesa para o velho encoxamento em transportes públicos:

– Esse eu gosto de ensinar porque não há uma mulher sequer, seja nossa mãe ou a nossa namorada, que não sofreu isso um dia. Em 90% desses casos, basta um pisão lento e beeeem forte esmagando o peito do pé do engraçadinho – exemplica Marcelo.

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Juntas, botando o assério pra correr

Ao comando da instrutora Dani Conegatti, uma aluna coloca a mão sobre o peito da outra. Com o seio coberto pela palma da colega, ela aguarda instruções.

– Pega os dedos dela com as tuas duas mãos, dois dedos em cada uma. Separa e força para os lados. Ao mesmo tempo, dobra o pulso dela para trás.

Em segundos, a menina que agarrou o seio da outra está de joelhos, suplicante. É uma das surpresas que um assediador pode ter se desrespeitar uma das gurias do curso de autodefesa ministrados na Aldeia, centro de cultura e eventos no bairro Santana. O diferencial do curso é ser ministrado por mulheres e somente para mulheres. Questionada se não seria mais útil as alunas treinarem com homens, a fim de enfrentar adversários mais fortes, Dani deixa clara a pegada orgulhosamente feminista da aula:

– Isso de que o homem é mais forte é uma construção social. Nós duas (ela e a outra instrutora, Ana Carolina Ventura) treinamos em turmas mistas fora daqui e vemos determinadas mulheres mais fortes do que determinados homens. Assim como temos algumas mais rápidas, menores, maiores… Temos diversidade o suficiente entre as mulheres para suprir qualquer carência.

(Diego Vara/Agência RBS) Com a instrutora Dani Conegatti (E), Sandra e Lara, mãe e filha, treinam em aula exclusiva para mulheres

(Diego Vara/Agência RBS) Com a instrutora Dani Conegatti (E), Sandra e Lara, mãe e filha, treinam em aula exclusiva para mulheres

Situações abusivas ocorridas em turmas mistas já conduziram gurias à Aldeia. Há reclamações de passadas de mão, de cantadas ou de comentários sexistas de professores e colegas homens. Por essas e por outras, alunas como Sandra de Souza e Lara Coletti – mãe e filha citadas no início desta reportagem – preferem treinar com mulheres. Além da técnica chinesa da Pa-Kua, modalidade base das aulas, as instrutoras buscam e ensinam exercícios específicos para responder a situações de achaque masculino. Entre iguais, elas fortalecem o discurso de que o assédio é, além de uma agressão, uma tentativa de submissão.

– Quando o cara passa uma cantada, ele quer, no fundo, é humilhar, subjugar… Fazer a menina se sentir um pedaço de carne, achando que o problema é ela. Quando você sabe que tem ferramentas para se defender daquilo, a postura muda imediatamente – declara a estudante Silvana Greff.

Mudança de postura é ponto principal. Seja qual for a modalidade escolhida para a autodefesa, o objetivo das mulheres é se tornarem não apenas mais seguras nas ruas, nas festas ou dentro das próprias casas, mas mais seguras de si como um todo. De cabeça erguida, nunca vitimizadas. Ao sexo oposto, cabe o conselho de Lara ao se despedir do repórter e do fotógrafo desta reportagem:

– Tchau, guris. E vejam se façam a parte de vocês, tá? Respeitem as minas.

É bom respeitar mesmo.

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