Torcedoras compartilham histórias de machismo em estádios

Foto: :Diego Vara/Agência RBS
Foto: :Diego Vara/Agência RBS

Casos de machismo dentro dos estádios não são novidade. Mas neste domingo, 11, após relatos de jornalistas e torcedoras durante o clássico entre Grêmio e Internacional, em Porto Alegre, várias mulheres começaram a falar sobre episódios que viveram em estádios.

“Uma vez estava na saída do Beira Rio e três rapazes ficaram trancando minha passagem e comentando minha legging. Ainda bem que uns rapazes perceberam e me levaram embora até duas quadras antes da minha casa. Fiquei com medo, mas não deixei de ir em estádio sozinha”

Alícia Pilotti Nunes Muniz, 22 anos, estudante

“Eu tenho o costume de ir para a Arena. As vezes acompanhada, as vezes sozinha. Fora do estádio já aconteceu de ser assediada, mas só quando eu não estava acompanhada por nenhum homem (como se não estar acompanhada de um homem fosse aval para alguma coisa). Dentro, nunca tive problemas, pelo contrário, sempre fui muito respeitada, apesar das pessoas ainda se chocarem com o fato de eu estar lá sozinha”

Gabriela Carminatti, 28 anos, publicitária

Episódios no GreNal

A jornalista Renata de Medeiros, da Rádio Gaúcha, foi atacada por um torcedor colorado enquanto trabalhava na cobertura do jogo. A repórter foi xingada e, após filmar o torcedor enquanto pedia para ele repetir o que havia dito, o homem a agrediu. Renata compartilhou no Twitter o vídeo e diversos comentários em apoio a ela surgiram.

Outro episódio deste domingo foi vivido pela também jornalista Kelly Matos, da Rádio Gaúcha. Enquanto se dirigia até o Beira Rio, foi assediada por homens que passavam em um carro por ela. Em um texto no Instagram, Kelly contou sobre o episódio em que os homens a ofenderam e também sobre ter encontrado uma mulher naquele momento para irem juntas até o estádio.

– Não vai ter volta amigos, nós estaremos no estádio, no campo e onde mais a vida oportunizar. LUGAR DE MULHER É ONDE ELA QUISER.

Era por volta de duas e meia da tarde e eu estava vindo para o estádio que considero a minha casa. Sozinha. Porque moro perto e porque gosto de caminhar na minha cidade. Um domingo lindo de sol. E de GreNal. Segurei a camisa do meu time na mão, mas não escondi. Pensei que já estivéssemos preparados para a civilidade. Eis que dois homens param o carro, encostam do lado e começam a gritar. Ofendem. Falam o que querem e eu fico sozinha, só olhando. Fico quieta, sem dizer uma palavra. Minha vontade era gritar. Mas não falei nada. Gostosa é o adjetivo publicável. Respirei fundo. E engoli seco. Na semana do Dia Internacional da Mulher. Baixei a cabeça e pensei: se ficarem na ofensa só, estou no lucro. Que força eu teria contra dois homens que insistem em ofender uma mulher que vai ao estádio de futebol. Me deu vontade de chorar. Tava com o coração acelerado quando ouvi uma voz do outro lado da rua. Era uma mulher. UFA, eu pensei. Só quem é mulher sabe o alívio que é olhar pra trás e ver que tem outra mulher na rua. Ela me disse: “não vai pelo Marinha”, tem muitos por lá. Eu perguntei: vou por onde? Ela disse: vem comigo, estou indo para o Beira-Rio também. Senti um misto de alívio e de novo vontade de chorar. Droga. Não é possível que em 2018 isso ainda aconteça. Para acalmar meu coração a Janaina contou a história dela. Mora ali a uma quadra da minha casa. É da FORÇA FEMININA COLORADA, uma torcida de mulheres, que incentiva outras mulheres a virem pro estádio e a torcerem para o seu clube do coração. Essa semana, a FFC lançou a campanha: TORCE QUE NEM MULHER. E eu tenho muito orgulho de torcer como uma mulher. Cheguei no estádio, junto com a Janaina, agradeci de coração, e fui a convite da TV Inter falar da minha experiência como torcedora colorada. A Jessica e o Castiel me presentearam com uma faixa que eu resolvi postar aqui e em especial aos caras que fizeram a grosseria comigo (e sabe-se Deus com quantas outras): não vai ter volta amigos, nós estaremos no estádio, no campo e onde mais a vida oportunizar. LUGAR DE MULHER É ONDE ELA QUISER.

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A mulher que Kelly encontrou durante o percurso foi Janaína da torcida Força Feminina Colorada, que incentiva outras mulheres a virem pro estádio e responsável pela nova campanha do Internacional: “Torce que nem mulher“. A campanha é exatamente para combater, de acordo com a nota oficial da torcida organizada, reforçar a presença feminina neste meio ainda tão machista.

TORCER QUE NEM MULHER NÃO É FÁCIL Nota oficial da Força Feminina Colorada Ontem, muitas de nós tivemos medo. Muitas que nem são da FFC, mas que também são mulheres e defendem o legítimo direito de exercer o seu amor pelo time do coração. Na semana passada, lançamos a campanha “Torce que nem mulher” justamente para reforçar a nossa presença neste meio ainda tão machista e misógino. Muitas pessoas gostam de dizer que a representação feminina no futebol já é algo consolidado. Não é. Prova disto são as agressões e ofensas já divulgadas e tantas outras que nem chegaram ao nosso conhecimento ainda. É, no mínimo, lamentável todas as situações ocorridas no dia de ontem. Mas, ao contrário do que muitos querem, não vamos recuar. E tomamos a liberdade de dizer isto em nome de todas as mulheres que fazem parte deste universo, independente da cor da sua camisa. Queremos, portanto, que vocês, nós,  todas, tomemos os nossos lugares. Que mostremos a força que tem a mulher no futebol. Que façamos todo mundo entender que torcer, jogar, apitar, cobrir partida, ser dirigente ou ocupar cargos de poder nos clubes que nem mulher não é algo fácil, mas a nossa história mostra que juntas seremos sempre mais fortes! Avancemos!

Uma publicação compartilhada por Força Feminina Colorada (@ffemininacolorada) em

Ainda no domingo, a jornalista Juliana Palma compartilhou também no Instagram durante o Gre-Nal o momento em que outro torcedor colorado faz gestos obscenos em direção a mulheres. Nas imagem, o homem aparece mexendo as mãos em direção a boca e na região genital. De acordo com Juliana, o torcedor se dirigia a um grupo de mulheres que estavam acompanhando o jogo de um camarote do time rival.

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