Claudia Raia conta como a maturidade lhe ensinou a ser mais seletiva e viver intensamente

Claudia Raia  diz que depois dos 50 gasta menos energia com o que não vale a pena.  Até se desfez dos três celulares com que administrava a vida de atriz, produtora, empresária e mãe

Foto: Paschoal Rodriguez, divulgação
Foto: Paschoal Rodriguez, divulgação

Quando a prefeita da fictícia São Dimas se despedir do horário nobre no dia 31 de março, sua intérprete, Claudia Raia, estará dando adeus a uma de suas personagens preferidas. Sim, a experiente atriz com mais de 20 novelas nas costas elege Salete, de A Lei do Amor, como “a paixão do momento”. Isso porque se entrega por inteiro ao que faz – ou vai dizer que a primeira impressão que temos deste mulherão de 1m78cm não é justamente que ela seja uma explosão de energia?

Pois agora que chegou aos 50 anos, comemorados em dezembro, Claudia está se permitindo viver em outra batida, mais leve e menos perfeccionista. Define seu atual momento como “viver em modo econômico”, o que na prática significa direcionar sua energia somente para o que importa. Boa parte dessa mudança se deu nos últimos cinco anos quando encontrou seu parceiro, Jarbas Homem de Mello, que a convenceu, entre entre outras coisas, a abandonar os três celulares que carregava noite e dia.

Tem que guardar energias para coisas mais bacanas – diz.

Claudia usa o telefone que sobrou para o trabalho em muitas frentes – produção de espetáculos, muitas entrevistas e o gerenciamento do e-commerce que leva seu nome –, mas em especial para manter contato frequente com a dupla Enzo, 19 anos, e Sophia, 14, filhos do casamento de 17 anos com o ator Edson Celulari, que terminou em 2010.

Abaixo, selfie com Jarbas Homem de Mello e o “caçulinha” da família

Levando o caculinha p passear!!! #sushi #amor

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Na entrevista a seguir, ela fala de maturidade, carreira e de como é ser mãe de um jovem e de uma adolescente.

E também comenta um episódio traumático que revelou ao público recentemente: aos 13 anos, ela foi vítima de abuso em Nova York, para onde se mudou sozinha para estudar dança graças a uma bolsa de estudos. Um dia, o dono do apartamento onde estava hospedada foi até o quarto onde ela dormia, passou a mão por seu corpo e tentou beijá-la. Claudia apanhou o primeiro objeto que viu pela frente (uma coruja de vidro), quebrou-o na cabeça dele e saiu correndo para não mais voltar.

– Nunca tinha falado nisso porque achei que não interessava, mas neste momento resolvi falar para que as mulheres reajam a qualquer coisa que aconteça com elas.

Abaixo, posando com os filhos, Enzo e Sophia

Amores da vida 👩‍👧‍👦❤️!!

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Qual foi a repercussão da Salete nas ruas?

Salete é uma mulher muito masculinizada, ainda que muito gostosona, mas o jeito dela é muito másculo. Isso é pela própria história dela, no posto de gasolina, um trabalho pesado, mas ela tem muita força e acaba incorporando essa postura. É uma personagem adorável, é de uma doçura e gentileza ímpares. Ela tem valores impressionantes e é de uma integridade impressionante. Os fãs me dizem: “Precisamos de mais Saletes no Brasil”. E realmente precisaríamos de mais Saletes no mundo. Uma microempresária que tenta manter o seu negócio, uma mulher sem histórico político e que vira prefeita.

Após 20 novelas qual o papel inesquecível?

Agora, é a Salete, é a paixão do momento, quando você cria uma personagem e a desenvolve. Então, a cada hora é diferente. Mas fiz personagens maravilhosos, como a Engraçadinha (da série homônima), a Angela de Torre de Babel, a Tancinha de Sassaricando, a Safira de Belíssima, e Ninon, de Roque Santeiro, a primeira personagem de novelas que fiz na vida. É emocionante, era muito novinha, tinha 18 anos (a trama estreou em 1985). Olho de novo aquilo e digo: “Gente, olha o cabelo, a estética da época”, e como eu ainda era imatura profissionalmente, mas isso tudo faz parte.

Você é muito exigente com sua performance?

Sou muito perfeccionista mesmo. Sou uma profissional muito minuciosa. Sou muito dedicada, a primeira a chegar no estúdio, e tenho muito respeito pela minha profissão, pelo meu ofício. Nada pode ficar me esperando, e vou fazer o meu melhor. Lá dentro, tem muito pouco glamour e muito trabalho. Gravo de 10 a 12 horas por dia sem parar e no calor e no sol de 50 graus no Rio de Janeiro.

Abaixo, com as “filhas que a profissão deu”: Maria Flor, Mariana Ximenes

O que mudou com a chegada dos 50 anos?

Não mudou em um clique, de um dia para a noite, eu já estava em um processo. E, agora, com 50, eu brinco que estou no “modo econômico”. Falo menos, me posiciono menos, dou menos atenção a coisas que não precisam receber tanta atenção. Então, o menos não é sem energias ou com menos empenho. O menos é a escolha, algo pontual. Quando a gente é mais jovem, gasta energia com coisas que não servem para nada. E sabe que não vai adiantar. A gente, aos 50 anos, verdadeiramente se convence de que metade daquilo não adianta. Tem que guardar energias para coisas mais bacanas, a gente se resguarda mais. O ser humano fala muito e ouve pouco, isso é um aprendizado. A vida vai te dando esse aprendizado. Estou muito mais plena e estou gostando bastante disso.

O que a Claudia de agora teria a dizer para a Claudia de 20 ou 30 anos?

Calma, tenha calma (risos). Sempre fui muito, mas muito agitada, com mil coisas ao mesmo tempo, e esqueci de aprender a não fazer nada, a deitar no sofá para esvaziar minha cabeça, conseguir verdadeiramente relaxar, curtir cada coisa minha, estando 100% naquele lugar naquele momento. É estar mais inteira em cada lugar que você chega. Diria: “Calma, tem lugar para todo mundo, espaço para todos, ninguém vai tirar o que é seu, o que é seu está escrito”. Cada pessoa tem uma história e é difícil você aconselhar. Até porque tem coisas minhas que não consigo resolver.

Outro dia, estava aconselhando uma das minhas filhas que a profissão me deu, ela tinha brigado com o namorado e tal. Que tal, então, se você falasse metade disso que você quer falar, esses outros 50% não vão adiantar. Se você falar só a metade, resolve o problema e não cria um problema. Esse espernear não vai levar a nada.

Quem são as filhas postiças que a profissão lhe deu?

Tem as da dança, as do teatro, as da televisão. As mais conhecidas são Paolla Oliveira, Fernanda Souza, Mari Ximenes, a Maria Flor (sua filha na ficção, em A Lei do Amor) e o Cauã (Reymond), o único menino (risos). É um grupo que não se desgruda de mim. Sou do tipo melhor amiga e mãe mesmo. É muito bacana, ficou uma amizade para sempre com todas. Fui mãe da Paolla em Belíssima, a primeira novela que ela fez, então ela me chama de “mama”, que é mamãe em grego, outras chamam de “mamly”.

Foto: Paschoal Rodriguez, divulgação

Foto: Paschoal Rodriguez, divulgação

Como é sua rotina atual com seus filhos?

É uma delícia. Por um lado, a gente sente que passou mesmo rápido, mas é também muito gostoso quando eles crescem. Viram grandes companheiros, saio para jantar com eles, vamos ao cinema, ao teatro, vou para alguma balada ou baile com o Enzo, ele me acompanha mais, a Sophia ainda é pequena. Quer dizer, pequena não (risos).

Na prática, como você exerce a maternidade?

O menino é muito mais simples, é mais focado. A mulher é muito complexa, a figura feminina é cheia de questões, quer saber tudo, é muito rico o mundo da mulher, muito efusivo e, assim, muito complexo. O homem é bem mais simplista, mais fácil de lidar. E é bem diferente quando estão na adolescência. Em casa, todo mundo ajuda no que pode. Tudo bem que eles passam muito tempo fora de casa e a gente tem a sorte de ter alguém nos ajudando aqui e ali. Não sou dona de casa, não tenho tempo para isso, mas, quando estou em casa, eu sou e estou ali. E também pelo telefone, muito, o tempo todo se falando. E a gente cozinha junto, adoramos fazer comida, temos uma cozinha gourmet para chamar os amigos. Comemos bem e de forma saudável, comida boa, lá em casa nunca teve isso de comida de criança ou de adulto. É comida boa. Meus filhos comem salada desde um ano e meio. E assim vão aprendendo.

Como é ser mãe de uma adolescente?

Isso ainda é puxado. O Enzo já é um homem (faz 20 anos em abril), mas a casa gira em torno do que eu faço. Mas, sim, tenho uma adolescente em casa, tenho que estar de olho em tudo, onde foi e com quem foi, começa uma função que não termina nunca, 24 horas é pouco. É o tempo todo o desafio: ser adolescente é desafiar a mãe e o pai, querer passar do limite, criar sua independência. Aí começa isso de “pode ou não pode”. Sei tudo da minha filha, todos os passos dela. Estou no Projac gravando, mas estou em cima. É trabalhoso, mas é maravilhoso.

Você recentemente contou em entrevista à revista JP que sofreu uma tentativa de estupro quando morava no exterior. Foi difícil falar sobre isso?

Nunca tinha falado porque achei que não interessava, e neste momento resolvi falar às mulheres, para que as mulheres tenham que reagir a qualquer coisa que aconteça com elas. Queria falar de como eu reagi sem ninguém me ensinar, aquilo não era muito comum naquela época. Acho bom que eu possa dizer isso neste momento, pois as pessoas têm os artistas como exemplo, então é importante dizer que aos 13 anos, em 1980, em Nova York, sozinha, eu agi daquela maneira. Foi muito duro, muito difícil.

No Altas Horas, em dezembro, você brincou que sua meta de ano-novo era “comer menos e dançar mais”. Está cumprindo?

É um fato: conforme vai aumentando a idade, você tem que fazer mais atividade e tem que comer menos, mesmo. Seu metabolismo está a 50% com 50 anos. Vai desacelerando, nada (no seu corpo) vai ocorrer por milagre. Eu amo comer, mas você vai colocando foco em outra coisa, aprende a ter prazer com aquele pouco. Acostuma o estômago a comer menos. Seu organismo é muito massacrado quando você come muito. Fica muito tempo ruminando aquilo, o sangue fica todo focado na sua digestão, é tanta coisa para triturar e fazer virar tudo o que tem que virar (risos). Muita água, que é o que interessa, e disciplina. Levo minha marmita, um lanche ou dois, almoço, frutinha. Isso é uma coisa minha desde sempre, passava o dia na academia. Meu “pé na jaca” é um risoto, sou louca por arroz. Mas é um carbo que não é bom, é amido.

Você se cuida mais por saúde ou por estética?

Principalmente saúde, mas claro que sou atriz e vivo da minha imagem. Porém sou de uma família de diabéticos e de obesos. Não posso nem olhar para o lado, tenho que traçar uma linha e ir. Minha sorte é que não gosto de doce. E fiquei 40 anos sem beber nada de álcool. Foi o Jarbas, um gaúcho, que botou no meu caminho (risos). Foi, assim, uma coisa mais para eu relaxar. Eu não gostava do gosto da bebida, nunca conseguia apreciar, por exemplo, um menu degustação. Isso era chato, pois tudo é feito para harmonizar com uma comida. Agora, tem um pouco mais de graça, entra o vinho, tem outro clima.

Você vem bastante ao sul para acompanhar o marido?

Sim, a gente vai muito, a família dele toda mora aí. Ele tem uma irmã e três irmãos, é de Lomba Grande (zona rural de Novo Hamburgo), perto de Porto Alegre, e saiu daí com 24 anos – hoje tem 47. Mas ele é muito gaúcho, de temperamento, de jeito… Menina, quando junta toda a família é um gauchês que não entendo uma palavra (risos). Amo o sotaque, já amava o povo do Sul porque já fiz muito teatro aí, sempre trabalhei aí, e agora com ele tenho oportunidade de ir mais vezes.

Foto: Paschoal Rodriguez, divulgação

Foto: Paschoal Rodriguez, divulgação

Como é trabalhar ao lado de Jarbas?

Jarbas é um grande cantor de musicais, ator, bailarino e tudo mais. Fazer uma parceira com ele é uma alegria. É um profissional com quem eu gostaria de trabalhar de qualquer jeito. Brinco dizendo que ele é um sonho de empregado, pois produzo as coisas e os espetáculos que faço, e o Jarbas trabalha como ator nas minhas produções. Tem muita disciplina, é gentil, é na dele.

Sua veia empreendedora também é forte. Você consegue se dedicar à loja virtual que leva seu nome?

Eu me envolvo muito, é o Enzo que cuida junto a uma equipe muito bacana. Eles tocam para mim a empresa com os produtos que levam minha assinatura. São pessoas nas quais confio completamente, e o Enzo é um estudante de Administração fazendo uma faculdade de vida, cuida dos meus negócios e faz isso com muito empenho. Tem muita coisa no e-commerce: minha linha de suplementos, whey só para mulher, acelerador de metabolismo… Tudo voltado para mulheres, lingerie, sutiãs, semijoias, meus perfumes, jeans, uma coleção enorme. Vem muito mais coisa por aí. O que posso adiantar é uma nova tecnologia que levanta barriga e bunda, é uma loucura. Vai vir uma linha de fitness também, o Amir Slama vai assinar uma comigo.

Como é a sua relação com a moda?

Amo achar referências, me inspira, me dá prazer – a moda reflete um pouco o que o mundo está vivendo. Estou sempre muito ligada no que os estilistas estão fazendo. Eu sou uma mulher sexy, ousada e chique. Gosto de roupa ousada, seguro a onda de uma roupa com uma textura, tenho um corpo fácil de ser vestido, por ser alta, gosto de um decote, uma perna, um ombro… O corpo da mulher tem que ser enaltecido, e não escondido, inclusive o de uma mulher que saia dos padrões – e isso de padrão é muito chato, aliás. A gente vive da nossa imagem, as outras pessoas, não – e que então se sintam bem, sem abdômen tanquinho, pelo amor de Deus. Toda mulher tem algo bonito para mostrar, seja mais gordinha ou baixinha. Tem que procurar o que cai bem. Essa é a grande inteligência da mulher, não ficar refém da moda. Se algo não fica bom em você, não use. A mulher tem que perceber o corpo dela e ir ajustando. Isso você vai adquirindo na vida.

E você não está incrível a vida inteira. Uma hora esconde mais, outra hora mostra mais. Tudo depende. Roupa certa é aquela certa pra você. Só de uma coisa não abro mão: salto alto, que amo, muda o andar da mulher, colocando-a no pedestal que ela merece.

As favoritas

Claudia Raia destaca as personagens que marcaram sua carreira, a começar pela batalhadora dona do posto de gasolina no ar em  “A Lei do  Amor”: o público pede mais Saletes no Brasil

9c

Ninon (à direita), de “Roque Santeiro” (1985): “É emocionante, eu era muito novinha, tinha 18 anos”

9d

Inesquecível como a Tancinha, de “Sassaricando” (1987), papel que foi reeditado por uma de suas “filhas da profissão”, Mariana Ximenes

9e

Ela foi a protagonista da minissérie “Engraçadinha” (1995), uma das personagens marcantes da obra de Nelson Rodrigues

4

Como Safira, em “Belíssima” (2005) e Marcella Rica

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