Primeira gaúcha no Rally dos Sertões fala sobre preconceito no meio: “Ouvi que não era lugar de mulher”

Foto: Arquivo Pessoal
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Líbera Costabeber participava de uma competição de motociclismo em Caxias do Sul há dois anos quando descobriu que sua performance era alvo de uma aposta. Ela era a única mulher na prova, e os participantes duvidavam de que a gaúcha conseguiria ultrapassar certos obstáculos, já que eram muito difíceis “até para homem”.

– Quando fiquei sabendo, me esforcei ainda mais. Várias pessoas desistiram pelo caminho. Dos cem pilotos, só uns 50 chegaram ao fim, incluindo eu – conta a gaúcha de 31 anos.

Garra não falta para Líbera, administradora de Santa Maria que se apaixonou pelo esporte radical na adolescência e já disputou mais de 30 campeonatos. Mas seu maior desafio sobre rodas começa mesmo no próximo sábado (18). Pela primeira vez, uma mulher do Rio Grande do Sul estará no Rally dos Sertões na categoria motos, competição com sete dias de provas e mais de três mil quilômetros percorridos.

– Não temos a força dos homens, não adianta. Mas somos mais persistentes. Se colocamos uma coisa na cabeça, é difícil de tirar. Não paramos até conseguir – explica Líbera.

Foto: Arquivo Pessoal

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Com 1m65cm de altura e 72kg, ela aprendeu a compensar as desvantagens físicas com treino, inteligência e força de vontade. Foi apresentada pelo pai, Fernando, ao mundo das motos – o hobby do pecuarista são as trilhas. O que era só uma brincadeira virou paixão, e, aos 15 anos, Líbera começou a participar com o pai de treinos e disputas.

– A mãe achava que ela ia se machucar, me chamava até de irresponsável. Mas sempre confiei nela, mesmo preocupado. Tenho duas filhas mulheres e sempre achei que uma mulher pode fazer tudo o que o homem pode fazer. Fiquei surpreso com a decisão da Líbera de se dedicar a isso, mas ela conquistou tudo por mérito – diz o pai.

É claro que os primeiros passos não foram fáceis. Olhares tortos e comentários machistas não era incomuns, como explica Líbera:

– Ouvi um amigo do meu pai dizer que ele não tinha que levar uma filha para a trilha, que não era lugar de mulher. Mas passei por cima. Hoje, os meus amigos de Santa Maria levam as filhas para a trilha. Na minha época, não era assim. Meu pai é o meu maior incentivador.

Foto: Arquivo Pessoal

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A modalidade em que a piloto costuma competir é enduro de regularidade, que conta com trajetos repletos de obstáculos em lugares extremos – nos Sertões, ela está inscrita no rally de velocidade. Para conseguir vencer as barreiras, Líbera dedica duas horas por dia na preparação, incluindo corrida, aulas de balé e crossfit. Já nos finais de semana, vai para o Interior percorrer trilhas por mais de cinco horas.

Mas, apesar do empenho diário e da paixão pela moto, o esporte ainda é um hobby, esclarece:
– Claro que quero me estruturar ainda mais, ajudar a disseminar a categoria feminina, mas gosto justamente porque tem troca, tem amizade. Se for profissional, muda um pouco a relação.

Representatividade importa

Mesmo competindo há mais de uma década, a primeira vez em que Líbera disputou uma categoria apenas com mulheres foi no ano passado. Quando começou no esporte, não havia muitas referências, principalmente na região sul. Por isso, incentivar meninas a competir nas modalidades off-road é uma das bandeiras da gaúcha. No Rally dos Sertões, por exemplo, haverá apenas mais duas mulheres na categoria de motos: Moara Sacilotti e Janaina Souza, ambas de São Paulo.

Foto: Angelo Savastano

Foto: Angelo Savastano

– A Moara tem muita experiência, já corre há várias edições no Rally dos Sertões. Tenho sentido o carinho de uma mulher com outra. Somos poucas, mas nos unimos. Ela está me recebendo, me ajudando. Pergunta como estão indo meus treinos, minha preparação. Tem sido muito especial.

Em Santa Maria, a piloto criou, com a ajuda de outras parceiras, o grupo Radical Girls. Via WhatsApp ou Facebook, as gurias podem se organizar para praticar os mais diferentes esportes juntas. A ideia é unir o público feminino para mudar uma cultura machista que se esconde atrás de piadas e brincadeiras, como a aposta narrada no início desta reportagem.

– É muito comum homens que me vêm andando associarem o meu bom resultado ao pneu, ao meu equipamento, à minha moto. Nunca é mérito meu. Ninguém quer perder para mulher – afirma Líbera.
Fica a dica, rapazes: é bom irem se acostumando.

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