“Bitch”, novo livro da escritora gaúcha Carol Teixeira, discute o empoderamento feminino com altas doses de erotismo

Foto: Guilherme Festa
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Carol Teixeira é muitas coisas. Escritora, filósofa, DJ e cantora. Também é carioca, gaúcha e paulista, tudo ao mesmo tempo, em sua definição. Seu terceiro livro acaba de ser lançado pela editora Record e tem um título nada discreto, assim como o conteúdo: Bitch conta a história de Princess, uma artista plástica de São Paulo em uma jornada na procura pelo prazer durante uma viagem ao sul da França. A partida é também uma busca por sua arte e sua identidade como mulher. E, no meio do caminho, há muito sexo. Intercalando a narrativa, também somos apresentadas a C., uma escritora que deseja isolamento para criar seu próximo livro.

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Bitch é a estreia de Carol no gênero romance – os livros anteriores, De Abismos e Vertigens (2004) e Verdades & Mentiras (2006), reúnem crônicas e contos. A trama coloca o poder sexual nas mãos das mulheres. São elas as protagonistas, as personagens mais complexas que dominam a narrativa. Além das cenas de sexo, reflexões filosóficas e literárias são uma parte definidora do livro, tornando o erotismo poético e empoderado. Na última semana, a obra entrou no ranking de 10 livros nacionais mais vendidos da Record.

Conversamos com Carol sobre a história, seus personagens e empoderamento.

Foto: Guilherme Festa

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Como surgiu a ideia da história e como foi o processo de desenvolvimento do livro?

Eu queria fazer um livro que perturbasse. Arte, para mim, é deslocamento. O artista precisa deslocar o leitor, tirá-lo de sua zona de conforto. Concordo com o Artaud (Antonin, poeta), que diz que a arte precisa fazer gritar. Quando fechei com a editora Record, eu tinha clara essa intenção e queria fazer um romance com altas doses de erotismo mesmo, do tipo que eu gosto, tipo Bataille, Henry Miller, sem eufemismos. Meu processo é fragmentado. Fiquei meses anotando coisas desconexas que, aos poucos, foram tomando forma. Viajei para escrever longe do caos de São Paulo e, em um ano, tinha o romance pronto. Foi um processo denso, afetou minha vida de forma intensa, me vi até vivendo coisas que as personagens (C., que é meu alter ego, e Princess) viveriam só para entrar mais na psicologia delas. Como Princess, misturo muito vida e arte.

Bitch fala muito sobre sexo, mas também sobre mulheres independentes e fortes. Que relações existem entre estas instâncias? 

Vejo uma relação intensa. Ao longo da história, tentaram nos tirar isso o tempo todo, a posse da nossa exualidade. A sexualidade feminina é poderosa. As sociedades vivem batendo cabeça para lidar com ela, com frequência caem em extremos expondo demais as mulheres – como em nossa sociedade hipersexualizada – ou, como em outros lugares, cobrindo com burcas, mutilando. Tudo isso tem a ver com poder, com a tentativa de domar esse poder arquetípico que é nossa sexualidade em sua essência plena, selvagem. Por isso digo que não adianta uma mulher se dizer feminista, ser independente e pagar suas contas se ela ainda se dobra para preconceitos machistas ou se é complacente com dicotomias do tipo “ou sensual ou inteligente” – como se isso fosse algo que diminuísse seu valor.

Apesar de nos enxergarmos em uma sociedade liberal, ainda existem muitos tabus em relação a falar sobre sexo e se interessar por sexo casual, principalmente no caso das mulheres. Qual a importância de ser aberta sobre o assunto?

O principal tabu é o prazer feminino. Acho que todos já lidam melhor com o sexo casual, a questão agora é o prazer: ela faz sexo casual, ok, mas ela sente prazer, consegue dizer para o cara o que ela gosta ou ainda reproduz esse comportamento que nos ensinaram, de só agradar o homem, fingir orgasmo etc? O prazer feminino sempre esteve em segundo plano, está na hora de colocar em primeiro. Sinto que hoje se fala muito de sexo, mas toda discussão acaba enveredando para uma problematização das questões. Esses dias participei de um debate sobre sexo e, de novo, a coisa foi tomando esse rumo. Parei e disse: “Quem sabe a gente fala de prazer, do que nos excita, de como podemos gozar melhor?” Entende? Falta isso. Falta a mulher se conhecer mais, colocar seu prazer em primeiro plano e falar disso. Acho essencial que as mulheres entrem mais no mercado erótico como consumidoras, que leiam mais literatura erótica, que assistam mais vídeos eróticos, que se masturbem mais, que falem mais sobre o prazer.

Foto: Record / Divulgação

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Princess é criada numa família com mãe e avó, mulheres fortes. Como você enxerga essa influência na trajetória da personagem?

Eu também fui criada numa família de mulheres fortes, meu pai morreu muito cedo então cresci nesse ambiente matriarcal fortíssimo liderado pela minha mãe, a mulher mais forte que conheço. Demorei para entender o feminismo porque, para mim, sempre foi evidente a força feminina e o respeito que eu via as mulheres ao meu redor tendo. Eu vivia nessa redoma matriarcal. Isso influencia totalmente minha escrita, e o fato de a Princess ter também essa família feminina pauta completamente a relação que ela trava com o mundo. No caso dela, acho que a influência se dá de forma mais extrema. Fica bem claro isso quando se percebe que a busca de Princess exclui totalmente o Henrique (namorado da protagonista). E os homens que são envolvidos também são coadjuvantes.

Com que características da Princess você se identifica? E com quais gostaria de se identificar?

Me identifico com essa questão familiar que citei e também com essa ânsia pelo novo, pelo que perturba os sentidos que é o que a move o tempo todo na trama. E vejo a Princess como uma apocalíptica dentro dos integrados: ela não é uma outsider, ela tá ali, no meio da ordem, causando ali dentro, sendo um agente provocador. Também sou um pouco assim, sempre fui. E sempre gostei de achar o “ponto de demência” das pessoas.

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Você se descreve como pós-feminista. Pode explicar mais o que isso significa?

Todos os tipos de feminismo concordam nas questões básicas. Se formos considerar a definição da Chimamanda Ngozi, por exemplo, (“Feminista: alguém que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos”), somos todas feministas. O pós feminismo questiona algumas coisas do feminismo apenas, se você for comparar a visão da socióloga Camille Paglia, que é bem pós feminista, com a de uma feminista radical vai ver diferenças, claro, mas a base é a mesma. Acho que toda forma de feminismo é válida e fico feliz de viver em um mundo em que o feminismo seja tão presente nas redes sociais, nas ruas. Adoro ver que ser machista virou algo cafona, que o cara vai ser considerado um loser se ousar fazer piadinha machista no bar. Tenho minha própria maneira de ser feminista e ela se dá menos com discursos e mais com ações. Escrevo sobre sexo, me exponho, fujo dos conceitos e estereótipos e tento encorajar as mulheres a terem a mesma coragem, independente de que área elas atuem.

Ainda existe certa resistência de algumas mulheres com a palavra “feminismo”, mesmo que elas se interessem pelos assuntos tratados. Como é possível ser pós-feminista quando existem mulheres que não se dizem feministas? 

Para ser pós feminista não precisa ter sido feminista. É mais uma visão um pouco diferente, mas no fim o objetivo é o mesmo. Acho que a mulher que tem dificuldade com o feminismo talvez não entenda a abrangência desse termo. Se ela parar para pensar ela vai ver que ela tá de acordo com a luta do feminismo, sim: ou ela quer ainda ganhar menos que o homem? Ela acha ok ter que aguentar homens incomodando ela na rua com cantadas sem respeito? Ela acha tranquilo uma mulher que tem uma vida sexual livre ser chamada de puta enquanto o homem que transa com várias é considerado garanhão? Ela acha normal uma mulher que é estuprada ser frequentemente culpada ou questionada sobre a sua responsabilidade? Duvido que ela esteja de acordo com tudo isso. Ela não precisa estar de acordo com as rad-fems (feministas radicais) para se considerar feminista. Existem várias formas de viver o feminismo, vide Beyoncé e Madonna. (Leia mais sobre este tema na página 10 desta edição).

Foto: Guilherme Festa

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De que formas você acredita que Bitch possa fazer as pessoas refletirem sobre sexualidade e empoderamento?

Duas coisas que tenho ouvido das mulheres que já o leram: a primeira é sobre a excitação que o livro causa. A segunda é sobre a sensação de poder que o romance provoca. Uma amiga me disse: “Acabei o livro achando que eu podia ser tudo, fazer tudo”. Acho que por o livro ser muito erótico e ter mulheres tão livres em relação ao erotismo e com buscas que não tem o amor & romantismo como centro acaba provocando uma sensação nova em quem lê. É essa perturbação positiva que eu falei que queria causar.

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