Sua renda é maior do que a dele? Conheça histórias de casais que lidam com esta situação no dia a dia

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Stefanie Cirne, especial

Pergunte a 10 mulheres o que elas gostariam de conquistar no mercado de trabalho, e você certamente vai ouvir: “Ganhar tanto quanto os colegas homens”. E as que conseguem driblar esse gap salarial enfrentam, muitas vezes, um outro dilema: nem todo mundo se sente confortável quando a mulher tem o salário mais alto do casal. O consultor financeiro Rogério Olegário, diretor executivo da Libratta Finanças Pessoais, relata já ter atendido mulheres que escondiam a própria renda do marido em nome do bem-estar da relação:

– Como o dinheiro é uma ferramenta de troca na nossa sociedade, quanto mais você ganha, mais poderoso você é. Ganhando menos do que a parceira, o homem pode realmente se sentir diminuído, por não ser o “machão” que faz e acontece – analisa.

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Mas, mesmo quando marido e mulher não têm problema algum quanto a quem deles ganha mais ou menos, podem não escapar da cobrança alheia. Francesa radicada em Florianópolis, a diretora do Programa Springboard Brasil de Liderança Feminina Corinne Giely-Eloi, 46 anos, lembra de uma situação enfrentada no início da carreira. Aos 24 anos, ela já comandava uma equipe de 12 pessoas em uma multinacional em Londres voltada à pesquisa de mercado. Como ganhava mais do que o marido, o gaúcho Leandro Eloi, quando tiveram o primeiro filho, na França, decidiram que ele ficaria em casa com a criança enquanto ela retomaria o trabalho e garantiria a renda do casal.

– Daí começaram os julgamentos, as críticas… Na época, há 15 anos, não tinha muitos homens donos de casa, não – relembra Corinne. – Minha mãe, os tios e tias achavam nossa situação bem estranha.

Como se ascender na carreira já não fosse difícil o bastante, há que lidar com o preconceito baseado em estereótipos de gênero. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) divulgada pelo IBGE em 2015, quatro em cada 10 lares no Brasil já são chefiados por mulheres – mas, apesar disso, o homem ainda é enquadrado como o provedor por excelência, personificando valores como sucesso e competitividade. A pressão social que vincula masculinidade, trabalho e sucesso contribui para que os homens se mantenham afastados do espaço doméstico e do envolvimento com os filhos – ou seja, para que não ocupem o lar como as mulheres vêm ocupando o mercado de trabalho.

– Nunca tive qualquer problema com a minha esposa por causa disso, mas, quando você é homem e não trabalha fora, todos os dias encara alguém perguntando o porquê da sua situação – conta o escritor e palestrante Claudio Henrique dos Santos, autor do livro Macho do Século XXI e coautor do livro Mulheres modernas, dilemas modernos.

A rotina de Santos mudou radicalmente quando, em 2010, o jornalista – gerente-geral de comunicação da Renault até o ano anterior – decidiu largar tudo para acompanhar a esposa, Daniele Raugi dos Santos, que recebera um convite para trabalhar em Singapura. Chegando lá, Santos não obteve um visto de trabalho e, de repente, teve de aprender a cuidar da casa e da filha Luiza, então com três anos.

Seja por acaso, seja por decisão consciente, ter um parceiro que desacelere a carreira em prol do relacionamento é um elemento-chave para o sucesso de muitas mulheres: em 2012, sete das 18 maiores executivas no ranking anual da revista Fortune tinham ou tiveram em algum momento um “dono de casa” ao seu lado.

– Geralmente, a mulher que tem um salário alto é uma pessoa que têm muitas responsabilidades e pouco tempo para a família e para a sua vida pessoal – observa a palestrante e educadora financeira Odete Reis.
Nestas condições, a ascensão feminina na carreira traz aos homens a chance de explorar o papel de cuidador e desenvolver uma relação diferente com o dinheiro. Ao invés de tomar o sucesso da parceira como uma falha pessoal, eles podem encará-lo como algo que soma para o casal e estará a serviço da felicidade dos dois.
– Quando o casal olha para uma mesma direção, não se preocupa se o dinheiro veio do bolso de um ou de outro, mas comemora que algum objetivo em comum será alcançado – diz a jornalista e palestrante Joyce Moysés, coautora do livro Mulheres modernas, dilemas modernos.

As próprias mulheres, no entanto, precisam cooperar para essa mudança de perspectiva. Em uma pesquisa feita em 2012 pelo Data Popular e o Instituto SOS Corpo, 54% das casadas acreditava que o papel do homem era gerar renda para a família – mostrando que, entre elas, ainda é forte a noção de que o parceiro é o grande responsável pelo sustento do lar.

– Muitas já me disseram querer um homem que apoie a carreira delas, mas que não fique dentro de casa, como se isso fosse não fazer nada – comenta Santos. – Se for para apoiar a esposa, cuidar da casa, dos filhos, por que não?

Em um mundo hiperconectado, ficar em casa também não exclui a possibilidade de ganhar dinheiro: Santos, Corinne e seus parceiros encontraram no home office uma alternativa para manterem-se ativos e facilitar a logística familiar. Com a mobilidade dos papéis de gênero, o contrato de relacionamento acaba se pautando em um acordo mais horizontal, onde o cuidado e a parceria guiam as atividades e a participação financeira do casal.

– Essa coisa de “quem manda na casa” acabou – diz Corinne. – Hoje, cada membro da família tem o dever de se responsabilizar, se empoderar e dar apoio aos outros.

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Sucesso que soma
Veja dicas para evitar que seu salário seja motivo de tensão no relacionamento:

• Coloque (cedo) as cartas na mesa. Embora as finanças não sejam um assunto romântico, discuti-las desde o início do relacionamento evita apertos e estresse no futuro. Conhecendo a renda e os planos profissionais de cada um, o casal pode avaliar sua compatibilidade e organizar as contas, a rotina e os projetos em comum.

• Você merece! Um salário elevado é fruto de um esforço tão grande quanto. Orgulhe-se do seu sucesso e não tenha medo de constranger o parceiro.
– Ele deve valorizar essa remuneração, e não tomá-la como um demérito, porque afinal, a mulher batalhou para chegar lá – comenta Joyce Moysés, coautora do livro Mulheres modernas, dilemas modernos.

• Lembre-se: o dinheiro não tem gênero. A contribuição financeira (e mesmo a responsabilidade pelo sustento do lar) devem ser determinadas com base na renda e nas oportunidades de cada um.
– O casal inteligente hoje é aquele que analisa quem tem mais chances de crescer e se dispõe a apoiar esse crescimento – afirma Joyce.

• Estimulem a carreira um do outro. A parceria entre o casal serve também para que ambos cresçam juntos e inspirem-se a alcançar seus objetivos.
– A mulher pode incentivar o parceiro a explorar seu potencial também, e não deixar que a diferença salarial seja o pivô do distanciamento entre eles – diz a palestrante e educadora financeira Odete Reis.

• Não alimente a competição. Um relacionamento deve ser uma parceria, não uma disputa entre o casal. Foque no que sua renda (ou a soma da renda dos dois) pode proporcionar a vocês, evitando comparações, cobranças e carteiraços.
– No casamento, nós fazemos planos em comum, e um estar melhor do que o outro significa que os dois vão estar bem – opina Claudio Henrique Santos, também coautor de Mulheres modernas, dilemas modernos.

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