Relacionamento aberto: a experiência de liberdade de uma mulher que vive relações não-monogâmicas

Foto: Pexels
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Boas histórias e reflexões de mulheres que preferem permanecer no anonimato. Esta é a proposta da nova seção Entre Nós, que estreia com o relato e as experiências de uma terapeuta de 31 anos, de Porto Alegre, que, desde os 21, aposta na liberdade de relacionamentos abertos.

A primeira vez que vivi uma situação de relação aberta foi com 21 anos, quando me envolvi com um amigo que tinha namorada. Eu conhecia ela, ficamos amigas no ano anterior, mas naquele momento ela estava em outro país em intercâmbio. Antes de ficar com ele, perguntei por ela, e ele me respondeu que estava tudo bem, que ela sabia e topava que ele se envolvesse com outras pessoas.

Para mim foi um pouco estranho no início, fui entendendo aos poucos o que aquilo significava. Quando ela voltou, dois meses depois, eu e ele estávamos naquele momento grude apaixonado, e fui entendendo que eles estavam num momento difícil de finalizar a relação. Senti que meu vínculo com ele não foi afetado, me senti segura do sentimento que tínhamos, mas necessariamente nos afastamos um pouco para dar espaço para a separação deles, que durou pelo menos um mês. Ela e eu conversamos sobre quanto nos admirávamos mutuamente, mas levou alguns meses ainda para conseguirmos nos reaproximar como amigas, e quando isso aconteceu foi sincero e tranquilo.

Nessa época, comecei a conviver com os estranhamentos de outras pessoas que nos conheciam: “eu jamais aceitaria uma coisa assim”, “isso não é pra mim, vocês são muito estranhos”, “Ah não, isso é complicado demais”, eu ouvia com frequência. Essa situação me fez perceber que para mim sempre tinha sido muito natural entender que companheiros meus demonstrassem interesse por outras pessoas, assim como eu percebia que meu interesse por outras pessoas não afetava necessariamente minha relação com alguém. Mas, até então, também nunca tinha cogitado estabelecer “uma relação aberta”, simplesmente porque nunca soube que essa era uma opção, não conhecia ninguém nessa situação e percebia a carga de julgamentos sobre o tema.

De lá pra cá, já se vão 10 anos, muitas reflexões sobre o tema e diferentes experiências me deixaram aprendizados importantes. Essa primeira relação àquela a que me referia durou cerca de quatro anos, incluindo um ano a distância. Aconteceu de ambos ficarem com pessoas fora da relação, e isso às vezes foi conversado, outras vezes não. Ficou a critério de cada um decidir se considerava importante contar sobre esses envolvimentos. Considero que essa parte deu bem mais certo do que várias outras dimensões da relação que se desgastaram de uma forma que incluiu violências psicológicas que hoje percebo que foram bem graves. Isso me fez questionar os padrões machistas sobre os quais costumam se construir relações heterossexuais e de amor romântico em geral. Porque mesmo “podendo ficar com outras pessoas”, não quer dizer que vamos saber construir relações saudáveis e deixar de reproduzir os modelos violentos que aprendemos.

Precisa muito mais do que “abrir a relação” para viver o amor com liberdade. Nesses anos, inclusive, fui vendo o “amor livre” virar algo como uma moda, e vi pessoas se sentindo pressionadas a aceitar experiências nas quais não estavam confortáveis só para se adaptarem ao que é bem visto em alguns meios. Isso é muito violento, porque cada pessoa vem de uma construção afetiva que precisa ser respeitada, e existem relações de poder que se reproduzem nesta estrutura sexista e racista em que vivemos. Algo que na minha experiência foi muito importante foi garantir a amizade, ou pelo menos a simpatia mútua, com as outras mulheres que se relacionam com uma mesma pessoa que eu. Uma vez aconteceu de eu perder uma amizade que valorizava muito porque o casal mantinha uma “relação aberta em que não se falavam sobre seus outros envolvimentos” (o que eu pessoalmente tenho dificuldade de distinguir de uma relação monogâmica normal) e quando contei para a mulher sobre minha relação com o cara, ela não quis mais falar comigo. Depois disso, me prometi tomar mais cuidado para priorizar minha relação com as mulheres, e deixei de me envolver com alguns homens que percebia que não eram sinceros com suas companheiras.

Há três anos e meio, me envolvi com uma pessoa e me percebi relutando muito em assumir um relacionamento. Então, vi machucados ainda latentes daquela relação dos 21 anos, e com a parceria deste novo companheiro, pude ir sarando pouco a pouco. Fomos amadurecendo sobre essa necessidade de que cada um enfrente suas próprias sombras para que não projetemos elas sobre o outro. Passamos por diferentes momentos, mas sempre tendo a possibilidade de nos envolvermos com outras pessoas. Já nos envolvemos com uma pessoa juntos, e também cada um com outras pessoas por sua parte. Desde que moramos juntos, percebemos como é difícil estabelecer uma relação com outra pessoa se esta tem alguma expectativa de aprofundar no envolvimento, porque a dinâmica da nossa vida dificulta dar conta das necessidades afetivas de outra pessoa. Sempre avisamos para a pessoa com quem vamos ficar que temos uma relação estável, antes de ficar com a pessoa.

Conversamos muito sobre os cuidados que precisamos ter um com o outro, mas também com as outras pessoas com quem cada um se envolve. Conversamos muito sobre inseguranças e ciúmes, porque obviamente isso existe. Pessoalmente, acho engraçado como quando consigo dizer “Tô com ciúmes sim, pronto”, parece como se fosse um balão murchando: vou me dando conta das outras inseguranças envolvidas na situação, e o incômodo com a terceira pessoa passa, me deixando cara a cara com aquilo que é meu nessa história. A gente tem que assumir suas responsabilidades, né? Mas já aconteceu de um de nós dizer: “Não estou conseguindo dar conta dessa tua história”, e aí, por enquanto priorizamos a nossa relação respeitando os limites do outro. Acho qualquer relação, mas principalmente relações que se abrem para a possibilidade de envolvimento com terceiros, são um eterno processo de autoconhecimento. E quanto mais saudável a relação com nós mesmas, mais provável que isso se reflita nos relacionamentos que estabelecemos, seja no molde que forem… ou sem molde.

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