Quase como gente! Histórias de quem tem pets que são muito mais do que animais de estimação

Quem nos entende com mais profundidade, nos observa com menos julgamento e nos acompanha com maior dedicação? Respondeu certo quem disse os animais de estimação, as quase-pessoas peludas e de quatro patas que escolhemos para compartilhar nossa vida. Cães ou gatos, comprados ou adotados, de raça ou vira-latas, eles são uma extensão de nós mesmos, uma parte da família, um membro na pequena ordem social em que organizamos o cotidiano. Há quem diga que são quase gente. Há quem os trate como tal. O fato é que a humanidade nunca teve, como agora, uma relação tão próxima e tão sentimental com os animais.

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Pessoas e bichos se relacionam desde que ambos existem, é claro. A domesticação de algumas espécies, como cães e gatos, foi a prova de que a parceria era mesmo verdadeira. Esta proximidade edificou culturas e inspirou artistas ao longo do tempo. Os gatos, sagrados no antigo Egito, são parte da intrincada rede de crenças e divindades que compõe a cultura milenar daquele povo. Os cães descendentes de lobos selvagens ajudaram o homem a desbravar e estabelecer-se nas áreas mais inóspitas do planeta, como o Círculo Polar Ártico. Artistas como os franceses Pierre Auguste Renoir e Henri Matisse e o espanhol Pablo Picasso têm, entre suas obras, muitos retratos de cães e, especialmente, de gatos. O impressionista Renoir, por exemplo, retratou muitos, de várias pelagens, sozinhos ou interagindo com seus humanos. Um dos escritores mais importantes da literatura brasileira, Graciliano Ramos fez da cadela Baleia o personagem, digamos, mais “humano” da sua obra-prima, Vidas Secas. No grupo de retirantes comandado pelo vaqueiro Fabiano, as pessoas são animalizadas, embrutecidas pelo ambiente hostil e pelas condições extremas, enquanto Baleia expressa emoções e sentimentos pela voz do narrador.

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Essa presença que fez história e arte torna-se cada vez mais intensa. A Pesquisa Nacional de Saúde, divulgada em junho pelo IBGE, demonstrou que 44,3% das residências brasileiras possuem pelo menos um cachorro, o que equivale a 28,9 milhões de famílias. O IBGE também estimou que a população de cães domésticos é de 52,2 milhões de indivíduos – o número é maior do que o de crianças de até 14 anos, que são 44,9 milhões. Os felinos são menos numerosos do que os cães, o que não significa uma presença tímida. Pelo contrário. São 22 milhões de bichanos espalhados em 17,7% dos lares do país. Nada menos do que 11,5 milhões de famílias com pelos menos um gato entre os seus membros.

Mas por que os animais estão cada vez mais presentes na nossa rotina? Os motivos são muitos, apontados por pesquisas de toda sorte: a ausência de filhos, a necessidade de companhia na maturidade, a solidão das grandes cidades, o benefício deste convívio para a saúde mental e física das pessoas – quem tem mascotes conhece bem os próprios motivos. Tanta proximidade resulta, muitas vezes, em tratamento humanizado dado aos bichos. Seções de spa e embelezamento, festas de aniversário, brinquedos tecnológicos, terapias alternativas e alimentação customizada são alguns dos mimos que aproximam os bichos das pessoas quando o assunto é mordomia. Até objetos e roupinhas assinados por grifes renomadas são cada vez mais comuns – marcas como Burberry, Gucci, Louis Vuitton e Chanel já assinaram coleções para pets que, apesar de custarem pequenas fortunas, desaparecem das lojas em pouquíssimo tempo.

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Tratar nossos amigos como gente pode ser uma diversão para nós, mas nem sempre é bom para eles. Pesquisa recente divulgada pela Universidade de Bristol, no Reino Unido, provou que cães podem ter depressão. Entre as possíveis causas levantadas pelo estudo estão a humanização excessiva, que tira do animal a possibilidade de fazer “coisas de cachorro”, e a solidão causada pelos longos períodos de ausência dos donos.

Uma convivência saudável entre humanos e animais, porém, é fonte inesgotável de satisfação. Eles tranquilizam, melhoram a capacidade de socialização e comunicação, aumentam a afetividade e até previnem doenças, como já demonstraram pesquisas relacionadas a alguns tipos de males cardíacos. Mas não é por resultados de pesquisa que dividimos nossa vida com cães e gatos. Por escolha, inserimos os pets no nosso dia a dia porque amamos e temos necessidade de sermos amados de volta. E, se queremos ao menos um amor sem cobranças, sem julgamentos e sem limites, temos pleno sucesso na empreitada com os bichos. Por isso os tratamos quase como gente, e gente especial, com licença para estar presente em todos os espaços e momentos da vida. Não importa aparência, conta bancária, status. Importa apenas que sejamos nós, de coração aberto para retribuir tanto amor.

 

Pai, mãe e duas filhas 

Quando a jornalista Renata Germano, de 32 anos, começou a namorar o atual marido, Ricardo Roduit, 33, já foi logo avisando: “A Betina dorme comigo. E isso nunca vai mudar”. Hoje, a cama tem mais um ocupante: a vira-lata Madá (apelido de Madalena), de nove meses, que deixa o leito do casal com ainda menos espaço e com muito mais amor.

Betina, uma beagle de 10 anos, é mimada, amorosa e arteira e está com Renata desde os 30 dias de vida. Já Madá chegou recentemente, enviada de Alegrete por uma amiga, e é ativa e brincalhona como todo filhote. As duas são, para Renata e Ricardo, as primeiras filhas de uma família que ainda pode aumentar.

— Quando eu tiver um filho, ele vai ser o meu terceiro. Porque já tenho as duas, né. Não sou mãe ainda, mas imagino que o sentimento seja muito semelhante — comenta Renata. — E a cama vai continuar sendo das cachorras! — completa.

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Desde a chegada de Betina, a rotina de Renata é estabelecida em função dela. Quando Ricardo entrou na família, precisou se adaptar – o que não foi muito difícil, já que Betina o seduziu logo de cara. As viagens são planejadas, quase sempre, de forma que as cadelas possam ir junto. Quando não é possível, Renata chama amigos ou parentes para cuidar das duas em casa, já que Betina não gosta de ficar em hotéis para cachorros. A rotina também é organizada para que o casal possa passar o maior tempo possível com elas – como fazem os casais com filhos biológicos. Quando uma doença séria acometeu a beagle e uma cirurgia delicada era a única esperança, Renata não economizou:

— Que mãe iria pensar em dinheiro numa hora dessas?

Felizmente, o investimento rendeu bons frutos e Betina se recuperou. Ela e a irmã recente continuam preenchendo a vida de seus humanos e oferecendo treinamento intensivo em amor enquanto os irmãos não chegam.

— Eu não seria o que eu sou hoje se não as tivesse. Elas mudam o nosso jeito de olhar a vida e as pessoas e melhoram nossa relação com os outros. São como filhas, e sem elas nossa trajetória não seria tão divertida — resume Renata.

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Preenchendo espaços vazios 

A convivência da servidora aposentada Sônia Tavares, de 65 anos, com cães é longa, de toda a vida. Desde a infância, em Pelotas, até a criação dos filhos, em Porto Alegre, toda a trajetória foi acompanhada por algum amigo peludo. Um deles, porém, mostrou a ela o poder restaurador que pode ter a relação entre as pessoas e seus animais. Ludovico, uma mistura de poodle e yorkshire que chegou há dez anos em uma caixinha de leite, mudou a vida de Sônia, devolvendo o entusiasmo e a disposição que estavam esquecidos.

Os dias eram sombrios na casa da família Tavares há uma década. Pity, o cão anterior, havia morrido recentemente. Os filhos do casal, já adultos, começavam a viver a independência dos pais, com suas agendas corridas e suas presenças cada vez mais raras em casa. Sônia havia se aposentado fazia pouco tempo, mas o marido, Sílvio, ainda estava na ativa – como segue ainda. A solidão tornava-se sufocante.

— Foi quando chegou o Lud. O Sílvio não queria, não aceitava. Mas eu insisti. E foi a melhor decisão, porque ele preencheu um vazio que se formava. Eu tinha necessidade de estar perto de alguém ou algo que me desse prazer, com quem eu pudesse me envolver – comenta Sônia, emocionada.

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Hoje, Ludovico é o rei da casa. Passeia duas vezes por dia, come cenoura e dorme com os pais. Vive grudado em Sônia e, segundo ela, adivinha seus pensamentos e sentimentos. É o amigo que nunca falta, o companheiro que nunca se ausenta.

— Ele completa a nossa vida. Sem os filhos em casa, é ele quem faz companhia. Quando ele sai para tomar banho, já fico com saudade — confessa.

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Um sonho que virou amizade

Desde pequena, o sonho da stylist Ana Carrard sempre foi ter um cachorro. Os pais, no entanto, nunca concordaram, já que a família morava em apartamento. Mas a paixão era tanta que a menina chamava os cachorros de rua para alimentá-los às escondidas, na portaria do prédio. Quando ficou adulta, a realização do desejo veio na forma de uma cadelinha da raça Golden, pequeninha e doente, chamada Duda.

Passada a infância problemática, Duda, que hoje tem oito anos, tornou-se a melhor amiga de Ana. O vínculo estabelecido entre as duas nos momentos mais difíceis daqueles primeiros meses transformou-se em um sentimento que mescla a responsabilidade com o carinho devotado a um grande amigo.

— Eu convivo mesmo com a Duda, me organizo para estar com ela. As caminhadas diárias são religiosas, faça chuva ou faça sol. Acordo sempre duas horas antes para passear com ela. E curtimos nossos momentos em casa também. Ela é minha parceira para tudo — revela.

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Quando se mudou para o Rio de Janeiro, Ana nem pensou em deixar Duda, que viveu sua temporada carioca. No retorno a Porto Alegre, a cachorra ia para o trabalho todos os dias com a dona.

— Tive escritório em três casas, que escolhi por permitirem a presença dela. Ela ia comigo todos os dias e em pouco tempo conquistava todo mundo. Até passeava sozinha na quadra, quando eu não podia acompanhá-la — conta.

Apesar de reconhecer que a convivência com Duda exige alguns sacrifícios – não poder acordar um pouco mais tarde e perder o happy hour com os amigos estão entre as renúncias mais frequentes -, Ana afirma que as compensações chegam na mesma medida:

— Temos uma cumplicidade incrível, ela sabe o que estou sentindo e trocamos energias. Não tenho aquela coisa de mãe com ela. É muito mais de amiga, de companheira. E isso é maravilhoso.

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Família cada vez mais feliz 

Cachorro sempre fez parte da vida da publicitária Maíra Franz, de 32 anos. Desde a infância, em Santa Rosa, ela convive com cães de forma constante e intensa. Mas foi ao conhecer o marido, o advogado Roberto Fabbrin, 35, que ela passou a viver, de forma mais profunda, o significado desta relação. Para eles, os cães são fonte de saúde, disciplina e harmonia conjugal.

Quando se conheceram, ele já tinha Pantufa, uma vira-lata de nove anos encontrada por ele na beira de uma estrada. Foi amor à primeira vista entre as duas. Para fazer companhia à primogênita, há quatro anos o casal adotou Pink, outra vira-lata, esta encontrada, com a mãe e o restante da ninhada, por protetores de animais em Novo Hamburgo. A família estava completa com as duas gurias quando uma notícia inquietou Maíra: um cão muito maltratado, magro e vítima de violência precisava ser resgatado na Vila Cruzeiro. Ao buscar o animal para encaminhá-lo para adoção, viu os ferimentos, o estado de desnutrição, os traumas e, mesmo assim, a docilidade e gentileza do cão. Nelson nunca mais deixou o apartamento onde hoje vivem os três cachorros, aos cuidados do casal.

— As pessoas me perguntam, mas três? Num apartamento? Digo: sim, três. Eles não dão trabalho, mas sim nos ensinam a ter disciplina, paciência, enfim, a sermos pessoas melhores. E, em retribuição, nos dão muito amor — diz Maíra.

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O passeio com os três é diário, mas é nos finais de semana que a família toda se reúne para os seus melhores momentos. Além das brincadeiras de bolinha na praça, o trio também acompanha os pais a eventos, restaurantes, viagens e até no stand up paddle: Pantufa tem colete salva-vidas para remar com Roberto nas águas do Guaíba.

— Isso é bom para eles, que se divertem, e para nós, que aproveitamos esses momentos juntos e curtimos nossa paixão pelos cães. Nossa vida só fica completa com eles — derrete-se Maíra.

Os cães são parte central na vida dos dois humanos. Em função deles, conheceram amigos e continuam fazendo novas amizades com outros pais de cachorro. Também por causa deles, a rotina de exercícios físicos nunca é deixada de lado, já que é preciso, ao menos, caminhar com o trio duas vezes por dia. Nas redes sociais, Maíra posta fotos do grupo nas poses mais fofas, sempre com a hashtag #matilhafranzfabbrin, ressaltando o prazer da convivência com eles e a importância de cada um na vida do casal:

— Eles nos ensinam a viver com amor. O Nelson, por exemplo, só recebeu porrada, e agora retribui com amor e gentileza. Eles nos mostram que a felicidade é poder passear, ter água, comida e uma caminha. Não tem nada mais simples e bonito do que isso.

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