Vagina sem neura: fisioterapeuta pélvica ajuda mulheres a entenderem melhor o próprio corpo

Foto: Mateus Bruxel/Agência RBS
Foto: Mateus Bruxel/Agência RBS

Camila Kosachenco

Sem meias palavras e nem tabus, a fisioterapeuta pélvica Ana Cristina Gehring, 30 anos, trata de um assunto de total interesse das mulheres, mas que nem sempre é falado por vergonha: a vagina. Criadora do perfil no Instagram @vaginasemneura, a guria de Nova Prata acumula mais de 140 mil seguidores – 90% mulheres, ela garante – cujo interesse é conhecer mais o próprio corpo e tirar dúvidas sobre temas como sexualidade e prazer.

Formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Ana sabia desde o início da jornada acadêmica que penderia para os lados dos estudos da região pélvica.

– Sempre gostei muito de sexualidade. Minha avó e bisavó eram parteiras. Estava no sangue – justifica a jovem, criada no interior.

Logo depois da formatura, ela cruzou o globo e aterrissou na Nova Zelândia, onde ficou um ano aprimorando seus conhecimentos na área. Anos mais tarde, a workaholic assumida criou o perfil na rede social para dar segmento ao trabalho que construía. De férias, em fevereiro de 2016, Ana criou o @vaginasemneura. Ainda sem associar o perfil ao seu nome, fez as primeiras postagens.

– Era meio anônimo porque havia muito tabu em relação a vagina – recorda.

Foto: Mateus Bruxel/Agência RBS

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Porém, o anonimato não durou muito. Com o sucesso da conta no Instagram, Ana se encorajou para assinar os posts. O único receio, no entanto, era em relação ao público masculino, que poderia interpretar de forma equivocada o trabalho da fisioterapeuta.

– Não sabia se eles iriam respeitar minha imagem ou ficariam mandando nudes. No começo, tive problemas. Foi difícil, mas daí colocava tudo nos Stories e eles pararam. Faz um ano e meio que não tenho problemas com isso – afirma.

Contando com o apoio da família e dos amigos, hoje, os únicos perrengues estão relacionados aos temas mais polêmicos, como aborto. Nesses casos, ela se dá ao luxo de evitar a leitura dos comentários.
– Não posso me estressar por isso. Eu coloco a informação e cada um tira o que é bom e o que é ruim para si.

Com uma média de 8 milhões de visualizações por semana no Instagram, ela chega a receber mais de 300 mensagens por dia com dúvidas e questionamentos – inclusive fotos de vagina. Sem conseguir responder a todos diretamente, Ana aproveita os Stories da ferramenta para ajudar nas questões mais frequentes – que vão desde dores na relação até falta de orgasmo em relações com anos de duração.

Para além do mundo digital, Ana mantém um consultório na Capital, onde atende majoritariamente meninas de 20 a 25 anos que procuram seu trabalho para tratar problemas relacionados a dores na hora do sexo. Fora da internet, também desenvolveu, em parceria com a marca A Sós, uma linha de produtos sensuais como dilatadores vaginais e sabonetes íntimos.

Foto: Mateus Bruxel/Agência RBS

Foto: Mateus Bruxel/Agência RBS

Veja o que Ana fala sobre determinados temas:

Flatos vaginais

“Muita mulher fica encanada dizendo: ‘minha vagina está fazendo barulho’. Hoje, já se sabe que o ocasiona isso é a fraqueza do assoalho pélvico. Para tratar esse problema, o mais indicado é procurar um fisioterapeuta pélvico”.

Baixa lubrificação

“Pouca lubrificação também está relacionada com a musculatura do assoalho pélvico. Falo que é melhor usar lubrificante do que não usar, por que pode fissurar e doer. Assim, cada vez mais baixa a libido”.

Masturbação

“Tem mulheres que nunca tiveram um orgasmo. Falo da importância de se tocar e usar um espelho para se conhecer. Algumas não sabem onde fica o clitóris, que é um ponto exclusivo de prazer, que tem 8 mil terminações nervosas. A maioria acaba indo direto para a penetração, achando que isso vai ser suficiente. Tem que incentivar o clitóris e exigir do parceiro mais preliminares.

Orgasmo

“Algumas acham que deve ter o orgasmo simplesmente pela penetração. Esperam que o homem forneça o prazer. Esses dias uma aluna minha da pós-graduação escreveu uma carta dizendo que teve o primeiro orgasmo depois de 18 anos de casada. Alguns relatos dão conta de que elas fingem o orgasmo para o cara ejacular mais rápido porque ‘não está com saco’”.

Dores

“Cerca de 50% das mulheres têm algum tipo de dor. Isso acontece porque elas não conseguem relaxar, se excitar. A musculatura começa a se tensionar. Se tu não tiveres prazer, o que o teu corpo vai ‘pensar’? ‘Vou ter relação só para satisfazer o parceiro’. Quanto menos excitação, mais dor e assim vira uma bola de neve”.

Imagem pessoal

“A imagem pessoal faz toda a diferença. Atendi uma paciente de 40 anos que nunca recebeu sexo oral do marido porque acha que a vagina é escura e os lábios muito grandes. Assim, acaba se privando de ter momentos íntimos e mais prazerosos. O que diferencia um casal de amigos de um marido e uma mulher é a intimidade. Trabalho em parceria com sexólogas e psiquiatras que podem ajudar nessas questões”.

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