Em entrevista, Elza Soares fala sobre prazer, violência doméstica e preconceito: “Quando ninguém tinha coragem de assumir sua negritude, eu assumi”

Foto: Steph Munnier, divulgação
Foto: Steph Munnier, divulgação

Ela é dona da voz rouca que atravessa seis décadas entoando um dos ritmos mais repletos de brasilidade, o samba. Nos tempos em que a Bossa Nova era a sensação, recebeu o título de Bossa Negra – apelido dado pelo compositor e produtor musical Ronaldo Bôscoli e que acabou dando nome a um de seus melhores discos. Já teve até seu timbre comparado com o de ninguém menos do que Louis Armstrong. Elza da Conceição Soares virou A Mulher do Fim do Mundo, como canta na faixa-título do premiado álbum que a catapultou novamente ao Olimpo da música brasileira. De onde nunca deveria ter saído.

Desde 2015, Elza vive uma fase de consagração que só havia experimentado no início da carreira, quando explodiu no fim de 1959 com uma versão para Se Acaso Você Chegasse, clássico de Lupicínio Rodrigues. A Mulher do Fim do Mundo fez história e renovou o público da cantora, que agora vem conquistando fãs das novas gerações. Para se ter uma ideia, seu próximo show em Porto Alegre, no dia
19, será na festa de MPB Cadê Tereza?, concorrida atração da Capital que reúne principalmente jovens. Tudo na carona deste disco que transita pelo samba, mas traz também um tempero rock and roll e até influências do rap. Elza canta tanto sobre violência doméstica quanto sobre a história de uma travesti. E, claro, grita contra o racismo.

– Falo do homossexual, do negro, da mulher, de violência, de drogas. Tudo isso tem em A Mulher do Fim do Mundo. Peguei justamente as coisas de que a gente queria falar. É essa que a grande qualidade (do álbum) – explica desde o Rio de Janeiro por telefone, em entrevista à Donna. – Meu trabalho foi feito para isso, para essas bandeiras.

Assista ao clipe de A Mulher do Fim do Mundo

Não à toa, o disco, o primeiro de canções totalmente inéditas de sua carreira, figura entre os 10 melhores lançamentos de 2016, segundo o New York Times, ao lado de artistas como David Bowie e Beyoncé. “Uma devastadora obra-prima da vanguarda pop sobre as partes da vida brasileira que a música popular tenta esconder”, elogiou a publicação. Pouco antes, em novembro passado, o álbum já havia conquistado o Grammy Latino na categoria de melhor álbum de música popular brasileira. Em julho, ela levou o troféu de melhor álbum no Prêmio da Música Brasileira – desta vez por Elza Canta e Chora Lupi. Sem conseguir levantar-se por conta de problemas na coluna, que fazem com que ela precise ficar sentada a maior parte do tempo, a cantora acabou quebrando o protocolo ao receber o prêmio direto na plateia. “Por você, a gente faz um delivery”, brincou a cantora Zélia Duncan, uma das apresentadoras da noite.

Elza vive o reconhecimento de uma carreira sólida construída em meio a uma conturbada história de vida. Nascida em uma favela carioca, aos 13 anos já era mãe. Aos 15, perdeu um filho para a fome. Aos 21, ficou viúva com outros filhos para criar. A violência doméstica que canta em Maria da Vila Matilde, sofreu na pele com homens com que se relacionou. Mas nunca esmoreceu. Em busca de dinheiro para cuidar da família, acabou por se inscrever em um dos concursos da Rádio Tupi, uma das mais famosas à época. Sem cerimônia, apareceu para por lá com roupas humildes vestindo seu corpo com então 38 quilos. Ary Barroso, apresentador do programa, não pensou duas vezes ao perguntar de que planeta a garota esquálida vinha. “Do planeta fome”, respondeu Elza, sem titubear. Os risos que se ouvia da plateia cessaram assim que ela entoou os primeiros versos de Lama, de Paulo Marques e Alice Chaves (“Se o meu passado foi lama, hoje quem me difama viveu na lama também”). Acabou levando o prêmio principal e elogios do compositor de Aquarela do Brasil.

Foto: Patrícia Lino, divulgação

Foto: Patrícia Lino, Divulgação

Foi o pontapé para Elza provar que, na verdade, vinha mesmo era do planeta música. E não parou mais. Com a gravadora Odeon, lançou álbuns como o já citado A Bossa Negra. E por conta da pressão de diretores musicais, nos anos 1960, interpretou a música Eu Sou a Outra, clara alusão a seu tumultuado relacionamento com o jogador de futebol Mané Garrincha, que ainda era casado quando eles se conheceram e se apaixonaram. Era o que faltava para a polêmica. Enfrentando o preconceito e o desafio de conviver com o alcoolismo do companheiro, Elza sofreu a perda do filho Juninho, o Garrinchinha, em um acidente de carro, aos nove anos – três anos depois da morte de Garrincha. Em 2015, perdeu mais um filho: Gilson Soares morreu aos 59, durante as gravações de A Mulher do Fim do Mundo.

Mas nada tirou Elza do palco. É lá que ela mostra sua força aos 80 anos – oficialmente são 80, mas pesquisadores da música afirmam que a cantora teria 87. E, como avisa em seu premiado álbum (“Eu quero cantar até o fim/ Me deixem cantar até o fim), nem pensa em deixar o microfone. E fazendo barulho: assumiu para si dores e amores da mulher, dos negros, dos LGBTs – a quem pretende emprestar sua voz em um novo álbum, esperado para 2018.

– Você sabe: ser mulher é difícil. Negra, ainda muito mais – afirma Elza. – Mas, se você parar porque você é negra e você é mulher, não chega a lugar nenhum.

Foto: André Ávila, Agência RBS

Foto: André Ávila, Agência RBS

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Entrevista: “Nunca baixei a cabeça”

Você sempre foi uma mulher e uma artista na contramão do conservadorismo e um símbolo de força. Como se vê nesse papel?
Eu sou mulher. Costumo ver muito o sofrimento das mulheres, entende? Muitas mulheres ainda sofrem caladas e não têm coragem de denunciar o sofrimento. Ficam caladas. É triste. Então, é maravilhoso quando você vê uma mulher tomando a frente, não aceitando desaforos. Você sabe: ser mulher é difícil. Negra, ainda muito mais. Mas, se você parar porque é negra e é mulher, não chega a lugar nenhum. Você não tem defeito, muito pelo contrário. Tenha orgulho do que você é. Você tem que olhar o que representa. Ver que é igual a todo mundo. Só que você nasceu com uma prioridade: ser aquela mulher que tem coragem de falar, de lutar. E eu vou lutar, meu amor. Com isso você conquista tudo. Você não é melhor nem pior do que ninguém. Simplesmente diferente, só isso.

Você sempre usou sua música para lutar a favor da igualdade. Como é inspirar e ajudar muitas mulheres a saírem de situações de violência, como você canta em Maria da Vila Matilde?
A música está aí, gritando. É uma denúncia. É um grito. É ouvir. Ali está a denúncia e o caminho. Estou à frente, tomando coragem para dizer: “É por aqui o caminho, minha gente”.

É papel do artista levantar essa bandeira de denúncia social, como você faz em Maria da Vila Matilde?
Acho que sim. E acho que todo mundo deveria fazer o mesmo, levantar a bandeira. Embora tenhamos evoluído em muitos sentidos, ainda convivemos com muito radicalismo e preconceito… Muito! O preconceito é visto onde você chega. É aquela coisa escondida, mas que está na cara de todo mundo. Você liga a televisão, está na sua cara, e a gente finge que não está vendo. Eu não, estou vendo tudo. Mas a humanidade finge que não, e a coisa vai passando e continua essa pouca vergonha.

Como você vê o momento atual para a mulher negra?
Eu não falo que o preconceito está aí ainda? Fico muito feliz quando vejo a Taís Araújo, maravilhosa, linda, assumindo a posição dela de mulher negra, de cabeça erguida. Eu não uso o pescoço para enterrar no peito não, uso o pescoço para ser erguido. E a cabeça também. Como mulher negra, tenho que botar o peito para frente. Ver uma mulher como a Taís na televisão é um presente para a mulher negra. Elas precisam olhar neste espelho. Eu sou um espelho imenso.

Foto: Diorgenes Pandini, Agência RBS

Foto: Diorgenes Pandini, Agência RBS

Hoje, temos nomes como a Karol Conka, Tássia Reis, Iza, que falam e cantam sobre o que é ser uma mulher negra. Mas você foi precursora. Como foi abrir esse caminho?
Sensacional. Nunca fui de baixar a cabeça. Não acho nada no chão. Quando quero achar alguma coisa,
olho para cima. Sempre tive coragem de gritar, de lutar. Quando ninguém tinha coragem de falar, eu já falava. Quando ninguém tinha coragem de assumir sua negritude, eu assumi. Foi uma porta aberta para outras negras.

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Para a biografia que está preparando, você deve ter repassado muitos momentos de sua trajetória. Inclusive os desafios que enfrentou em sua vida pessoal, sem nunca ter deixado de cantar.
A música é o combustível da alma. Não adianta você ficar parada, meu amor. A vida continua. O caminho fica aberto. Você não pode parar no tempo. Não pode retroceder. O negócio é você seguir. Levanta a cabeça. Deixa as tuas lágrimas molharem o chão, não tem problema, mas sempre de cabeça erguida. E vai embora. A vida continua, a luta continua. Nunca parei para dizer: “Eu sou uma infeliz”.
Nunca fiz isso na minha vida. Nunca.

O que seus fãs podem esperar do livro?
Vou falar tudo. Esperem que vou falar tudo.

Você enfrentou muito preconceito na época do casamento com Garrincha (quando eles se conheceram ele ainda era casado).
Deus me livre! O machismo continua. Para bater o machismo, é difícil. Mas, se eu fosse parar por causa de machismo, por causa do “não” dos outros, não estaria onde estou hoje. Sofri muito, muito. Mas não parei. Cada pedra que jogavam era uma construção para eu andar mais à frente. Cada pedra que me jogavam era uma pedra que eu guardava para construir meu castelo.

Mesmo com todo o sucesso alcançado com sua música, você chegou a ser conhecida por muitos como a “mulher do Garrincha”. Você se incomodava?
Não me importava, não. Eu sabia que ele é que era o homem da Elza Soares.

Foto: Marcos Hermes, divulgação

Foto: Marcos Hermes, divulgação

Você sempre foi uma artista engajada, que se posiciona. Como percebe o cenário político hoje no Brasil?
Estamos atravessando um momento muito ruim. Mas a voz do povo é a voz de Deus. Eu acredito no povo. O povo não pode se acomodar. Estamos precisando que o povo se anime mais um pouco. Que mostre a força que tem, ou não vamos chegar a lugar nenhum. Agora depende de nós.

O que representa para você ter ultrapassado as seis décadas de carreira? O que a inspira a continuar?
Capricho! E coragem. Isso tudo me inspira muito. Minha família me inspira também. Meus filhos e meus
netos me inspiram muito.

O que podemos esperar do show em Porto Alegre?
Esperem a mulher do fim do mundo. Vou com muita alegria, com muita alma. aguardem, por favor.

 

3 motivos para ouvir Elza Soares

Primeiro álbum de inéditas e mais premiado de Elza, A Mulher do Fim do Mundo é um disco que tem muito a dizer

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1 . Dá força para as vítimas de violência no lar

Em Maria da Vila Matilde, Elza encoraja as mulheres a buscar ajuda contra a violência doméstica. Ensina também a ser forte: “Eu vou ligar pro 180/ Vou entregar teu nome/ E explicar meu endereço /Aqui você não entra mais)”.

2. Diz que o prazer também deve ser delas

Ela também fala sobre o prazer feminino sem meias-palavras na canção Pra Fuder. “Olho pro meu corpo sinto a lava escorrer/ Vejo o próprio fogo não há força pra deter/ (…) Meu temporal me transforma em loba/ Presa você vai gemer”.

3. Dá voz à travesti Benedita

Negro e travesti, a dura história de Benedito – que se revela Benedita – também é cantada por Elza. “Ele que surge naquela esquina/ É bem mais que uma menina/ Benedita é sua alcunha/ E da muda não tem testemunha”.

 

O show

• Elza Soares se apresenta no próximo sábado (dia 19), no Centro de Eventos Casa do Gaúcho (Rua Otávio Francisco Caruso Rocha, 301) em mais uma edição da Cadê Tereza?.

• A festa começa às 22h, e o show, à 1h. Ingressos a partir de R$ 50.

• Informações sobre pontos de venda em bit.ly/showelza

 

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