Rodas de tricô e crochê exercitam a criatividade e promovem a troca de experiências entre mulheres

Robinson Estrásulas, Agência RBS
Robinson Estrásulas, Agência RBS

Por Rossana Silva, especial

Quando recebeu o convite para ser madrinha do casamento de uma grande amiga, em dezembro de 2016, Martina Faccioni Fensterseifer logo visualizou um vestido rosa, de tricô ou crochê, feito à mão
especialmente para a data.

A dificuldade de encontrar quem o tecesse, porém, fez a estudante de teatro de 29 anos seguir para o plano B e adquirir uma peça pronta. Mas a frustração despertou a vontade de aprender a usar as agulhas
de tricô, há tempos deixada em segundo plano. Assim, Martina entrou 2017 com a resolução de que aprenderia a técnica para fabricar ela mesma as roupas e os acessórios que desejava usar.

Assim como Martina, centenas de gaúchas de diferentes perfis e idades têm encontrado no tricô e no crochê mais do que uma maneira de entrelaçar fios para criar peças de roupas. Em aulas e rodas de
mulheres que se reúnem para aprender a tricotar e crochetar em diferentes espaços da Capital,
como a Casa Hermosa e a Tricolã, linhas e agulhas se transformam em instrumento de diversão, exercício de criatividade e fortalecimento de vínculos. A possibilidade de aprender uma atividade exercida com maestria pelas avós e deixada de lado ao longo das gerações atrai cada vez mais
interessadas. Tanto que, do ano passado pra cá, a professora Rosane Torok viu a procura
por suas aulas duplicar.

– As pessoas resolveram usar as mãos para exprimir energia e fazer suas próprias peças, ao invés de comprar na loja. Sem falar que a troca humana é grande, muitas amizades começam nas aulas
e seguem vida afora – conta a professora de crochê e tricô na Tricolã e na Casa Hermosa.

Mulheres praticam, aprendem e fazem amigas na Casa Hermosa (Foto: Robinson Estrásulas/Agência RBS)

Mulheres praticam, aprendem e fazem amigas na Casa Hermosa (Foto: Robinson Estrásulas/Agência RBS)

Foi na Tricolã que o encontro de Martina e Rosane, na manhã de uma quinta-feira de março, começou a tornar palpável a resolução de Ano Novo da estudante. Apesar de a professora ensiná-la a dar os
primeiros pontos, não havia jeito de Martina conseguir subir a carreira de uma gola de lã. Ainda assim, se esmerou para dar conta do tema de casa – a parte da frente de um blusão. Ao checar o resultado
do trabalho, na semana seguinte, Rosane viu uma única solução: desmanchar e fazer de novo. A dificuldade inicial a fez aumentar a persistência.

– O blusão era para um adulto e estava do tamanho do de um bebê. E eu tinha me esforçado muito para dar conta de tricotar em uma semana. Fui aprendendo a lidar com as minhas emoções, e encontrei no tricô um amigo, um aliado – conta Martina.

Desde então, a lã e as agulhas estão dentro da bolsa e vão para todos os lugares com ela. A estudante pode ser vista tricotando nos corredores da UFRGS, em intervalos de ensaios e no tempo livre. No inverno, criou blusões, casacos e cachecóis. Como as peças começaram a fazer sucesso entre as amigas, Martina criou a Seis Mãos Mimos para organizar as encomendas. O nome da marca é uma referência à mãe e à irmã, que também são hábeis com os trabalhos manuais. Nem o calor à vista é motivo para deixar as agulhas de lado: Martina prepara o acabamento final em uma echarpe de meia-estação – presente para a sogra –, além de coletes fresquinhos, bolsas de festa e blusas abertas. O grande, objetivo, porém, é começar a tecer seu próprio vestido de noiva.

– Tricô e crochê combinam muito com o verão. O que muda é a linha – afirma ela, que também aprendeu com a mãe os pontos do crochê e está praticando em casa, com a ajuda de livros.

Em outro canto da cidade, dezenas de mulheres entrarão verão adentro com as agulhas de tricô e de crochê em punho. As aulas da Casa Hermosa, na Zona Sul, reú- nem diferentes gerações em torno de trançar a linha com a agulha, dando forma às mais coloridas peças. De pano de fundo, risadas, um café da tarde gostoso e novas afinidades descobertas a cada aula.

Embora cada aluna tenha seu ritmo, o aprendizado costuma ser rápido. Na primeira aula, pode-se aprender o ponto malha – o básico do tricô ou um square no crochê. Em quatro meses de aulas, a aposentada Cinthia Pereira, 61 anos, já manuseia as agulhas de crochê com um talento digno de quem é filha e sobrinha de exímias crocheteiras. Os pufes e tapetes nascidos em suas mãos decoram casas da família e dos amigos. Recentemente, arrematou o último ponto de uma bolsa de mão e já está pensando nas próximas peças, que possivelmente serão um presente para as sobrinhas. Ao buscar uma atividade para manter as mãos ocupadas, Cinthia encontrou no crochê uma maneira de expressar a criatividade e arejar a mente.

Martina Fensterseifer: o plano agora é fazer o próprio vestido de noiva (Foto: Robinson Estrásulas/Agência RBS)

Martina Fensterseifer: o plano agora é fazer o próprio vestido de noiva (Foto: Omar Freitas/Agência RBS)

– Vou inventando, faço tudo da minha cabeça, não sei copiar. Às vezes, saem coisas lindas; outras vezes, algumas que não dá nem pra olhar. Minha mão dói, mas é uma terapia – diverte-se.

Depois de aprender crochê inspirada pela avó, a artesã Kátia Moscone, 39 anos, quis dominar as agulhas maiores. Ela se inscreveu para as aulas com a afilhada Nathálya, 13 anos. E percebeu que o entrosamento e a inspiração são naturais à medida que os novelos vão diminuindo ao lado da roda de 10 mulheres.

– Você vai para mundos distantes quando está fazendo crochê ou tricô. Todas as manualidades levam para caminhos desconhecidos, e as surpresas que vêm para a sua vida são maravilhosas. Você exercita a paciência, o desapego. Eu não tinha muita paciência, então tive de mudar totalmente a minha mentalidade – explica.

Assim como as outras entrevistadas, Kátia também vê como terapia o exercício de, volta e meia, ter de desmanchar uma peça e recomeçar de novo, ponto a ponto.

– São momentos em que estamos mudando conceitos e evoluindo, aprendendo, refazendo, tecendo e deixando a cabeça aberta para coisas novas. E, além de tudo, fazer as coisas para você ou para as pessoas que você ama é libertador – fiz Kátia, que gosta de se definir como bonequeira, crocheteira, confeiteira e entusiasta de manualidades em geral.

Depois de produzir golas no inverno, a artesã tem trabalhado em bolsas de malha com as técnicas do crochê e do tricô. O próximo passo será o lançamento da própria marca, que terá acessórios, peças de roupas e criações variadas como os amigurumis, pequenos bonecos japoneses feitos em crochê e tricô.

– No começo, ficava bem apegada às peças e não queria vender ou passar adiante. Como sou perfeccionista, as manualidades me ajudaram a aprender a hora de finalizar e partir para o próximo projeto, sem ficar presa a uma única coisa – lembra.

ONDE PRATICAR 

CASA HERMOSA
• facebook.com/casahermosanovelaria/
• Aulas regulares e oficinas de cestos, biquínis ou pontos específicos de tricô e crochê.
• R$ 65 a aula avulsa, em média, e R$ 200 o pacote com quatro aulas.

TRICOLÃ
• facebook.com/CrieMaisBrasilTricola/
• Aulas regulares de tricô e crochê semanalmente.
• R$ 40 a aula avulsa e R$ 140 o pacote de quatro aulas.

Foto: Robinson Estrásulas/Agência RBS

Foto: Robinson Estrásulas/Agência RBS

Círculo da sororidade
Por Diana Corso, psicanalista

“De alguma forma, fazer tricô e crochê resgata, não sob a forma de um exílio, o lugar e a cumplicidade das mulheres que teciam juntas, que se organizavam para bordar, tecer ou costurar nas salas de costura, lugar onde elas ficavam quando eram privadas do espaço público. Ali, elas podiam exercer sua cumplicidade. Partilhavam sua intimidade e técnicas tradicionalmente de uso das mulheres na cultura ocidental e em outras nas quais o tecer sempre foi atividade feminina.

Esses lugares costumavam ser espaços de reclusão, prisão e exílio. Quando saímos para a vida pública, deixamos para trás várias coisas que eram importantes, interessantes e bonitas para nós. A primeira é a cumplicidade, a sororidade que está sendo resgatada agora. Há mulheres de todas as idades partilhando os momentos da experiência feminina. Temos muito para contar umas às outras e ainda falamos pouco.

A segunda são os dons que herdamos das mulheres do passado e que nos dão uma história da qual nos orgulhar. Nosso passado não é só de mulheres que não opinavam, não influenciavam, só pariam filhos. Nosso passado é de mulheres que tinham dons, arte. Nessa intimidade compartilhada de tecer, estamos começando a resgatar e transmitir isso uma a outra.

A terceira coisa que essas mulheres estão resgatando é a inteligência motora, de fazer coisas com as mãos e os olhos. A criação artística não acontece só quando fazemos obras de arte, mas quando criamos coisas com as mãos, que caíram em desuso com a sociedade industrial – como se o manual fosse pior do que o mecânico, tivesse menos qualidade.

Nos últimos anos, vimos como os homens tiveram a esperteza de gourmetizar certos dotes que as mulheres sempre exerceram com maestria, mas de maneira socialmente desvalorizada. Agora, elas estão recuperando para si sua tradição de criadoras em territórios tão importantes quanto a alimentação e a produção de tecidos e de vestimentas – coisas que determinam o rumo da nossa vida e da nossa identidade. E o mais importante disso tudo é o círculo da sororidade e o resgate orgulhoso da nossa herança feminina.”

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