Entrevista! Angelina Jolie celebra as delícias e descobertas do seu papel principal: a maternidade

Por Mariane Morisawa Especial, de Los Angeles (EUA)

Angelina Jolie é uma das maiores estrelas de cinema do mundo. Mais do que isso, é uma das mais fulgurantes personalidades de nosso tempo. Mas, quando se trata dos filhos, é exatamente como toda mãe: sempre dá um jeitinho de incluí-los no bate-papo. Foi assim todas as vezes em que conversei com a atriz – na primeira, no Festival de Cannes de 2008, estava gravidíssima. Os gêmeos Knox Léon e Vivienne Marcheline, hoje com 6 anos de idade, nasceram cerca de dois meses mais tarde. Sua aventura na maternidade começara em 2002, quando adotou, sozinha, seu primeiro filho, o cambojano Maddox Chivan, agora com 13 anos. Em 2005, foi a vez de Zahara Marley, nascida na Etiópia há 10 anos. Em maio de 2006, veio sua primeira filha biológica com Brad Pitt, Shiloh Nouvel, que nasceu na Namíbia. No ano seguinte, o casal adotou mais um menino, o vietnamita Pax Thien, 11.

As seis crianças estão no centro de tudo o que envolve Angelina Jolie – até mesmo seus trabalhos no cinema ela escolhe pelos filhos. Dirigiu seu segundo longa-metragem, Invencível – que concorreu a três Oscar este ano e chega às lojas em DVD e Blu-Ray no dia 15 -, para seus meninos, especialmente os dois que estão chegando à adolescência, Maddox e Pax. O filme conta a história verídica de Louis Zamperini (1917-2014), um garoto levado que virou corredor olímpico, soldado e prisioneiro na Segunda Guerra Mundial.

— Ele é uma pessoa com muitas imperfeições, normal. E nos mostra que todos temos potencial para a grandeza — me disse Jolie na época do lançamento no cinema, divertindo-se ao contar que seu maior teste de público foram os próprios filhos, que prestaram atenção a tudo sem ficar dançando na cadeira.

Já a voz da personagem Tigresa, de Kung Fu Panda, Angelina fez para suas meninas:

— Gosto dos filmes de ação com mulheres fortes por causa das minhas filhas.

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O casal Jolie-Pitt e os seis filhos que vivem sempre unidos: Maddox, 13, Pax, 10, Zahara, 9, Shiloh, 8, e os gêmeos Knox e Vivienne, 6

A animação também foi importante por mostrar que o personagem principal, Po, foi adotado – como parte da grande família Jolie-Pitt.

— Eu pensei que eles iam fazer muitas perguntas, mas adoção e orfanato são palavras felizes em nossa casa — relata Angelina.

Sempre abrindo um sorriso largo quando fala de seus seis pequenos, foi seguindo a mesma linha de pensamento que ela quase recusou a oportunidade de trabalhar com Clint Eastwood em A Troca (2008). Na trama, sua personagem enfrentaria o desaparecimento de um filho:

— Era muito perturbador. Mas, no fim, achei inspirador, queria contar aquela história.

O que fazia para compensar? Passava o máximo de tempo possível com as crianças, nos intervalos da filmagem ou no fim do dia. Aí se permitia ser boba, pateta, apenas feliz por eles estarem ali a seu lado. Seus maiores talentos, além de atuar e dirigir, são colorir e brincar de massinha, como ela mesma confessa.

 

Todos juntos o tempo todo

O lema dos Jolie-Pitt é “família que faz tudo unida permanece unida”. A base é Los Angeles, numa casa confortável nas colinas de Hollywood. Existe também o castelo no sul da França, que ocupam desde o nascimento dos gêmeos e onde, finalmente, foi celebrado o casamento de Angelina e Brad, em agosto do ano passado, após mais de dez anos de relacionamento. As crianças, como se sabe, contribuíram desenhando no vestido da mamãe-noiva. Até que foi um avanço: numa das entrevistas, Angelina contou, entre divertida e um tiquinho nervosa, que uma das ideias dos meninos era fazer a cerimônia durante um jogo de paintball. Sua reação?

— Bem, pelo menos é diferente — gargalhou.

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Quando é aniversário de uma das crianças, os irmãos também dão palpites na festa. Se Angelina vai filmar em Veneza – como foi o caso do longa O Turista (2010), ao lado de Johnny Depp -, Brad e os seis filhos vão também. Acontece de a família toda ter de passar uma temporada na bem menos glamourosa Oakland, perto de São Francisco, na Califórnia. Faz parte também. Por conta disso, as crianças têm tutores e estudam em casa. Aprendem a história de seus países natais e de suas respectivas culturas. Os meninos frequentam aulas de artes marciais.

— Meninos são meninos, eles têm um tipo de energia específico naturalmente. Ignorar que essa é uma parte do comportamento masculino é absolutamente errado — diz Angelina, que ao mesmo tempo não liga se Shiloh gosta de se vestir mais parecida com os irmãos do que com as irmãs; tanto a mãe quanto o pai simplesmente deixam a garotinha ser como é.

A primeira quebra nessa unidade familiar tão conectada aconteceu justamente quando ela estava rodando Invencível na Austrália, enquanto Brad Pitt filmava na Europa Corações de Ferro, dirigido por David Ayer – curiosamente, também sobre a Segunda Guerra Mundial.

— Nós compartilhamos as crianças! Elas ficaram comigo, mas foram em pares visitá-lo (Brad) — contou Angelina, acrescentando que Maddox inclusive trabalhou na produção dela. — Foi engraçado porque, quando eu e Brad nos conhecemos, ele (Maddox) tinha dois anos de idade, e agora ele tem um walkie-talkie!

A família parece ter sobrevivido intacta. Mais complicado foi filmar By the Sea, em que Angelina e Brad interpretam um casal em crise – e isso em plena lua de mel.

— Foi muito difícil, eu me dei muito trabalho — riu a atriz.

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A suavidade como herança

A família passou por momentos mais duros, como as recentes cirurgias nas mamas e no ovário como prevenção de câncer. A mãe de Angelina, Marcheline, morreu em 2007, aos 56 anos, da doença. Uma das conversas que tive com Angelina Jolie foi no final de 2008, quando ela ainda sofria com a perda daquela que sempre a amparou, mesmo nos seus momentos mais complicados – e a atriz viveu uma fase rebelde daquelas na sua adolescência. Foi a primeira vez que vi uma atriz chorar durante uma entrevista, coisa rara, que só me aconteceu três vezes. A segunda foi quando Juliette Binoche soube que o cineasta iraniano Jafar Panahi, banido de fazer cinema pelo governo de seu país, havia iniciado uma greve de fome. E a terceira, novamente ocorreu com a própria Angelina, falando de Louie Zamperini, o personagem de Invencível que virou “um pai, um avô”, como ela disse, algumas semanas após sua morte, antes da estreia do longa-metragem que ele esperou 57 anos para ver pronto.

É curioso, porque todo o mundo tem essa imagem de Angelina Jolie como a mulher meio sombria – bem, no passado, de fato ela andava com o sangue do então marido Billy Bob Thornton pendurado num pingente junto ao pescoço.

— Espero que algo da minha mãe tenha passado para mim e eu seja mais suave e feminina do que as pessoas acreditam que eu sou — admitiu, lembrando que a mãe era chamada pelos próprios filhos de “marshmallow”.

E Angelina tem, sim, uma doçura no sorriso, no olhar e nos gestos. Ao vivo, não mostra nada da femme fatale que gostam de imaginar – a mulher devastadora que acabou com o casamento dos sonhos das capas de revista entre Brad Pitt e Jennifer Aniston. É firme, direta, objetiva. A mesma abordagem, curiosamente, que aplica à maneira de se vestir: quase invariavelmente, terninhos pretos com blusas mais delicadas, pretas, cinzas ou brancas.

— Quando visto cor, meus filhos ficam chocados — contou certa vez, entre risos. — Não gosto de ter de pensar no assunto. Sou uma dessas pessoas.

Ela, afinal, tem muito mais com o que se preocupar do que a moda. Por exemplo, o trabalho humanitário que a leva ao redor do globo, em missões para ajudar gente sofrendo com guerras, doenças e fome. Todos os dias, pela manhã, lê as notícias. Quando assiste aos telejornais, suas crianças estão junto:

— Tem gente que tenta evitar que os filhos sejam expostos a qualquer tipo de violência. E eu acho que isso é impossível, dado o mundo em que vivemos.

Admite desanimar às vezes, vendo tanta tragédia, na televisão, no computador ou ao vivo. Foi por isso que se encantou com a história de Louis Zamperini, cheia de esperança apesar de todas as adversidades. Angelina Jolie é forte, sim, mas não invencível ou inquebrável. Também sente seus joelhos amolecerem quando um de seus meninos ou meninas cai da bicicleta. Como toda mãe.

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Viver para contar e amar

O assunto varreu as redes sociais e dominou conversas desde reuniões de amigas até consultórios médicos: a decisão de Angelina Jolie, em 2013, de passar por um procedimento de dupla mastectomia preventiva – remoção total das duas mamas, operação que foi completada com a reconstrução dos seios por meio de um implante. Por trás da medida proativa, tomada após descobrir ser portadora do gene BRCA1, que aumenta drasticamente o risco de câncer de mama e nos ovários, as mesmas seis pessoinhas de sempre: os filhos da estrela.

— Me pego tentando explicar a doença que a levou (a mãe de Angelina) pra longe de nós. Eles (os filhos) perguntaram se o mesmo podia acontecer comigo. Eu sempre disse a eles para não se preocuparem, mas a verdade é que sou portadora de um gene ‘defeituoso’. A decisão de fazer uma mastectomia não foi fácil, mas estou muito feliz com ela. Minhas chances de desenvolver câncer de mama caíram de 87% para menos de 5%. Eu posso dizer para meus filhos que eles não precisam ter medo de me perder para o câncer de mama — escreveu a atriz em artigo publicado no The New York Times em maio daquele ano.

— É tranquilizador que eles (as crianças) não vejam nada que os deixe desconfortáveis. Eles veem minhas pequenas cicatrizes e é isso. Fora isso, aqui está apenas a mamãe, do mesmo jeito que sempre esteve. Eles sabem o quanto eu os amo e que farei tudo para estar com eles o máximo que eu puder.

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Dois anos depois, em março passado, veio o novo anúncio: Angelina detectara alterações em seus exames de rotina e, aconselhada por uma série de médicos, optou pela remoção dos ovários e trompas de Falópio. Ainda que menos arriscada do que a dupla mastectomia, a cirurgia não ocorreu sem deixar suas marcas: aos 39 anos, Angelina entrou em menopausa forçada.

— Não posso mais ter filhos e sei que haverá mudanças físicas, mas estou em paz com o que vier: não por ser forte, mas porque faz parte da vida e não é algo a ser temido — declarou a atriz em novo artigo ao The New York Times. — Sinto muitíssimo pelas mulheres que passam por esse momento muito cedo em suas vidas, antes que possam ter tido filhos. A situação delas é infinitamente mais difícil do que a minha. Pesquisei e descobri que existe a opção de remover as trompas, mas manter os ovários, o que mantém a possibilidade de filhos, e espero que essas mulheres possam estar cientes disso. Eu sei que meus filhos nunca precisarão dizer: “Mamãe morreu de câncer nos ovários”.

Como conselho final – tanto para as mulheres sensibilizadas pelo seu relato ou que passam por situação semelhante quanto para os próprios seis filhos, Angelina concluiu:

— A vida tem muitos desafios. Aqueles que não devem nos assustar são os que podemos encarar de frente e assumir o controle.

Se chega a ser um clichê uma mãe dizer que morreria pelos filhos, Angelina Jolie fez o caminho contrário: escolheu viver por eles.

 

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