As primeiras vozes do feminismo: a história do grupo que lutou pelo voto das mulheres

Por Caue Fonseca, especial

Se o figurino do início do século 20 remete a um passado distante, o noticiário nos mostra como o tema segue atual. Na semana em que a Arábia Saudita teve a primeira eleição com participação de mulheres, chega aos cinemas brasileiros As Sufragistas, que conta a história do grupo que radicalizou a luta pelo voto feminino na Inglaterra. Nas páginas a seguir, Donna fala sobre o filme e visita uma exposição sobre o tema, que inaugura uma série sobre o feminismo no Masp.

Em determinado ponto de As Sufragistas, a personagem Maud Watts é questionada por uma corte toda de homens:
– Você trabalha em uma lavanderia, certo?
– Em meio turno desde os sete anos. Em turno integral desde os 12.
– Então o que o voto pode significar para você?
A resposta para essa pergunta é a razão de ser do filme que estreia nesta véspera de Natal, no Brasil. Para quem desconhece a palavra esquisita do título, ela se refere ao grupo que lutava pela extensão do direito ao voto – o “sufrágio” – às mulheres britânicas. O movimento começou no final do século 19 e se radicalizou na Inglaterra em 1912, ano em que se passa a trama.
Demorou mais de cem anos para que a história fosse contada no tom correto. E para isso foi fundamental ter nomes femininos também atrás das câmeras. O roteiro é assinado pela prestigiada Aby Morgan. Autora de Shame e A Dama de Ferro, ela tem dois prêmios Emmy e dois Baftas na estante. A direção de Sarah Gravron, de respeitável carreira em documentários, é um dos pontos elogiados do filme:
– Não deixe o elenco classudo e o figurino te enganarem. O filme de Gravron tem menos em comum com filmes ingleses prestigiados, como A Teoria de Tudo ou O Discurso do Rei, e mais com dramas de mulheres sob pressão, como Erin Brockovich e Norma Rae. Ele é escrito, filmado e atuado com sangue quente e urgência, o que nos lembra o quanto essa luta ainda está em curso. E dá um sacode de desobediência civil na guerra dos sexos – descreve Robbie Collin, crítico do jornal britânico The Telegraph, que deu quatro estrelas ao longa.

O papel principal cabe à atriz Carey Mulligan, indicada ao Oscar em 2010 por Educação. Maud vive uma jovem que se engaja às sufragistas após dar um basta à rotina de assédio moral e sexual do seu patrão, ao qual ela se sujeita para que o marido também não perca o emprego. É por meio da personagem fictícia que o roteiro contextualiza como a luta pelo voto significava para as mulheres inglesas algo muito maior do que eleger representantes ao parlamento. Na trama, figuras fictícias interagem com personagens históricas como a viúva Emmeline Pankhurst, interpretada por ninguém menos do que Meryl Streep.

Emmeline Pankhurst
Presa 13 vezes entre 1908 e 1914, Emmeline fundou a União Política e Social de Mulheres. Foi ela que, por meio de discursos inflamados de sua sacada, acendeu o pavio para que a luta das mulheres se radicalizasse. Dona do bordão “ações, não palavras”, ela estimulou a revolta que culminou com mulheres quebrando vidraças, promovendo guerras de fome, invadindo eventos e depredando museus. Segundo uma das manifestantes, “a única linguagem que os homens escutam”.
– Nós não queremos quebrar leis. Nós queremos fazer leis – esclarece Emmeline em um dos discursos.

A luta das sufragistas inglesas só obteve a primeira vitória – e parcial – em 1918, quando as mulheres já ocupavam mais destaque na sociedade em razão da mortalidade masculina na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). O voto feminino foi permitido para mulheres acima de 30 anos ou acima de 21 anos (como os homens), desde que proprietárias de casa própria ou casadas com um homem com posses.
Na estreia do filme na Inglaterra, em outubro, Carey carregou um cartaz do movimento 50:50 Parliament, em defesa que 50% dos assentos do parlamento britânico sejam destinados a mulheres.

carey

Hoje, elas ocupam 29% das vagas no legislativo. Do lado de fora da sessão, o Festival de Cinema de Londres foi invadido por um grupo feminista. Carregando cartazes escritos “Nós somos as sufragistas. Mulheres mortas não votam”, elas protestavam contra a violência doméstica deitando no tapete vermelho e soltando bombas de fumaça lilás, cor do movimento à época. Coadjuvante no elenco, a atriz Helena Bonham Carter aplaudiu:
– Estou orgulhosa do nosso filme ter causado algo. É exatamente para isso que ele está aí.

NARRATIVAS DE LUTAS
Por Juliana Almeida

Aluta pelo voto feminino inspirou a exposição que pontuou as paredes do Museu de Arte de São Paulo com molduras negras. Pela primeira vez no Brasil, a instalação Elementos de Beleza: Um Jogo de Chá Não É Apenas um Jogo de Chá, da argentina Carla Zaccagnini, é o primeiro capítulo de um projeto a longo prazo batizado pelo Masp de Histórias Feministas. São 29 molduras representando as obras atacadas em protestos realizados por sufragistas na Inglaterra, no início do século 20. Quando o visitante recebe o audioguia da mostra, em cartaz até 14 de fevereiro de 2016, escuta vozes femininas que explicam os ataques praticados com facas de açougueiro.
00b54a6a
A disposição da obra impressiona pelas dimensões das molduras, no tamanho original das obras depredadas. Uma delas chega a 1m97cm x 4m7cm. É o quadro Andrômaca Prisioneira, de Lord Frederic Leighton, de 1888. Essa foi uma das 13 pinturas atacadas em 3 de abril de 1913, na Manchester Art Gallery, data da primeira manifestação das ativistas.

frederick_leighton_032_cattura_di_andromaca_1888

O ataque mais representativo da causa das sufragistas foi o que danificou o quadro Sua Alteza o Duque de Wellington, de Hubert von Herkomer, alvo em 12 de março de 1914, na Royal Academy, em Londres. Nele está o neto do Duque de Wellington, um dos generais que lutaram contra a instituição do voto no final do século 19 no Reino Unido e na Irlanda. O argumento das ativistas? “O avô teve as janelas de casa quebradas em prol do voto masculino. O retrato do neto foi destruído em prol do voto feminino”, explica a locução em áudio.

O nome da mostra é explicado na faixa 15. Em 9 de abril de 1914, três xícaras e um pires de porcelana chinesa foram destruídos pelas sufragistas no British Museum, em Londres. A obra retratava a diferença de classes e um hábito dos trabalhadores chamado de “milk first”: servir-se de leite antes do café quente para que as xícaras não se quebrassem com o calor. Como os mais ricos utilizavam as xícaras de porcelana, as sufragistas argumentavam que atacaram a valorização à propriedade – referência a como as mulheres eram tratadas à época.

Elementos
Carla Zaccagnini, Elements of Beauty: A Tea Set Is Never Only a Tea Set, 2012-2015. 29 molduras sobre parede e audioguia. Montagem realizada no Firstsite Lewis Garden, Colchester, Inglaterra, 2015 / Divulgação

Em outra narração, conta-se o que ocorria com as mulheres quando elas eram presas: as ativistas eram obrigadas a olhar para a câmera e, para isso, eram seguradas pelos guardas pelo pescoço. Nas fotos reveladas, os braços que as sufocavam eram apagados para esconder do grande público a humilhação e a violência. Além das prisões, outra consequência dos ataques foi a determinação de que as mulheres só poderiam frequentar as salas de leitura dos museus acompanhadas e com uma carta de recomendação sobre seu bom comportamento.

TIMELINE DO VOTO FEMININO

1718 – Na Suécia, o direito foi aprovado, mas restrito a mulheres que pagavam impostos. Em 1758 (eleições locais) e em 1771 (nacionais), acabaria revogado. É aprovado novamente em 1921.

1776 – O Estado de New Jersey, nos EUA, permite o voto feminino (e revoga, em 1807). O voto feminino começa a se espalhar Estado por Estado.

1893 – Nova Zelândia permitiu votos femininos para o parlamento. Candidatas mulheres, no entanto, só foram permitidas em 1919.

1901 – Pela primeira vez, há votos de mulheres (restrito a alguns Estados) nas eleições federais da Austrália.

1906 – A Finlândia se torna o primeiro país na Europa a aprovar o voto feminino.

1908 – A Dinamarca aprova o sufrágio feminino nas eleições locais e, em 1915, nas federais.

1916 – Primeira província do Canadá aprova o voto feminino.

1917 – Uruguai insere o voto feminino à sua constituição.

1918 – A Inglaterra aprova o voto de mulheres acima de 30 anos (ou acima de 21 se tiver posses ou marido com posses). No mesmo ano, Alemanha, Polônia e Rússia aprovam leis semelhantes.

1920 – Emenda à constituição dos EUA aprova o voto feminino em todos os Estados remanescentes.

1929 – Após ações judiciais de mulheres pelo direito ao voto, o Equador insere o direito na constituição, embora facultativo.

1931 – Oito anos após aprovar o voto para solteiras ou viúvas, a Espanha estende o direito a todas as mulheres.

1932 – O Código Eleitoral aprova o voto feminino no Brasil. O direito é assegurado na Constituição de 1934.

1945 – Passada a Segunda Guerra Mundial, o voto feminino chega a países como França, Itália e Japão.

1948 – A ONU insere na Declaração Universal dos Direitos Humanos o artigo 21, que determina que governos realizem eleições periódicas com voto secreto e igualdade de gênero.

2015 – Primeira eleição com participação feminina na Arábia Saudita.

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna