Entrevista! Em cartaz nos cinemas com “Deadpool”, a atriz carioca Morena Baccarin celebra o bom momento na carreira

(Theo Wargo/Getty Images/AFP)
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Mariane Morisawa,
de Nova York

A maior parte dos americanos ainda tem problemas ao falar o nome de Morena Baccarin. Mas foi-se o tempo em que a brasileira criada nos Estados Unidos tinha de brigar para ser vista como americana. Nos últimos anos, a carioca de 36 anos emendou papéis em séries como a ficção científica V, o drama Homeland, pelo qual concorreu ao Emmy de coadjuvante, e Gotham, baseada nos personagens da DC Comics, que ainda está no ar.

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No cinema, ela voltou às telas nesta semana em Deadpool, outra adaptação de quadrinhos, da Marvel. E é um filme com apelo mais adulto: nos Estados Unidos, menores de 13 anos só entram acompanhados dos pais.
Na trama que não poupa palavrões e cenas de sexo, Morena interpreta Vanessa, a namorada de Wade (Ryan Reynolds), um homem que descobre estar com câncer e decide enfrentar a batalha sozinho. Depois de se submeter a um experimento científico, ele se torna o (anti-)herói debochado Deadpool. No fundo, no fundo, apesar da violência e dos palavrões, o longa é uma história de amor entre Vanessa e Wade.

Filha do jornalista Fernando Baccarin, que foi transferido pela TV Globo para Nova York quando Morena tinha sete anos, e da atriz Vera Setta, ela decidiu seguir a mesma profissão da mãe quando era adolescente e cursou teatro na prestigiosa Juilliard School. Mãe de Julius, dois anos, com seu ex-marido, o produtor e diretor Austin Chick, e esperando o segundo, do ator Ben McKenzie (o Ryan, de The O.C., que faz Jim Gordon, seu par romântico em Gotham), ela conversou com Donna.

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Donna – Nem sempre nos filmes de super-heróis as personagens femininas são interessantes. E sei que isso é importante para você. Como é sua personagem?

Morena Baccarin – Ela é muito forte. Foi o que me atraiu ao projeto. Wade é engraçado, incrível, a ação é demais, e Vanessa é tão interessante quanto ele. Normalmente, nesse tipo de filme, a mulher é aquela que fica esperando alguém salvá-la. Isso não é divertido. Mas ela consegue ficar no pau a pau com ele. Eles têm um relacionamento ótimo.

Donna – Conseguiu fazer coisas divertidas?

Morena – Sim, fiz algumas cenas de ação, o que foi aterrorizante e divertido ao mesmo tempo. Ryan e eu temos ótimas sequências cômicas juntos, com improviso, mas também momentos íntimos e reais entre os personagens. Eles são muito apaixonados, apaixonam-se muito e rápido. Ambos são meio malucos.

(Kent Smith/Showtime)

(Kent Smith/Showtime)

Donna – Você e Ryan brincaram um pouco em entrevistas sobre as cenas de sexo. Como foi?

Morena – Há uma montagem (em uma cena) de sexo que explica como nos apaixonamos e como é nosso relacionamento ao longo de um ano. Era para ser um pouco engraçado, com figurinos que fazem o público perceber o tempo passando, então Natal, Halloween… Você pode imaginar! Mas é íntimo e mostra os personagens se apaixonando. E o que os dois acham engraçado e erótico. Foi difícil. Acho que tínhamos começado a filmar fazia uma semana. Então foi: “Ok, vamos lá!”. No fim do dia, já não ligávamos mais, era, ok, me beije aqui, toque ali. Foi tudo bem.

Donna – Você não se incomoda com cenas de sexo, então?

Morena – Não é fácil, definitivamente. Mas, quando faz sentido no roteiro, fica menos difícil. Algumas vezes, a cena não tem por que existir. Aí escolho não fazer. Essa personagem é muito sexy e confortável em sua sexualidade.

Donna – Deve ter sido bom finalmente fazer um filme de super-herói cuja censura não é 12 anos.

Morena – Sim! A gente podia falar tantos palavrões começados com “f” quanto quiséssemos. E podíamos ver a bunda do Ryan o tempo todo, o que é a melhor parte (risos)!

Donna – Então quer dizer que ele mostra mais do que você?

Morena – Diria que é a mesma coisa… Olha, na verdade, ele mostra mais, sim!

(Fox/Divulgação) Morena contracena com o marido, Ben McKenzie, na série Gotham

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Donna – Sei que você se considera meio brasileira, meio americana. Então, qual a parte brasileira e qual a parte americana?

Morena – (risos) A parte brasileira é a divertida! Obviamente! É verdade, me sinto dividida ao meio. Eu cresci aqui. Mas toda vez que vou ao Brasil para ver minha família, o que acontece uma vez por ano, sinto que uma parte minha fica faltando quando volto para cá. Existe uma parte divertida da vida, uma maneira como os brasileiros vivem com a qual realmente me conecto. Sinto falta disso. Aqui é muito sobre ambição, fazer o trabalho, ganhar dinheiro. Faça o que tiver de fazer primeiro na vida, depois se divirta. E no Brasil você vai se divertindo pelo caminho.

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Donna – Sua família é formada por jornalistas e atores. Desde sempre quis ser atriz?

Morena – Engraçado, não. Seguia minha mãe e meu tio ao teatro. Mas não achava que era o que ia fazer. Quando fui para o ensino médio aqui, decidi fazer por diversão. E, claro, me senti em casa. Não podia me imaginar fazendo nada mais.

Donna – Que conselhos sua mãe lhe deu quando você decidiu se tornar atriz?

Morena – Ela ficou fora disso, mas me apoiou. Não sei se apoiaria meus filhos a serem atores. É uma vida difícil. Você enfrenta muita rejeição e desemprego. Se tiver muita sorte, vai ter uma carreira. Acho que é normal querer proteger seus filhos da dor da rejeição. Mas minha mãe foi ótima. Quando tinha dúvidas se deveria continuar, ela me apoiava, dizia que as coisas iam mudar.

Donna – Como aprendeu a lidar com a rejeição?

Morena – Você aprende a não deixar te afetar. É duro. Mas aprende a não levar para o pessoal. Claro que às vezes você fica chateada. Como não ficar quando você é demitida de um trabalho ou quando alguém diz que você não é a pessoa certa para o papel porque não é loira, sua bunda é grande ou suas pernas não são finas o bastante? É difícil não levar para o pessoal. No fim, é só a opinião de alguém sobre você, não dá para acreditar em tudo.

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Donna – É mais difícil por ser mulher?

Morena – Sem dúvida! O escrutínio é total, seja sobre seu corpo, sua cabeça ou qualquer coisa que diga. Um cara que se comporta mal é sexy. Uma garota que se comporta mal, ou só se comporta como quer, é vagabunda.

Donna – Tenta criar seu filho um pouco como brasileiro?

Morena – Com certeza! Falo português com ele. Outro dia foi engraçado, porque minha mãe diz o tempo todo “Ai meu Deus do céu!”, em português. E meu pequenininho vira e fala: “Ai meu Deus do céu!”. Ele tem dois anos! Foi a coisa mais fofa. Nós rimos muito, e, claro, ele amou. É bacana ver que ele tem um pouco de brasileiro. Quero que ele vá ao Brasil e seja capaz de se comunicar. E, para uma criança, é muito legal a educação no Brasil. Você está cercado de família, todo feriado é uma pequena festa. Não é tão sério como aqui é às vezes. Nos Estados Unidos, muitas vezes a família é vista como obrigação. E no Brasil você cresce com sua família. É comum morar com os pais até ter filhos. É uma comunidade mais próxima.

Donna – A vida de um ator é meio de cigano, cada vez você está em um lugar. Como você lida com isso?

Morena – Não é fácil. Quando era solteira e não tinha filho, adorava, porque conhecia lugares diferentes, pessoas novas, formava uma família em cada canto. Agora é duro. Porque meu filho adora viajar comigo, fica feliz de estar comigo onde quer que seja. Mas é estressante para mim. Porque preciso pensar em quem vai me ajudar, com quem ele vai brincar, como fazer funcionar. E se tenho de ficar longe dele, é muito, muito difícil. Então imagino que haja menos viagens no meu futuro (risos)!

Donna – Sei que você tem um trabalho de luta pelos direitos das mulheres.

Morena – Foi por acidente. O International Rescue Committee (comitê de resgate internacional) me convidou para um evento para ajudar refugiados. Muitas mulheres que estavam lá falavam sobre as situações difíceis que enfrentaram e como a organização ajudou. Sendo imigrante eu mesma, me identifiquei, apesar de ter sido fácil para mim, porque meu pai foi transferido para os Estados Unidos. Para essas mulheres era questão de sobrevivência. Ver como se tornaram o que queriam foi muito emocionante. É um trabalho muito bonito, de tirar essas mulheres de seus países, trazê-las para cá e ajudá-las no nível mais básico, até a ler os ingredientes de uma embalagem.

Donna – Você é uma imigrante totalmente integrada, mas tem essa coisa latina. Acha que as coisas mudaram para quem é diferente?

Morena – Quando comecei, havia um pouco mais de preconceito. Eles viam meu nome e achavam que eu não podia ser a vizinha, a americana de Wisconsin, porque meu nome era Morena e não Jennifer. Então não conseguia esses papéis. Mas começou a mudar, de repente pessoas de etnias diferentes passaram a ser aceitas em Hollywood. As pessoas ficaram mais interessadas se você tinha uma aparência diferente. E isso combina com o que está acontecendo com o mundo, que se tornou menor.

(Joe Lederer/Divulgação) Morena e Ryan Reynolds vivem cenas quentes em "Deadpool"

(Joe Lederer/Divulgação) Morena e Ryan Reynolds vivem cenas quentes em “Deadpool”

Donna – Você tem uma grande quantidade de fãs, primeiro por causa das séries de ficção científica Firefly e V, depois Homeland e agora o pessoal dos quadrinhos com Gotham e Deadpool. Como lida com a atenção dos fãs?

Morena – É ok. Normalmente, as pessoas são legais, só querem dizer oi. Às vezes não vêm no momento mais propício, como quando estou trocando a fralda do meu filho (risos). Mas aí eu explico a situação.

Donna – E como enfrenta o interesse por sua vida pessoal, já que tem um filho pequeno e um relacionamento com um ator?

Morena – É difícil. O mais duro é perceber que as pessoas acreditam ter direito de dar opinião sobre sua vida. Não é porque sou atriz que necessariamente quero tornar tudo público. Só significa que gosto de atuar.

Donna – Você continua fazendo Gotham até março. Não é difícil, com essa barriguinha?

Morena – Um pouco. Mas vai dar certo. Já fiz uma vez! Há muitos truques, a tecnologia é boa estes
dias (risos)!

Donna – Já pensou que em alguns anos seu filho vai poder ver Deadpool?

Morena – Provavelmente. As pessoas têm me dito isso, mas nunca me passou pela cabeça. Ele é tão pequeno! Quem sabe? De repente, quando ele chegar aos 10, vai ser tudo totalmente diferente, a moda vai ser outra.

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