Projeto Pode Gritar dá voz a vítimas de abuso, transformando desabafos em relatos literários

(Félix Zucco)
(Félix Zucco)

Certo dia, o padrasto ofereceu à enteada uma carona após o trabalho. Dirigiu até a Praça Pôr do Sol, no bairro Bela Vista, desligou o motor do carro e enfiou a mão debaixo da saia dela, que ameaçou gritar. Ele disse:

Pode gritar, ninguém vai te ouvir.

A cena verídica batizou o projeto dos escritores Nurit Gil e Robertson Frizero, ambos radicados em Porto Alegre. A ideia era criar uma plataforma para vítimas de abuso sexual em que elas pudessem, sim, ser ouvidas.

– Diferentemente de outros crimes, em que as vítimas fazem questão de denunciar, o silêncio é um ponto em comum entre as histórias. Porque existe a vergonha, o medo, a culpa. Existe ainda a família, em que o tema é um tabu. E existe uma voz forte, que é a literatura – declara Nurit.

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O site Pode Gritar entrou no ar em setembro de 2015. A proposta é que as vítimas de abuso sexual entrem em contato com os escritores e contem suas histórias. As narrativas, então, são reescritas em forma de relatos literários em primeira pessoa. Tanto a vítima quanto o escritor do relato assinam um termo de compromisso com cláusulas que asseguram a não identificação dos personagens e vetam qualquer uso comercial dos textos.

Respectivamente professor e aluna de oficinas literárias, Frizero e Nurit também contam com o trabalho voluntário de autores parceiros. Nesses casos, nem mesmo os escritores que recebem os relatos para transformá-los em literatura sabem a identidade de quem contou a sua história.

A inspiração veio do Project Unbreakable (Projeto Inquebrável), criado em 2011. Então com 19 anos, a fotógrafa americana Grace Brown fez e divulgou fotos de vítimas de violência sexual segurando cartazes em que se liam frases ditas pelos seus abusadores. Se assim se sentissem mais confortáveis, elas seguravam os cartazes sobre os rostos, ocultando as suas identidades. A iniciativa ganhou o mundo quando passou a receber colaborações espontâneas, e as pessoas passaram a enviar selfies com suas histórias. Em um dos casos de maior repercussão, a vítima mandou a foto ainda cheia de hematomas, momentos depois de ser espancada.

Vem do Unbreakable a ideia de salientar entre aspas um trecho de cada relato, seja da voz da vítima ou uma frase dita pelo abusador. A ideia não é chocar, mas, sim, mostrar como as narrativas carregam entre si muito em comum. Salientando determinadas frases, leitores que ouviram ou pensaram coisas semelhantes nas suas vidas podem se identificar e saber que não estão sozinhos.

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Como a dupla de escritores faz questão de ressaltar, o site não tem caráter de denúncia pessoal.

– A frase não é minha, mas gosto muito: falar é libertador, pois liberta a dor. Os relatos servem como terapia para a vítima e como denúncia, aí, sim, à sociedade – explica Nurit.

Autor de Longe das Aldeias (Editora Dublinense) – romance de 2015 em que escreveu pela primeira vez sobre violência sexual -, Frizero ressalta ainda os cuidados que requerem textos com um tema tão delicado.

– Por conterem, por vezes, cenas explícitas, me apavoraria a ideia de isso ser usado como literatura erótica de qualquer forma – declara o escritor.

Outro cuidado é em não “pesar as tintas” na caracterização dos abusadores como vilões. Por se tratarem muitas vezes de pessoas próximas às vítimas, até familiares delas, é normal que as vítimas tenham sentimentos conflitantes por seus abusadores. Apresentá-los de forma unidimensional e caricata pode prestar um desserviço. O relato de uma pessoa abusada por alguém que, em outras situações, foi carinhosa e correta no seio familiar é mais verossímil e pode gerar maior identificação a outras vítimas do que um texto em que o abusador é retratado como uma pessoa má ou sádica. São situações complexas, em que muitas vezes o contato entre abusador e vítima permanece por anos após os episódios de abuso.

Tais preocupações fazem com que os textos levem certo tempo até a publicação. O primeiro deles foi publicado em 28 de outubro, cerca de um mês depois de o site estar no ar. Para manter o espaço ativo entre a publicação de um relato e outro, os escritores divulgam também notícias e artigos a respeito do tema. Entre as sete histórias já relatadas, há casos de mulheres e homens, heterossexuais e homossexuais.

Em uma das histórias, o abuso aparece como uma porta por pouco não adentrada. Um mulher conta que certa vez, aos 15 anos, o primo do pai, após observá-la de biquíni em passeio de barco, a abordou e pediu para que ela lhe telefonasse naquela semana.

– Nesse caso, o abuso não foi consumado, mas relatos assim são importantes para mostrar como essas coisas começam de uma forma sutil. Poxa, não é correto pedir para que uma adolescente te telefone. Serve, portanto, de alerta – avalia Frizero.

Para Nurit, a julgar pela viralização de iniciativas como #MeuPrimeiroAssédio, hashtag utilizada em outubro passado para que mulheres contassem a primeira vez em que foram confrontadas com casos de assédio sexual, são inúmeras as pessoas que passaram por situações semelhantes ao caso do passeio de barco. Graças à intimidade e ao poder do abusador em relação à vítima, histórias que começam assim podem acabar em abuso e trauma para toda a vida.

– Costumamos dizer que o ideal é chegar ao ponto em que ninguém nos mande e-mail, pois não existem mais histórias assim para serem contadas – diz Nurit.

Até lá, grite. Para que todos ouçam.

TRECHOS DE DEPOIMENTOS PUBLICADOS ANONIMAMENTE NO SITE PODE GRITAR

“Alguns anos mais tarde, você chegou. Minha mãe estava radiante, a mesa de almoço finalmente tinha as cadeiras todas ocupadas e a casa ficou mais feliz. (…) Finalmente, como todas as outras crianças, eu tinha uma figura paterna. De forma completamente fora do padrão, mas tinha. Você era engraçado e adorava nos encher de cócegas. Ríamos até chorar. Quando eu fiz quatorze anos, suas cócegas passaram a ser na minha virilha. Eu não contei para ninguém, mas parei de sorrir.”

“Como explicar para todos o porquê de ter escondido esse segredo por duas décadas? E se não acreditassem em mim? Afinal, o Dindo já havia morrido e ninguém poderia confrontá-lo. E como meus pais, que agora já estão com quase oitenta anos, poderiam reagir à notícia?”

“Não conseguia entender. Seria demais querer um pai como o de minha melhor amiga, que a pegava no colo simplesmente para brincar?”

Como entrar em contato:
E-mail: podegritar@yahoo.com.br ou através da página no Facebook

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