Renata de Medeiros: “Não vamos mais nos acostumar a machismo no meio esportivo”

Foto: Reprodução
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Renata de Medeiros, repórter esportiva da Rádio Gaúcha

Trabalhar no meio esportivo é um desafio histórico para as mulheres. Arrisco garantir que enfrentar o machismo diário não é exclusividade das jornalistas – torcedoras, árbitras, técnicas, nutricionistas, fisiologistas e médicas, por exemplo, também são colocadas à prova com a mesma frequência que as profissionais de imprensa. “Melhor se acostumar: o futebol é assim”, ouvimos. Crescemos com a mentalidade de que, se quiséssemos circular pelos estádios, deveríamos nos acostumar a ouvir cânticos nojentos e piadinhas de homens que jamais havíamos visto, além de vestir roupas de, no mínimo, dois manequins acima dos nossos para tentar diminuir a quantidade de provocações de torcedores.
Este comportamento está presente nas arquibancadas. Nas direções dos clubes. Nos vestiários. Nas redações. “Melhor se acostumar”, repetem insistentemente. Fomos ensinadas a aceitar que a presença feminina não é algo natural no futebol. Mas cansamos.

Bruna Dealtry (Esporte Interativo) participou do vídeo.

Bruna Dealtry (Esporte Interativo) participou do vídeo. Foto: Reprodução/Youtube

Em 25 de março, o movimento #DeixaElaTrabalhar eclodiu nas redes sociais: mais de 50 jornalistas esportivas de todo o Brasil desabafaram em um manifesto que expõe as agressões e o assédio a que são submetidas no exercício da profissão. A mobilização começou com cerca de 10 jornalistas do Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, fui agredida por um torcedor colorado no Beira-Rio enquanto cobria o Gre-Nal 413. Na mesma semana, um torcedor do Vasco tentou beijar à força a repórter Bruna Dealtry, do Esporte Interativo, na transmissão dos preparativos para a partida contra a Universidad de Chile, pela Libertadores. No dia seguinte, Bruna, eu e outras mulheres fomos incluídas naquele grupo de WhatsApp, criado pouco tempo antes com o propósito de debater o machismo que cerca quem trabalha na imprensa esportiva. Todas nós carregávamos casos de abuso e de extremo desrespeito apenas pelo fato de sermos mulheres e por estarmos em um ambiente predominantemente masculino.

Renata de Medeiros no vídeo do movimento. Foto: Reprodução/Youtube

Renata de Medeiros no vídeo do movimento. Foto: Reprodução/Youtube

O desabafo, então, fluiu de mais de 30 mulheres. Todas opinamos, ponderamos e chegamos a um consenso sobre as frases que revelariam a realidade da qual estamos fartas. O passo seguinte foi dividirmos o texto para que cada uma gravasse uma parte em vídeo.

Uma das grandes responsáveis pela concretização da ideia foi a Christiane Mussi, jornalista que trabalha no canal de vídeos do Zico, ídolo máximo do Flamengo. Ela se dispôs a receber cada um dos trechos, editar tudo e finalizar a versão que, agora, tem mais de 7 milhões de visualizações na web.
Quando tudo se encaminhava para um lançamento em 18 de março, a morte de Marielle Franco, vereadora do PSOL no Rio, brecou nosso ânimo. A execução brutal de uma mulher negra eleita democraticamente gerou comoção em todo o país e mexeu muito conosco, que estávamos em plena mobilização pela luta de um direito básico: trabalhar em paz.

O adiamento da postagem do vídeo fez com que outras jornalistas se juntassem à causa. E quanto mais o grupo recebia novas integrantes, mais relatos de abusos eram compartilhados. Até que chegou o domingo do lançamento da campanha. E o dia foi escolhido propositalmente: a grande maioria de nós estaria envolvida na cobertura de jogos pelos Estaduais. O apoio foi instantâneo. Em poucas horas, todos os clubes da Série A do Brasileirão haviam compartilhado a campanha em suas redes sociais. Colegas que não estavam no grupo e se sentiram representadas pela mobilização também amplificaram nossa voz.

No mesmo domingo, porém, a repórter Kelly Costa, da RBSTV, foi insultada por um torcedor do São José, na semifinal contra o Brasil de Pelotas, no Passo D’Areia, em Porto Alegre. O que tinha tudo para ser um balde de água fria em nosso movimento nos deu ainda mais força para denunciar e repudiar aquela cultura a que tanto estávamos habituadas: “Melhor se acostumar: o futebol é assim”.

Fernanda Gentil (TV Globo) também apoia o projeto. Foto: Reprodução/Youtube

Fernanda Gentil (TV Globo) também apoia o projeto. Foto: Reprodução/Youtube

O torcedor foi retirado do estádio – assim como o colorado que me agrediu –, mas quem é alvo de ofensas tem aquela voz ecoando injúrias por muito tempo na cabeça. Vadia. Cadela. Arrombada. Todas nós já fomos dormir com algum desses xingamentos em mente. Mas, desde que o grupo foi criado, temos um canal onde ajudamos a reforçar que não merecemos ouvir injúrias de qualquer ordem nem sofrer qualquer tipo de violência.

Exemplo disso foi o que aconteceu em 1° de abril. Assessora de Comunicação do Operário Ferroviário, do Paraná, Bianca Machado foi incluída no grupo. O motivo: torcedores cantaram, em coro, “Bianca vagabunda” enquanto ela trabalhava. O relato dela é de cortar o coração porque é o retrato do que muitas passamos. Mesmo que tenha ajustado o volume máximo em seus fones de ouvido para evitar que ouvisse o grito das arquibancadas, Bianca escutou tudo. E tenho certeza de que a hostilização também ecoou na cabeça dela por dias.

Agora, nos organizamos para os próximos passos do movimento. Nosso objetivo? Que as mulheres parem de aceitar o discurso a que sempre foram submetidas. E que todos passem a entender. Melhor se acostumar: o futebol não será mais assim.

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