Fotógrafo de moda Bill Cunningham recebe tributo em Nova York

Michelle Harper. Foto: Tawni Bannister para The New York Times
Michelle Harper. Foto: Tawni Bannister para The New York Times

Por Ruth La Ferla, The New York Times

Entre os luminares reunidos no Carnegie Hall em 17 de outubro para homenagear a memória de Bill Cunningham, que morreu em 25 de junho, aos 87 anos de idade, estava o ex-prefeito Michael R. Bloomberg. Subindo ao palco, ele disse para as mais de mil pessoas presentes que pouca gente reconhecia mais do que Cunningham “que as melhores passarelas da moda são as ruas de Nova York”.

Elas realmente podem ser vistas dessa maneira, uma observação enfaticamente comprovada pela cena do lado de fora da famosa sala de concertos. Foi lá que dezenas de amigos, fãs e personalidades da cidade se reuniram para reviver lembranças pessoais e prestar homenagem à figura onipresente, toda de azul, que havia capturado o melhor lado deles em fotos.

Linda Fargo Foto: Tawni Bannister para The New York Times

Linda Fargo Foto: Tawni Bannister para The New York Times

Foi um conclave dos eleitos e ungidos por Cunningham graças ao estilo singular e atraente: figuras da sociedade, magnatas da moda, modelos e atores e grupos de quase completos desconhecidos mostravam suas melhores roupas ao entrar no auditório abobadado, transformando o que poderia ter sido uma hora melancólica em um evento social de destaque – do tipo que Cunningham poderia ter apreciado.

“Parece que estou esperando que ele chegue e tire fotos de todo mundo”, disse Lauren Ezersky, jornalista free-lance que já teve um programa na TV a cabo. Vestindo um conjunto de Alexander McQueen em estilo gótico para a ocasião, com seu cabelo branco e longo sobre uma jaqueta de couro preta, ela passava os olhos pela multidão. “Mesmo agora, parece que Bill pode surgir de qualquer lugar. Sinto que ele está aqui para nos fotografar.”

Algumas pessoas estavam mais que prontas para esse momento.

“Procurei algo que representasse o azul de Bill Cunningham”, disse Diana DiMenna, filantropa e produtora de cinema e teatro. Seu vestido Delpozo com o desenho de um espartilho azul artisticamente construído teria agradado o fotógrafo, disse ela. “Ele adorava a arquitetura e a construção de Delpozo. Quando eu usava algo do estilista, Bill muitas vezes dava uma espiada na parte de trás da minha saia para ver como ela havia sido feita.”

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Diana Di Menna. Foto: Tawni Bannister para The New York Times

Jenna Lyons, diretora de criação da J. Crew, se vestiu com uma indiferença calculada, com uma jaqueta de um verde discreto de ótimo caimento e uma saia com várias camadas de tule de Dries Van Noten. E justificou a escolha. “Bill reparou nele. Uma vez me perguntou de quem era a saia.”

Foto: Tawni Bannister para The New York Times

Jenna Lyons. Foto: Tawni Bannister para The New York Times

Nem todo mundo se vestiu deliberadamente com Cunningham em mente. Mesmo assim, Linda Fargo, diretora de moda feminina da Bergdorf Goodman, que usava um vestido transpassado – um exemplar suntuosamente bordado nas costas com uma única palavra, “Beauty” – disse que Bill não saía de sua cabeça. “Ele está sempre presente. Todos os dias me visto na esperança de vê-lo. Estou sempre preparada”, disse ela.

Tavi Gevinson, blogueira e editora de moda que virou atriz (ela está na Broadway em “The Cherry Orchard”), jogou uma jaqueta vermelha sobre uma blusinha branca e calça Prada, adicionando um toque extravagante: um par de brincos chamativo e elaboradamente delicado.

Tavi Genvinson. Foto: Tawni Bannister para The New York Times

Tavi Genvinson. Foto: Tawni Bannister para The New York Times

Como muitos na multidão, ela deixou o preto de lado em favor de algo menos sisudo. “Tentei me vestir para o meu estado de espírito. Talvez isso seja o tipo de coisa que Bill tinha em mente quando fotografava as pessoas na rua.”

De fato, Cunningham fixava rotineiramente sua câmera nos fabulosos excêntricos de Nova York e eles lhe devolviam a honra, desfilando com força total.

Eclipsando Michael Kors, Ralph Lauren e outros estilistas famosos sobriamente vestidos, um Kenny Kenny de peruca chegou, garantindo o espetáculo ousado, com um terno quadriculado roxo e creme da Rochas. Enquanto falava, os olhos brilhavam e as lágrimas ameaçavam borrar o rímel branco.

“Tenho uma certa energia intimidadora, mas Bill viu o que havia além dela”, reconhece ele. Com uma pose meio curvada, acrescentou: “Alguns têm uma aparência externa dura, mas, no fundo, é muito frágil. Bill sabia que a roupa é um modo de expressão.”

Michelle Harper, consultora de marca exoticamente trajada, veio com um vestido em estilo vitoriano, uma jaqueta Roggykei justa que comprou no Japão e um pequeno chapéu angular no cabelo elegantemente penteado. “Me vesti para Bill”, disse ela, ecoando um refrão que acabou soando familiar, “Quero parecer irreverente, ousada, o espírito de todas as coisas que ele amava.”

Tziporah Salamon veio de bicicleta, chegando à cerimônia sobre rodas angustiadas que não perturbaram seus brocados chineses. “Usei essa roupa uma vez para a Semana da Moda e Bill me fotografou”, disse Tziporah, popular musa da cidade. “Ele me perguntava: ‘Você está indo a algum lugar?’ E eu dizia que não tinha ingresso e ele me dava porque sempre tinha alguns extras, dizendo: ‘Pronto, agora tem aonde ir, garota’.”

Entre os inúmeros súditos pouco conhecidos de Cunningham elevados à categoria de semicelebridade, Patrick McDonald, que se descreve como “um dândi de Nova York,”, vestia uma jaqueta com estampa de rabiscos, calça palazzo, um fedora e um lenço azul-royal no bolso.

“Bill sempre me incentivou a seguir o coração, a ser criativo, usar o que sinto. Foi isso que ele me ensinou e é assim que vivo”, disse McDonald.

Jenna Lyons na hora concordou. “A primeira vez que ele repara em você não dá para esquecer.” Sete ou oito anos atrás, conta, saiu com uma calça branca listrada e uma camiseta quando Cunningham a parou bruscamente para fotografá-la. “Fiquei extremamente animada, porque na época eu não era ninguém, e para mim, ele era uma estrela”, recorda-se.

“Mas Bill era assim mesmo. Ele fazia todo mundo se sentir uma estrela.”

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