Entrevista! Adriane Galisteu fala sobre a volta à TV e diz que não tem medo de mudar: “Não fico na zona de conforto”

Foto: Danilo Borges/Globo/Divulgação
Foto: Danilo Borges/Globo/Divulgação

Aos 45 anos, Adriane Galisteu não tem medo de mudar. A começar pelo cabelo. Loira a vida inteira, a atriz tingiu os fios de castanho escuro para interpretar a estilista Zelda na nova novela das sete da TV Globo, O Tempo Não Para. Está irreconhecível, até para o próprio marido.

– Estou tão diferente que nem ele me reconhece mais – diverte-se Adriane, que é casada com o empresário Alexandre Iódice e mãe de Vittorio, de oito anos.

A coragem para se arriscar não é de hoje. Adriane já atuou em teatro, cinema e televisão, é apresentadora de rádio e tem um canal no YouTube, mas lembra bem as críticas que recebeu ao longo da vida. No início da carreira, há quase 25 anos, seu nome era somente associado ao de Ayrton Senna. A então modelo foi a última namorada do piloto, que morreu em 1º de maio de 1994.

– Eu demorei muito para recuperar a minha identidade. Durante muitos anos, fui a namorada do Ayrton, a noiva do Ayrton, mas ninguém falava o meu nome. Na minha vida, eu tive que lutar muito para ter as minhas coisas. Lutar para ter minha grana, lutar para ter meu espaço, lutar para ter meu nome de volta, lutar para provar que sou boa.

Foto: Raquel Cunha/Globo/Divulgação

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O papel em O Tempo Não Para, aliás, marca seu retorno aos folhetins. A primeira experiência foi com a personagem Clara, em Xica da Silva, exibida pela Rede Manchete em 1996. Em uma entrevista de 2013, Adriane chegou a dizer que não faria mais novelas – ou “só se estivesse passando fome”. Mas mudou de opinião.

– Eu mudo de ideia mesmo, não tem nada de errado nisso. Tive uma experiência difícil, mas o mundo mudou. Os tempos são outros.

A seguir, você vai ler um papo franco com Adriane sobre a vida, profissional e pessoal. A atriz comemora a nova fase da carreira e admite não ter medo de sair da zona de conforto e errar, mesmo que isso custe muitos julgamentos, ainda hoje.

– Se já faltaram ao respeito comigo? Faltaram, sim. Mas acho que a melhor resposta para tudo é trabalho. Se você trabalhar e se trabalhar direito, responde a tudo.

Foto: João Cotta/Globo/Divulgação

Foto: João Cotta/Globo/Divulgação

Como você define sua atual fase da carreira, agora de volta às novelas?
É um momento muito especial da minha vida, pessoal e profissional. Nada como passar dos 40 para ter maturidade suficiente para entender e conseguir ficar longe da família durante esse trabalho. E está todo mundo apoiando! Esse papel foi um grande presente profissional que recebi. Tenho focado profundamente na minha personagem, a Zelda, e estou muito feliz com ela, apesar de ela ser o oposto de mim. E é engraçado porque já fiz 12 peças de teatro, uma novela e dois filmes, mas sempre pude emprestar coisas minhas para as personagens. E para a Zelda, não. Eu tenho que pegar tudo de fora, porque ela não tem nada a ver comigo. E teve a questão da mudança física, que me ajudou muito na construção da personagem.

Sobre a mudança de visual, ser morena é um desafio após tantos anos loira? Foi estranho no início?
Isso me deixou muito confortável para construir a personagem com essa cara diferente. Porque eu estou diferente. Estou tão diferente que nem meu marido me reconhece (risos)! A gente estava em um evento dias atrás, e eu estava de costas. Ele chegou perto de mim e disse: “Você não está entendendo, estava te procurando há horas”. E isso é muito louco, mas a mudança física me ajudou muito mesmo a construir Zelda. Acho que as pessoas já estão vendo a personagem. É uma mulher bocuda, que faz de tudo pra não quebrar. Eu brinco que ela é como todo brasileiro, que luta muito pelo que tem. A diferença dela para a maioria dos brasileiros é o caráter. O dela é um pouco duvidoso. Para a empresa dela não quebrar, é capaz de qualquer coisa. Vende a mãe se for necessário!

A Zelda trabalha com moda. Na vida real, como é a sua relação com esse assunto?
A Zelda é a moda. Ela tem estilo, só vive disso, é o ganha-pão dela, ela não sabe fazer outra coisa. Eu tenho uma relação com moda de admirar, assim, apesar de ter uma família que tem total relação, meu sogro desde os oito anos está envolvido com isso. A Iódice existe há 40 anos. Então, a família inteira realmente se envolve. Esse universo está dentro da minha casa. Mas a minha relação é de gostar, de curtir mesmo. De testar, não ter medo de ousar, sabe?

Você já disse em uma entrevista anos atrás que não faria mais novelas depois da experiência em Xica da Silva, da Rede Manchete. O que a fez mudar de ideia?
O mundo mudou, os tempos são outros, e, como falei, tenho zero medo de mudar. Mudo de ideia mesmo. Como não sou uma mulher que fica na zona de conforto, mudar faz parte da minha vida. E, às vezes, entro em contradição mesmo. Quem muda de ideia, muda de opinião, e não tem nada de errado nisso. E acho estranho a gente não querer mudar. Não sou destemida, sou uma mulher que tem muitos medos. Mas sou responsável. Então, tenho medo, sim, mas não deixo que o medo me paralise, tome conta de mim, entendeu? Naquela época, eu realmente não queria mais fazer novela. Tive uma experiência difícil mesmo. Xica da Silva é uma novela linda, fez muito sucesso, mas foi superdifícil. E eu fui indo para o caminho da comunicação. De repente, veio um convite lindo como esse e não pensei duas vezes em aceitar fazer o teste. Fui nervosa e tudo, é claro, mas aceitar e encarar esse desafio fez muita diferença na minha vida. Às vezes, os desafios aparecem de várias formas na nossa vida. O que não dá é deixar o bonde passar.

No ano que vem, o livro O Caminho das Borboletas, sobre a sua relação com o Ayrton Senna, completa 25 anos de lançamento. O quanto e como essa obra marcou a sua vida?
Sabe que esse livro foi um recomeço da minha vida, na verdade. Tinha 19 anos quando conheci o Ayrton. E, quando a tragédia toda aconteceu e fiquei conhecida nacionalmente, usei esse livro como o diário de uma menina. Porque eu era menina, 19 anos, gente. Lembro como se fosse hoje, falei para o Nirlando Beirão (jornalista que escreveu o livro a partir dos depoimentos de Adriane): “Vou contar uma história pra você. Mas quero que você seja fiel a isso. Não precisa florir essa história, não. Porque ela tem mais espinhos do que flores”. Lembro perfeitamente dessa conversa. E foi o meu grande recomeço, minha chance de dar a volta por cima. E, quando comecei a andar com as minhas próprias pernas e ter oportunidade de trabalho, pedi para parar. O livro parou de ser publicado na 12ª edição. Nunca mais foi. Ou seja, quem tem, tem. Realmente fiz essa opção. Mas tenho muito orgulho desse livro. Aliás, tenho muito orgulho dessa minha história. Não acho um problema falar disso. Meu marido não acha um problema falar disso. Eu não carrego isso como um fardo, pelo contrário. Fez parte, faz parte e tenho essa história com muito respeito e muito amor.

E como foi lidar com tudo aquilo na época?
Eu tive muita ajuda, a gente não consegue fazer isso sozinha, ainda mais tendo 19 anos. Tenho uma mãe que é uma guerreira. Ela esteve do meu lado em todos os momentos da minha vida. Agora mais do que nunca, ela me ajuda demais com o Vittorio. E tive muitos amigos importantes também e que me ajudaram nesse recomeço.

Ainda falando de exposição, você já foi capa de revistas centenas de vezes, já deu milhares de entrevistas, falou abertamente sobre sua vida pessoal. E nas redes sociais também não economiza fotos da família. A Adriane é transparente por natureza? Como você dosa isso?
Pra falar a verdade, nem doso muito, assim. Tenho tanto respeito pelos profissionais da área, por jornalistas, e entendo que do mesmo jeito que é importante para mim dar uma entrevista para você, também é importante para você ter uma matéria comigo. Acho que a vida é uma grande troca, profissionalmente falando. Nunca tive problema com paparazzi, com nada. E olha que lá atrás não tinha rede social, era outro ritmo. E, ao mesmo tempo, você ficava meio na mão das pessoas, sabe? Porque você não tinha como provar que não tinha falado aquilo, ia pedir uma retratação e demorava… Enfim, tudo isso mudou. E apanhei muito também. As pessoas transformavam muito as coisas que eu falava. Aprendi a lidar com a situação no caos. Não aprendi a administrar na alegria. Aliás, é assim que a gente cresce mesmo, né?

E os julgamentos e as críticas?
Nunca me machucou, mas acho que machucou a minha mãe, né? Nenhuma mãe quer ler, ouvir coisas ruins sobre seu filho. Vejo pelo meu filho, se alguém fala alguma coisa dele, eu brigo mesmo. Mas nunca me incomodei comigo. Sempre falei: me ache legal, me ache um horror, mas não me ache mais ou menos. Eu não sou uma mulher mais ou menos. Seria uma idiotice minha achar que todo mundo ia gostar de mim ou se identificar com a minha história. Não, né? Eu nem tento fazer isso.

Minha turma …. 💙 #wearefamily @vittoriogioficial @galisteuoficial @aleiodice

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E essa postura vem da sua criação?
Vem, vem desde o bullying escolar. Lembro que eu chegava em casa e me queixava: “Ai, mãe, falaram do meu nariz”. E ela dizia: “E daí? Vai lá se olhar no espelho, vamos juntas. O que tem o seu nariz? Qual a diferença do seu nariz para o nariz de alguém?”. Entendeu? Minha mãe nunca deixou eu me abalar, desde criança mesmo. Claro que tem críticas que me ajudam, depende de quem está criticando. Se é uma crítica de alguém importante ou que sabe mais do que você, ou que você admira, presto a maior atenção. E ela pode melhorar muito o meu trabalho. Mas a crítica pela crítica, a opinião alheia, ai, não vou ligar, porque não vou conseguir mesmo agradar. Então, beleza, está tudo bem.

Hoje, mais do que nunca, as questões das mulheres estão muito em pauta, sob vários ângulos. Você já passou por situações desafiadoras ou constrangedoras por ser mulher?
Olha, vou te falar que não tenho essa história pra contar. Não sei se foi por onde eu passei, mas nunca tive nenhum tipo de problema. É claro que preconceito eu já senti, principalmente na época da morte do Ayrton. Tinha uma coisa de torcerem o nariz para mim, até as pessoas me conhecerem mesmo. Demorei muito pra recuperar o meu nome, a minha identidade. Durante muitos anos, fui a namorada do Ayrton, a noiva do Ayrton, mas ninguém falava o meu nome. Mas, como falei, a minha mãe nunca deixou a minha bola cair. Então, sempre gostei de mim, sempre procurei fazer as coisas da melhor maneira possível, e nunca atrapalhei a vida de ninguém. Eu posso errar muito – e acho que erro bastante para conseguir acertar, e ainda bem. Mas não ponho os outros no meio, sabe? Não misturo as pessoas, faço o meu. Mas, se eu tivesse passado por algum tipo de assédio ou preconceito a ponto de mexer comigo profundamente, de me tirar do eixo, teria aberto a boca na hora. Porque agora as mulheres estão falando, mas, por muitos anos, nós, mulheres, nos calamos. Por medo. O medo, maldito, aí de novo, fazendo parte do nosso dia a dia. Eu teria aberto a boca, não tenho papas na língua. Faltaram o respeito comigo? Faltaram, sim, mas nunca perdi meu tempo processando. Acho que a melhor resposta para tudo é trabalho. Se você trabalhar e se trabalhar direito, responde a tudo.

Falando em trabalho, além da atuação na TV, você tem um site próprio com conteúdo, um canal no YouTube e produtos licenciados. Falta mais alguma coisa?
Acho que o trabalho dignifica em todos os sentidos. O trabalho pode te fazer bem, ainda quando não é bom. Às vezes, você se dedica, coloca sua energia e não dá certo. Faz parte. São ossos do ofício. Tive que lutar muito para ter as minhas coisas. Lutar para ter minha grana, lutar para ter meu espaço, lutar para ter meu nome de volta, lutar pra provar que sou boa. Sabe? Mas, olha aí, tenho 45 anos, passei por várias emissoras, fiz uma história como comunicadora e hoje estou numa novela das sete da Rede Globo. Todo mundo quer trabalhar na Globo, né? Você quer fazer parte daqueles 100 milhões de uns (risos). E agora estou lá, fazendo meu trabalho, mas não posso parar, continuo estudando, me dedicando. O tempo não pode parar. Aliás, se eu pudesse congelar o tempo, fazendo uma referência à novela, seria com meu filho. Hoje ele está com oito anos, está cheio de opinião, já está falando tudo.

Como é a Adriane mãe? É difícil educar um menino?
Ai, é uma delícia. Se pudesse, criaria uns cinco. Amei ter filho! Não tenho muitos arrependimentos na vida, de verdade – acho que as coisas acontecem e a gente toma decisões de acordo com a nossa verdade naquele momento. Mas, se tivesse a oportunidade, teria tido mais filhos. Eu gostaria de mais um, mas tá muito difícil aqui o processo (risos).

O que mais você pensa em fazer na carreira, para continuar se reinventando?
Não sou do depois. Nunca fui. Não quero pensar no depois, porque daí vou me atrapalhar, sabe? Toda vez em que pensei no depois, mudei de ideia, fui cobrada por isso. Sou uma mulher do presente. Hoje, não mudaria nada na minha vida. Amanhã, não sei. Mas hoje está tudo bem, graça as Deus, a gente tem saúde, tenho um trabalho que me faz feliz, tenho uma mãe maravilhosa do meu lado, meu filho, meu marido. Então, está realmente tudo bem na minha vida.

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