Costanza Pascolato fala sobre o sucesso das blogueiras, o poder do Instagram e os atuais desfiles da Chanel

Não há um único iniciado na moda brasileira que não saiba quem é Costanza Pascolato. Aliás, é Costanza e não Constanza, ok? Não que ela se importe com esse deslize. Aos inacreditáveis 75 anos, segue como um dos nomes influentes e respeitáveis deste universo circulando pelas principais semanas de moda do mundo e mais ativa do que nunca. Nascida na Itália, desembarcou de navio no Brasil ainda criança junto com os pais Gabriella e Michele Pascolato. Em São Paulo, o casal fundou a Tecelagem Santaconstancia, até hoje administrada pelo clã.

Em sua deliciosa biografia há passagens divertidas como os castigos que ganhava no colégio Dante Alighieri por mudar o uniforme. Achava que ele não ficava bem e subia a barra da saia, usava o casaquinho ao contrário para esconder os botões dourados e inventava novos nós para a gravata. Na festa de 15 anos, ostentou um Dior no encontro com as debutantes.

Depois de temporadas mundo afora e dois casamentos, incluindo um tempo como moradora do Copacabana Palace — estava apenas aguardando a reforma de sua casa no Leblon —, Costanza estreou como produtora de moda na Editora Abril. Por lá, ficou duas décadas. Foi aí que firmou o nome entre as grandes estrelas do jornalismo de moda no país.

— Não fui bem recebida, eles achavam que eu era uma dondoca deslumbrada. Naquela época não era editora de moda, era produtora mesmo. E hoje, vejo que elas têm vários assistentes — relembra.

Na editora paulista comandou, entre outras publicações, a Claudia e a Claudia Moda, este último um título que pode ser considerado o precursor das revistas do gênero no Brasil. Quando saiu, assumiu uma coluna na Folha de S. Paulo, assim como na Vogue Brasil, onde mantém seu espaço há 23 anos — na edição de outubro, por exemplo, trouxe uma definitiva avaliação sobre a tendência normcore. Na vida pessoal, em 1995 iniciou o romance com aquele que seria o mais famoso dos parceiros, o produtor musical e multimídia Nelson Motta, descobridor de Daniela Mercury e Marisa Monte.

Ainda nos anos 1990, Costanza se estabelece como referência de estilo, lançando o livro O Essencial, um best seller com dicas diversas para viver de maneira mais agradável. Várias reedições, além de outras obras com a mesma linha, surgiram nas livrarias desde então. Assinou também uma bem-sucedida linha de joias para a H.Stern.

Em busca de renovação, ela garante que é a curiosidade a mola propulsora, a jornalista não vive sem seus telefones e o iPad. Em parceria com a Shop2Gether, uma plataforma online de vendas de marcas premium, criou um site (www.costanzapascolato.com.br) e uma conta no Instagram (@costanzapascolatos2g), com mais de 137 mil seguidores até o fechamento desta edição. Recentemente, aceitou a ideia das amigas Paula Trabulsi e Mônica Waldvogel para o programa Costanza&Marilu, um “sofá chat show” em que ela divide seus pensamentos com a amiga, a artista plástica Marilu Beer, parceira há mais de 50 anos. Na atração, nascida no Youtube e desde o início da semana exibida no canal a cabo Discovery Home & Health, a dupla conversa sobre inúmeros assuntos, sempre com uma língua afiada e um humor memorável.

De passagem por Florianópolis para o lançamento da bolsa Costanza, feita pela Capodarte, ela recebeu a reportagem de Donna para poucos minutos de bate-papo. Uma verdadeira aula. Entre os temas, o sucesso das blogueiras, o poder do Instagram e os atuais desfiles da Chanel.

Jornalismo de moda

A revista de moda mudou muito de personalidade. Quando eu comecei, elas também estavam começando no Brasil. Na própria Abril a Claudia tinha editoriais comprados e eles davam uma ideia para as costureiras. No início dos anos 1970, quando cheguei na Abril ela começou a ser o primeiro catálogo de moda pronta da confecção brasileira. Catálogo por modo de dizer, mas era onde as pessoas viam as roupas. Pra mim, foi interessante porque entendi o mecanismo. A questão que revolucionou a nossa vida foi a internet e a gente ainda nem sabe como vai mudar o panorama de tudo.

Pelo período histórico, me dei conta de que eu tenho vivido a melhor fase de todos os tempos da história, depois da Segunda Guerra até agora, foi um período em que a gente viveu uns 30 anos sossegado com a maior rapidez de desenvolvimento que vimos. A gente fica criticando um monte de coisas porque o ser humano está se adaptando a viver com este tipo de conexão. Já mudou o comportamento. Eu, graças a Deus, trabalho num site, escrevo todo dia, trabalho com uma plataforma digital, que é a Shop2Gether, tenho que entender esse mecanismo. A minha crítica de moda para a revista Vogue, por exemplo, tem que ser muito mais profunda, eu exijo de mim mesma que tenha várias ideias. Sou uma pessoa que tenho esse know how, sou uma das poucas pessoas no país que tem essa experiência e teve a oportunidade de ver tudo e frequentar até hoje. Primeiro com a minha mãe, depois como jornalista. O que acontece? As revistas de moda ganharam muito dinheiro durante 30, 40 anos. Hoje, elas estão à perigo no sentido de que elas têm que se associar, assim como todo o varejo, elas têm que fazer essa transição, mas não sabem ganhar dinheiro como ganhavam.

Nos Estados Unidos, onde a coisa evoluiu, apesar de todas as crises, eles conseguiram se reerguer. Todas as boas jornalistas foram parar em sites de vendas ou grandes blogs que têm este tipo de conexão (comercial). Mas não é como no Brasil com a menininha fazendo o selfie. É uma outra coisa, é como se estes sites fossem revistas virtuais.

Blogueiras

Eu gosto muito delas. Tenho uma posição muito diferente porque quando entrei na Editora Abril os jornalistas de moda me rejeitaram. Eu conto isso inclusive no meu livro. Vieram me falar que era uma vergonha a empresa ter me contratado, que eu era uma dondoca. Eu falei: “olha, o que vocês sabem eu vou aprender, o que eu sei vocês jamais saberão, tchau”. Depois ficamos amigos. Sempre trabalhei pra caramba. Essas meninas foram projetadas em um universo em que a massa feminina precisa de modelos. Elas são as cinderelas do momento. Assim como já foram as misses, depois as supermodels. De repente, a blogueira é mais acessível. Todas elas (as leitoras) acham que podem ser também.

Costanza com Simone Esmanhotto, da Veja Luxo, e as blogueiras Camila Coutinho e Consuelo Blocker, sua filha  Consuelo Blocker,

Instagram

É o seguinte, eu tive um Instagram secreto durante dois anos, ninguém sabia. Só a minha filha Consuelo (Blocker) sabia. Eu sou curiosa. Pra mim, o Instagram é o bastidor das pessoas e elas não sabem, você lê a pessoa por ali. Às vezes, a pessoa quer mostrar uma coisa, mas você lê mais daqueles que não querem mostrar (risos). A maneira de pensar, a inteligência, os complexos que ela têm. O meu perfil se está bom é meu, se está ruim é meu. Eu quero ter a responsabilidade de administrá-lo. No meu Instagram, que é uma bobagem para me divertir, tenho 137 mil seguidores sem fazer alarde. Vejo que tenho até um viciado em crack que me segue.

A colunista de Vogue Brasil também comanda uma plataforma de conteúdo com dicas e loja online

It bolsa

É a primeira vez que me chamam para fazer uma bolsa. Eu adorei a ideia. Eles queriam uma bolsa que fosse, sei lá, uma it. Acho que me chamaram pelo tempo de serviço que eu tenho (risos). A Capodarte foi muito carinhosa, meio explicando que eu já era um personagem e que queriam que aquele produto tivesse todas as minhas maneira de pensar. No fundo, a bolsa é um símbolo. Você lê uma pessoa, não com a bolsa da moda, claro, mas com aquilo que tem dentro, o acolchoado, o iPad que eu não vivo sem, os telefones. Ela é funcional, mas não é só isso, é um universo que tem ali.

A consultora lançou uma bolsa em parceria com a Capodarte

Estilo

A gente se monta talvez para se sentir mais segura. E quando você acerta uma fórmula se sente confortável. Não é uma roupa que você põe todo dia para tirar uma foto e aparecer na internet. É um negócio que você desenvolveu em cima da personalidade. Exige um certo tempo, você não pode ser muito jovem e ter estilo, você vai descobrindo. Esse conjunto de pequenas coisas que te faz confortável traz autoestima porque te dá uma segurança. Eu, com 75 anos, montei um totem de mim mesma. Eu sei que o cabelo caiu, que a ruga já chegou, que os óculos bem ou mal preciso deles para enxergar, mas também para me esconder um pouco porque estou exausta, durmo mal, estou sempre viajando, o olho borra, a juventude não está mais ali. É uma maneira de existir de uma certa forma. Eu tenho facilidade para o que é estético e me armo disso, além de procurar manter a cabeça informada.

Dicas de moda e estilo transformaram o livro O Essencial em best seller

Curiosidade

É fundamental. Eu preciso saber porque as coisas acontecem. A moda, pra mim, nada mais é do que a tradução de comportamento de uma época histórica. Eu contextualizo na história e é isso que me faz mais informada do que os outros (risos).

Sofá

Foi a Paula Trabulsi (uma das sócias da Bossa Nova Films) quem inventou essa história (dos vídeos no Youtube). A Marilu (Beer) e eu, no ano passado, tivemos câncer, ela com quimioterapia e eu na rádio. Uma chateação não poder viajar, oito meses sem se mexer. A Paula tinha visto que a gente falava estes absurdos. A Mônica (Waldvogel), que também é nossa amiga, inventa o roteiro. Tem um pré-roteiro. Eles vão editando, porque a gente fala qualquer coisa. A gente não tem pudor. Eu fico chateada porque a Marilu rouba as minhas histórias. Ela que não sabia nada (risos). Fico com uma cara meio chateada.

Papisa

Não sei de onde saiu isso. Era uma coisa que se usava mais antigamente, era um termo para definir uma sumidade. Ninguém sabe direito porque me chamam de papisa. O que eu acho mais legal que a minha filha Consuelo, que tem um blog de comportamento, me chama de mamisa. E a mamisa pegou e agora tem uma turma que me chama assim, até acho engraçado e bonitinho. Eu não estou nem aí, mas dou graças a Deus que o pessoal ainda me dá bola (risos). Mas não faço isso para aparecer, nunca foi esse o meu objetivo. Agora que vejo meus colegas tentando aparecer fico olhando e penso: “nossa, eu acho que estava muito mais interessada em acontecer profissionalmente do que me autopromover e, sem querer, meu deu uma notoriedade além do imaginado”.

Chamada de papisa da moda, Costanza Pascolato em editorial de moda para a FFWMAG

Chanel

Olha, eu vi na internet (o desfile-protesto da coleção primavera/verão 2015, apresentado em setembro) mesmo porque tenho que me atualizar. O que o Karl Lagerfeld faz é a imagem de marca, porque a roupa é horrorosa, tudo é feio, é impressionante. Eu nem devia falar isso. Ele tem uma mão muito pesada hoje em dia, ele quer parecer jovem, mas não dá certo. E é ele que faz tudo na Chanel porque na Fendi, por exemplo, tem outras mãos. O que ele faz maravilhosamente bem é inventar essas coisas. Quem colocou o tênis na alta-costura para rejuvenescê-la foi ele, a roupa podia não ser grande coisa, a maquiagem e o cabelo horrorosos, mas a ideia é maravilhosa. Tanto que desencadeou essa onda em reação ao saltão, que é o normcore, que ninguém ainda entende direito.

 

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