Conheça a médica gaúcha Debora Duro, que revolucionou o mundo de crianças com perda intestinal

Você conhece alguém que já mudou o mundo? Não precisa ter mudado o mundo todo, mas que tenha feito ao menos uma coisa que tornasse o mundo de alguém diferente, melhor? Quem já cruzou pelo caminho com a médica gaúcha Debora Duro pode dizer que sim, que conhece uma mulher que já mudou muitos mundos. Com o conhecimento que desenvolveu durante os anos em que trabalhou em hospitais americanos, revolucionou o tratamento de crianças com intestino curto uma técnica que ela mesma está implantando, com sucesso, na Santa Casa, em Porto Alegre. E, com a clínica que abriu em Miami, está ajudando crianças e jovens americanos a terem uma relação mais saudável e terapêutica com a alimentação.

Hoje, doutora Deb, como é chamada pelos pacientes e suas famílias, muda mundos por onde passa. Quando começou a fazer especialização em gastroenterologia pediátrica no Boston Children’s Hospital, o hospital-escola da Faculdade de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos, já havia estudos que mostravam os baixos índices de eficiência no tratamento da síndrome do intestino curto – um mal que atinge bebês prematuros ou crianças com problemas congênitos que resultam na perda de boa parte do tecido intestinal. O ano era 2004. O tratamento mais comum, o transplante, oferecia no prognóstico mais otimista uma sobrevida média de 60%, com expedientes sofridos para o pequeno paciente e para a família. As mortes semanas ou meses depois da cirurgia eram frequentes.

Em um dos consultórios do iCan, a clínica que abriu em Miami, Débora cuida de uma pequena paciente

Em um dos consultórios do iCan, a clínica que abriu em Miami, Débora cuida de uma pequena paciente

Com seu grupo de pesquisa, Debora desenvolveu um protocolo multidisciplinar de reabilitação intestinal que dispensa o transplante na maior parte dos casos. Funciona (mais ou menos) assim: em vez de substituir o intestino curto por um novo – normalmente, os transplantes são feitos a partir de doadores vivos compatíveis, dos quais se extrai parte do tecido para implantar no receptor -, a reabilitação atua no sentido de recuperar aquela pequena extensão do órgão que restou. Uma equipe de médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, psicólogos, nutricionistas e até assistentes sociais cumpre uma série de papeis para que a criança consiga se desenvolver e recuperar uma vida quase normal. Por vida quase normal entenda-se alimentação por via oral e cada vez menos necessidade de nutrição por via parenteral, que é o que ocorre normalmente em crianças com o intestino curto. Com o tempo, este tipo de nutrição pode danificar órgãos como o fígado, comprometendo a expectativa de vida dos pacientes.

– Os resultados são incríveis, temos índices de 90% de sobrevida – celebra Debora.

Inovador até mesmo nos Estados Unidos, o protocolo multidisciplinar para o tratamento da síndrome chegou ao Brasil há cerca de dois anos, pelas mãos de Debora, em parceria com a empresa de consultoria médica TX, que atua no Complexo Hospitalar Santo Antônio, ligado à Santa Casa. A equipe coordenada aqui por ela e pela médica Cristina Targa comemora. Já há pacientes gaúchos passando pela reabilitação intestinal, com resultados animadores:

– Desde 2012, fico duas semanas por ano em Porto Alegre, treinando as equipes de enfermagem e nutrição, discutindo casos com cirurgiões, enfim, implementando todas as etapas do protocolo de tratamento. Aos poucos, estamos integrando a forma de atendimento que é praticada em Boston e Miami na Santa Casa. Tenho certeza de que vamos reduzir as mortes de crianças por intestino curto. Isso já é uma realidade aqui.

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Mudar o mundo das crianças e das famílias que sofrem com o problema não pareceu suficiente para Debora. Foi pensando em transformar ainda mais universos que ela inaugurou, em 2012, o Institute for Children’s Advanced Nutrition – Instituto para Nutrição Avançada de Crianças, cuja sigla em inglês é iCan. O efeito de linguagem provocado pelas letras que compoem a sigla, aliás, é bastante pertinente. I can, que em inglês significa “eu posso”, “eu consigo”, traduz um pouco da filosofia que ela instaurou na clínica: tratamento multidisciplinar e personalizado para todos os tipos de doenças do aparelho digestivo.

– No iCan vejo pacientes com vários problemas gastroenterológicos, desde dor abdominal, vômito crônico e diarreia até casos mais complexos, como doença de Crohn, colite intestinal, alergias alimentares e doenças do fígado. E também vejo os meus intestinos curtos e crianças com falência intestinal, claro – revela.

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A clínica privada que segue o conceito de medical boutique fica em Miami, cidade pela qual Debora se apaixonou depois de deixar Boston. No iCan, o estilo multidisciplinar norteia o atendimento aos pacientes, compreendendo seus problemas em todos os aspectos, humanizando o tratamento e obtendo resultados mais positivos. Como atende pelos principais seguros médicos dos Estados Unidos, tornou-se conhecida em todo o país pelos resultados que vem obtendo.

– Fui convidada para levar, em 2015, o iCan para dentro de um hospital em Miami e começar lá um programa completo de gastroenterologia pediátrica, com serviço ambulatorial e de internação. Assim será possível ampliar ainda mais o trabalho de reabilitação intestinal em crianças e tratar os distúrbios alimentares e gastroenterológicos de modo inovador – comemora.

Debpra durante seção de fotos para a reportagem de Donna

Debora durante seção de fotos para a reportagem de Donna

Ao chegar à redação de Donna, em uma ensolarada tarde de agosto, Debora tinha horas contadas para conversar com a reportagem. Depois de alguns dias trabalhando na Santa Casa e vendo pacientes, ela finalmente faria uma visita rápida à família, que a aguardava em São Jerônimo. A repórter, que pouco entendia do ofício de sua entrevistada antes do início da conversa, precisava respirar para conter as lágrimas ao fim dos primeiros 10 minutos de papo. Ao revelar seu lindo trabalho de pesquisa e inovação no tratamento de crianças com intestino curto, Debora trazia de volta emoções adormecidas no coração de sua interlocutora, que há cerca de sete anos assistiu à doença e à morte de um menino querido justamente em função deste mal. Conto a ela o caso, relembro detalhes, sou inundada pela emoção de rememorar dias tristes na companhia de uma amiga de infância, que viu seu pequeno sucumbir em menos de três meses. E doutora Debora me garante que, de hoje em diante, haverá finais alternativos, felizes para histórias assim. Ela estava justamente trabalhando para isso algumas horas antes da entrevista, em uma sala do Hospital Santo Antônio, na Santa Casa. E a emoção triste de minutos atrás tornou-se a mais parcial felicidade, por saber que Debora vai mudar mundos por aqui também.

Uma cidadã do mundo

Mundo nunca foi um conceito assustador para Debora. Nascida em São Jerônimo e filha de pai farmacêutico e mãe psicóloga, a guria cresceu entre pacientes, consultas, medicamentos e visitas ao hospital. Aos 14 anos, partiu para um ano de internato no Colégio Sinodal, em São Leopoldo. No ano seguinte mudou-se para Porto Alegre, para estudar no Rosário e se preparar rumo ao vestibular de Medicina, já o seu sonho na época. A reprovação na primeira tentativa a levou para um intercâmbio em Paris, a fim de estudar francês. De volta, em 1990, foi aprovada na Universidade Católica de Pelotas. Em 1991, transferiu-se para a PUCRS, onde completou sua formação e, mesmo antes de se formar, fez os primeiros contatos para um estágio voluntário com pesquisadores do Hospital Infantil da Universidade de Miami. Ali começou a sua história com a nutrição e a gastroenterologia pediátrica. Com grandes mentores americanos cursou o Mestrado em Nutrição, na Universidade da Flórida. Ligada à mesma instituição, fez os testes para validar o diploma nos Estados Unidos e começou a residência médica em Gastroenterologia Pediátrica. Em 2004, em função dos bons resultados obtidos até então na residência, foi aceita como pesquisadora e membro do corpo docente dos cinco principais hospitais americanos. Escolheu tocar sua pesquisa na Boston Medical School, ligada à Universidade de Harvard, concluindo ali a especialização em Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica. Foi a primeira brasileira a integrar essa área na universidade.

Em 2006, na Escola de Medicina de Harvard

Em 2006, na Escola de Medicina de Harvard

Ao deixar Boston, em 2010, foi convidada para integrar o corpo docente da escola de Medicina da Universidade de Miami. Ali, criou e dirigiu o Programa Avançado de Reabilitação Intestinal. Foi o primeiro programa na Flórida a tratar crianças com falência intestinal de forma multidisciplinar. Em 2012, Debora passou a integrar também o time de professores da Universidade de Chapel Hill, na Carolina do Norte, e da Universidade Internacional da Flórida.

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Até hoje, a gaúcha faz parte do corpo docente dessas universidades, além de atuar como professora convidada em Harvard. Aos 43 anos, coleciona títulos e qualificações, mas isso, segundo ela, não é fruto de uma genialidade superior: é somente senso de oportunidade e um profundo amor pela profissão.

debora

Medicina como Missão

Grandes médicos e pesquisadores fizeram parte da história profissional de Debora. Mas a maior inspiração vem da avó Ceci, já falecida, que fazia aniversário no mesmo dia que ela e a ensinou a acreditar e a estar aberta para as energias que a vida conduz.

– Ela morreu em 1998, mas ainda sinto a presença dela comigo. Ela me ajuda a compreender que minha missão nesta vida é ser médica. Tudo o que acontece no entorno disso é uma espécie de bônus. Mas minha verdadeira missão é a medicina. Por isso dou o melhor de mim – explica.

Em São Jerônimo, Debora não dispensa um bom mate.

Em São Jerônimo, Debora não dispensa um bom mate.

A missão à qual Debora dedica-se com tanto afinco levou-a para longe de São Jerônimo e da família. A saudade, segundo ela, é imensa, mas a missão está em primeiro lugar. Por uma mistura de escolha e oportunidade, preferiu radicar-se em Miami, onde fundou sua clínica. Lá, além de praticar a medicina, pode ter um estilo de vida que a agrada bastante. Levanta cedo, entre 6h30min e 7h, e pratica exercícios cinco dias por semana: pilates, aeróbico e atividades com personal trainer. Depois de uma xícara de café com leite, vai para a clínica ou para o hospital, onde passa o dia às voltas com aulas, pesquisas e pacientes. Depois das 18h, encerra o expediente com uma caminhada em Miami Beach.

– E durmo cedo sempre que posso. Acho que esse é um dos segredos. Vou para a cama antes das 21h.

Apaixonada pela profissão, é difícil fazer Debora mudar de assunto. Volta e meia o papo volta a girar em torno dos intestinos curtos, da nutrição, das crianças. Talvez por isso tenha optado por ser solteira, ainda. Mas uma família está nos seus planos, sem data marcada:

– Quero adotar filhos. Mas não sei quando.

Culinária, vinhos e pedaladas são temas capazes de desviar a atenção da médica em uma conversa informal. Ama cozinhar, já fez cursos na prestigiada escola francesa Le Cordon Bleu – e até nisso vê uma relação com o trabalho que tanto ama.

– Acho que sou uma espécie de chef, né? Pois penso nos alimentos o tempo todo para preparar os programas nutricionais das crianças – sorri.

Os vinhos, outra preferência, não têm relação com a nutrição infantil. Mas eles merecem uma concessão e boa parte do tempo livre da médica. Afinal, quem resiste a um cabernet de Napa Valley, um de seus locais favoritos nos Estados Unidos? Se a visita ao paraíso for feita de bicicleta, melhor ainda.

– O vinho é uma daquelas coisas que nos conecta com o mundo, com as energias. Acho que é por isso que curto tanto conhecer as vinícolas, ver como são feitos. E depois prová-los, é claro.

Debora em visita a uma de suas vinícolas favoritas, no Napa Valley, nos Estados Unidos.

Debora em visita a uma de suas vinícolas favoritas, no Napa Valley, nos Estados Unidos.

Este mundo, somente este, Debora não quer mudar.

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