Somos todas Madame Bovary. E somos todas a babá de Ben Affleck

É possível que o romance, gênero literário que tomou forma no século 19, tenha sido a representação artística mais contundente do jeito de ser e viver da burguesia – o pessoal que não era nem reles assalariado nem aristocrata, mas desfrutava de conforto e tinha cada vez mais inserção social. É como se fosse a nossa classe média hoje: nem rico, nem político, nem salário mínimo. E se tem uma coisa que combinava com romance lá nos seus começos era um bom adultério. Mas não era qualquer pulada de cerca, não. Os casos extraconjugais retratados pela literatura tinham, sempre, a mulher como protagonista. Ou seja, era sempre ela quem pulava a cerca. E pagava o preço.

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A mais célebre de todas é a adúltera que dá título a este post, Emma Bovary, criação do escritor francês Gustave Flaubert, que escandalizou a Europa em 1857 com a publicação do romance. Casada com um médico medíocre, vivendo no campo e entediada, Emma coleciona amantes e infelicidades. O acerto de contas por seus pecados é o suicídio, que Emma comete ingerindo arsênico. Outra adúltera célebre é Anna Karenina, publicada pelo escritor russo Leon Tolstoi em 1877. Aristocrata e casada com um homem rico, ela apaixona-se por um conde e se entrega aos prazeres do sexo – o que, óbvio, não termina bem. Depois de muita neura e ciúmes, ela atira-se diante de um trem em movimento.

A linda atriz Keira Knightley interpretou Anna Karenina no filme dirigido por Joe Wright

A linda atriz Keira Knightley interpretou Anna Karenina no filme dirigido por Joe Wright

O escritor português Eça de Queirós era especialista em adúlteras. Em 1878 criou Luísa, de O Primo Basílio, que na ausência do marido se refestelou com o primo do título. Ela se apaixonou e ele só queria curtir. Resultado: o primo caiu fora, o marido voltou e ela morreu. Dez anos depois, o escritor forjou sua adúltera mais notável, Maria Monforte, de Os Maias. O adultério dela foi o responsável pela tragédia que acometeu a família Maia, em especial seus dois filhos, Carlos Eduardo e Maria Eduarda, que tiveram uma relação incestuosa por desconhecerem seu parentesco. O fim dela? Bem, depois de saber que arruinou o destino dos filhos, exilou-se na Ilha da Madeira, onde morreu de tuberculose.

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Mas o que temos nós, hoje, com as adúlteras e os romances do século 19? Naquele tempo, o romance era uma espécie de reverberação do pensamento comum da sociedade – como são hoje, para nós, as novelas e as séries, por exemplo. Dessa forma, os escritores utilizavam suas obras para revelar e criticar aspectos da vida social. É sintomático, portanto, que eles transformassem em protagonistas as mulheres adúlteras – e as castigassem sem piedade. Não havia homens adúlteros naquela época? Havia, e muito, aos montes. Mas somente as escapadas femininas viraram literatura. Em uma sociedade machista e paternalista, mulheres não poderiam manifestar seus desejos a ponto de ter um amante.

A babá da discórdia, que nos lembra de que, pra muita coisa, ainda estamos no século 19

A babá da discórdia, que nos lembra de que, pra muita coisa, ainda estamos no século 19

A mais recente polêmica envolvendo celebridades nos leva de volta, de certa maneira, aos romances de adúlteras do século 19. Só que ao contrário. Se você entrou no Facebook, Whatsapp ou ligou a televisão já sabe que o ator americano Ben Affleck separou-se da mulher, Jeniffer Garner, depois de dez anos de casamento, supostamente depois do envolvimento com uma babá gostosona. Tom Brady, o marido de Gisele Bündchen, também teria feito a festa com a guria e agora estaria em maus lençóis com a nossa über. Até aí, tudo bem. O problema são os comentários, piadinhas e afins: “quem é a mulher que contrata uma babá daquelas?” ou “com uma babá dessas, não há casamento que resista”. Ou ainda, a pior de todas: “a babá gostosa destruidora de lares”.

No jatinho, ela usou os anéis de Tom Brady. Oh!

No jatinho, ela usou os anéis de Tom Brady. Oh!

Precisamente neste ponto a gente volta ao machismo do século 19. As mulheres continuam sendo responsabilizadas por tudo o que envolve sexo, decoro e comportamento socialmente aceitável. Ela deveria ter recusado o Ben Affleck e o Tom Brady? Deveria se colocar no seu lugar e guardar a cabrita dela, por que os bodes deles estavam à solta? Ou, por outro ponto de vista, as esposas dos dois jamais deveriam ter contratado uma guria bonita e sarada para trabalhar em casa? Elas deveriam saber que babá tem que ser feia e idosa, tipo a Mrs. Doubtfire, de Robin Williams, caso contrário os bonitões estão autorizados a chafurdar?

Olha a babá perfeita aí, gente!

Olha a babá perfeita aí, gente!

Diante de tudo isso, é necessário fazer uma reflexão que, por certo, não ocorreu aos escritores do século 19, mas que nós temos o dever de fazer. O compromisso com as esposas e com as famílias era do Affleck, do Brady e de todos os outros maridos adúlteros (se é que eles pegaram a guria mesmo). A babá ou qualquer outra mulher que se envolva com um homem casado não disse diante de um padre, um pastor ou um juiz que seria fiel. Por isso, não chame nem esta nem nenhuma outra de piranha antes de lembrar que quem se comprometeu não foi ela. Não queremos aqui bradar em favor do adultério. Nem contra. Bradamos para que cada um arque com as consequências das suas escolhas – neste caso, os homens que optam conscientemente pela infidelidade.
No passado, as adúlteras pagaram o pato por uma sociedade machista e desajustada. Não por serem adúlteras, mas por serem mulheres, condição que anulava suas vontades, necessidades e anseios. Hoje, olhamos para a babá da mesma forma, como se ela não tivesse direito de escolher e como se a responsabilidade de preservar famílias fosse dela. O que faremos mais? Vamos dar arsênico para a babá comer? Ou atirá-la diante de um trem? Assim os adúlteros poderão voltar para a casa e ter um final feliz.

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