Como os elefantes se tornaram a mais recente causa das celebridades

(Jin Len/The New York Times)
(Jin Len/The New York Times)

Alex Williams, The New York Times

A atriz Elizabeth Hurley viajou de Londres para Nairóbi, há algumas semanas, para testemunhar o governo queniano queimar 105 toneladas de marfim caçado ilegalmente, dizendo que “se sentiu enojada ao ver as piras enormes”.

Lupita Nyong’o, atriz vencedora do Oscar, posou com um bebê elefante resgatado da armadilha de um caçador, dizendo a seus 2,6 milhões de seguidores do Instagram: “Trinta e três mil elefantes são mortos todos os anos para que algumas pessoas possam usar e exibir bijuterias. Podemos fazer algo melhor”.

Susan Sarandon angariou milhares de dólares em benefício da causa dos elefantes em Londres no ano passado. “A crise que os elefantes enfrentam é particularmente trágica”, disse ela recentemente.

E acrescentou: “Eles são absolutamente extraordinários, com sua inteligência e complexidade emocional, a profundidade de seus laços sociais matriarcais e suas figuras majestosas”.

Ao que parece, hoje, para cada elefante morto por caçadores ilegais, uma celebridade se une à luta para salvá-los.

#SaveTheElephants se tornou um grito de guerra entre essa classe, uma questão “aos moldes de Hollywood” que conta com uma vítima amada, vilões ameaçadores (gangsteres, senhores da guerra) e um drama inegável (se continuarem as taxas atuais de caça ilegal, as populações de elefantes selvagens podem desaparecer em alguns países africanos, dizem os conservacionistas).

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Não é de se admirar que a preservação dos paquidermes, como a floresta tropical na década de 90, se tornou uma questão que atrai celebridades, unindo estrelas da telona (Arnold Schwarzenegger, Edward Norton) e da telinha (Ian Somerhalder de “The Vampire Diaries”), para não mencionar astros dos esportes (Yao Ming, Andy Murray), estilistas (Tommy Hilfiger, Diane von Furstenberg) e a realeza (o Duque e a Duquesa de Cambridge, Príncipe William e Kate Middleton).

A cause célebre, em outras palavras, é agora uma celebridade em si.

— Estrelas são ímãs e atraem outras estrelas. Rapidamente o mundo das celebridades aderiu à cruzada para salvar elefantes em todo o mundo. É a causa ‘sexy’ do momento — disse Laura Fredricks, consultora de filantropia e professora da Universidade de Nova York.

Não dá para negar que há muito em jogo. Desde 2013, a população de elefantes na África despencou para cerca de 400 mil, de acordo com o site de preservação elephantdatabase.org, número que, em 1979, era de 1,3 milhões, devido à grande demanda por marfim, particularmente na Ásia, onde é um símbolo de status para a classe média em expansão.

(Os Estados Unidos continuam a ser os líderes de mercado. Apesar da antiga proibição da importação comercial, os subsídios para o marfim legal – como o de antiguidades – criam brechas para o ilegal entrar no mercado, dizem ativistas.)

A crise da caça ilegal se assemelha a uma guerra. Com o quilo de marfim custando mais de US$2 mil, de acordo com o grupo de conservação Save the Elephants, os caçadores ilegais (frequentemente utilizados por organizações criminosas e às vezes armados com fuzis, óculos de visão noturna e helicópteros) abatem dezenas de milhares de elefantes por ano, ameaçando colocar o maior mamífero do mundo terrestre no mesmo caminho de seu ancestral, o mamute.

— O que vejo agora é muita revolta. As pessoas estão realmente com medo de que esta seja a geração que verá a extinção dos elefantes na natureza — disse Andrew Harmon, porta-voz da WildAid, grupo de conservação global baseado em San Francisco.

Dada a situação, os ambientalistas aceitaram bem a divulgação de sua mensagem feita pelas celebridades, disse Misty Herrin, porta-voz da Nature Conservancy.

Na verdade, uma foto que Leonardo DiCaprio postou no Instagram, dois meses atrás, na qual posou com dois elefantes ameaçados de Sumatra, na Indonésia, teve quase 500 mil curtidas. (Em 2013, DiCaprio liderou um abaixo-assinado que conseguiu 1,6 milhão de assinaturas e que foi entregue ao primeiro-ministro da Tailândia em apoio a uma proposta de proibição do comércio de marfim, disse um porta-voz do World Wildlife Fund).

As redes sociais desempenharam um grande papel na divulgação da questão, com mais de cem mil usuários seguindo os passos de Lupita Nyong’o, Yoko Ono e outras celebridades que se uniram à campanha #JoinTheHerd da WildAid. No mesmo espírito do popular filtro do arco-íris do Facebook que mostra o apoio ao casamento homossexual, os usuários podem usar fotos montadas – metade seu rosto, metade a cara de um elefante – em seu perfil.

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Muitas celebridades fazem mais do que apenas postar uma imagem bonita e uma citação.

No verão passado, Jared Leto, embaixador do World Wildlife Fund, foi um dos autores de um editorial na revista Time exigindo que os Estados Unidos fizessem mais para impedir o massacre.

— Nossos esforços coletivos não alcançam a escala e a velocidade da calamidade que estamos vendo — disse ele.

Vários destaques de Hollywood também usam sua câmera pela causa, fazendo documentários sobre a situação dos elefantes: Kathryn Bigelow, diretora vencedora do Oscar (o curta-metragem “Last Days”); Kristin Davis de “Sex and the City” (que produziu e financiou “Gardeners of Eden”); Paul Allen, cofundador da Microsoft e produtor de Hollywood. (Ele produziu “Naledi: A Baby Elephant’s Tale”, que estreia em junho no Festival Internacional de Cinema de Seattle.)

A atuação das celebridades garantiu outra arma crucial para os ambientalistas: dinheiro.

Mesmo que as associações filantrópicas não controlem doações feitas especificamente para a causa do elefante, a captação de recursos para a vida selvagem em geral (incluindo outros animais sabidamente ameaçados, como tigres e rinocerontes), parecem estar em ascensão, de acordo com a Giving USA Foundation.

Em 2014, as doações para causas ambientais e animais subiram para US$ 10,5 bilhões, um aumento de 43 por cento desde 2009.

(Divulgação)

(Divulgação)

No nível mais básico, uma campanha em redes sociais liderada por celebridades, como o #JoinTheHerd, pode convencer as massas a sacar o cartão de crédito, disse Harmon da WildAid. Segundo ele, desde que a campanha começou em fevereiro, a organização viu o número de pequenos doadores de sua causa dos elefantes aumentar 94 por cento.

Celebridades também convencem outras celebridades a abrirem suas carteiras.

No final do ano passado, por exemplo, Owen Wilson comandou o Leilão Elephants Forever na Sotheby’s, que ofereceu obras de Tom Sachs e Rob Pruitt, entre outros, e atraiu gente como Susan Sarandon e Waris Ahluwalia, ator e designer de joias, angariando mais de US$ 1 milhão para o Elephant Family, que beneficia elefantes asiáticos e para o Space for Giants.

— Pode soar piegas, mas há uma espécie de sabedoria nos elefantes — disse Wilson, de acordo com a revista InStyle.

O Elephant Family vai fazer novas incursões no mundo da arte em meados deste ano, montando a Elephant Parade em Hamptons – uma mostra de arte ao ar livre com o paquiderme como tema, com trabalhos de David Yarrow, David LaChapelle e outros.

A indústria da moda também está envolvida. Dois anos atrás, durante a Semana de Moda MADE, a Fundação Clinton liderou a instalação de um elefante rosa de 3 metros de altura, feito pelo artista Tristin Lowe, no Milk Studios, para divulgar a campanha #SaveElephants. (O conceito supostamente surgiu de conversas entre Chelsea Clinton, Diane Von Furstenberg e Oscar de la Renta, todos defensores dos elefantes).


Certamente, será preciso mais do que leilões de arte e desfiles de moda para superar essa crise global. Como o comércio de drogas, o comércio ilegal de marfim envolve vastas organizações criminosas e inúmeros funcionários de governos corruptos, disse Trevor Neilson, presidente do Grupo de Filantropia Global, em Los Angeles.

— Se quiser entender o problema, tem que falar com antigos oficiais da CIA que estão em contato com a inteligência do Quênia, que pode dizer quem é corrupto no porto de Mombaça — disse Neilson.

— Por outro lado, quando um astro da TV, bem intencionado, tuíta em Los Angeles ‘salve os elefantes’, é quase certo afirmar que isso não causa impacto nenhum —  disse ele.

Mesmo assim, há razões para ter esperança, dizem os conservacionistas. Em uma visita aos Estados Unidos em setembro, o presidente Xi Jinping da China prometeu promulgar um proibição “quase total” da exportação e importação de marfim.

Nos Estados Unidos, quatro estados, incluindo Califórnia e Nova York, impuseram restrições ao marfim, e outros logo podem se unir a eles. (Citando “uma crueldade terrível”, Meryl Streep juntou-se à luta da Humane Society em seu estado de Nova Jersey. Woody Harrelson disse a representantes no Havaí que “o mundo está de olho”.)

O presidente Barack Obama pediu uma interdição quase total do comércio de marfim nos Estados Unidos e os grupos de preservação esperam que a lei comece a vigorar em meados deste ano.

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