Entrevista! Angelina Jolie: “Nunca esperei ser aquela que todo mundo compreende”

Foto: Ryan Pfluger, NYTNS
Foto: Ryan Pfluger, NYTNS

Por Cara Buckley, The New York Times

Los Angeles – Angelina Jolie estava sentada na varanda de sua casa nova, explicando por que quer salvar o mundo, quando o dever chamou. Seu caçula, Knox, nove anos, pôs a cabecinha loira na porta de tela.

– A Shiloh precisa de você – disse o garoto, baixinho, referindo-se à irmã do meio, de 11 anos.

– Shi? – chamou Jolie, antes de desaparecer, com um sussurro quase imperceptível do caftan preto.

Dez minutos depois, ela voltou. Vlad, a adorada pogona (uma espécie de lagarto) de estimação da menina, tinha ficado doente e estava, para desespero da dona, se recuperando no veterinário.

A atriz prosseguiu, comentando a ironia de um mundo em que um animal de estimação na Califórnia tem tudo do bom e do melhor enquanto milhões de pessoas mundo afora não contam com acesso nem ao tratamento médico mais básico. Claro que não mencionei o fato de ela fazer esse comentário em uma propriedade de US$25 milhões e quase um hectare que comprou para si e os seis filhos no início deste ano, depois da separação de Brad Pitt.

Talvez mais que qualquer outra celebridade, Jolie, 42 anos, se mantém firmemente plantada em dois mundos drasticamente diferentes: faz parte da elite de Hollywood, tendo cada gesto registrado nas manchetes dos tabloides, e também é a boa samaritana que já fez mais de 60 viagens como representante da ONU. E essa contradição aparente faz parte de seu fascínio fugidio. Jolie sempre foi difícil de definir, uma mulher que não pode ser encaixada em uma única categoria, pois ocupa várias ao mesmo tempo.

É dona de uma beleza e um glamour incomparáveis, mas também a ativista que defende a saúde feminina, revelando ao mundo que fez uma mastectomia dupla preventiva; administra seu perfil público meticulosamente, embora diga que não se importa com o que os outros pensam; continua perto do topo da pirâmide cruel da fama, embora nos filmes de sucesso de que participou tenha aparecido camuflada (Malévola, Kung Fu Panda).

E apesar de a sanha do público pelos detalhes mais picantes de sua vida pessoal há muito terem superado o interesse nos filmes que dirige, Jolie continua levando histórias difíceis e pouco conhecidas para a telona. Três dos quatro longas que dirigiu se passam em tempos de guerra, inclusive o mais recente, First They Killed My Father, baseado na história real de Loung Ung, uma garotinha que sobreviveu ao genocídio no Camboja e se tornou uma das melhores amigas da estrela.

Angelina Jolie, o produtor Rithy Panh e a co-autora Loung Ung, que teve seu livro de memórias transformado em filme (Foto: Ryan Pfluger, NYTNS)

Angelina Jolie com o produtor Rithy Panh e a co-autora Loung Ung, que teve seu livro de memórias transformado em filme (Foto: Ryan Pfluger, NYTNS)

Embora suas primeiras incursões tenham tido uma recepção morna, várias críticas consideram esse último sua melhor obra até hoje. Narrado inteiramente sob a perspectiva da menina, em khmer, foi aplaudido em pé no Festival de Cinema de Telluride, onde foi lançado. A Netflix começou a exibi-lo em quinze de setembro, quando também estreou em um número reduzido de salas.

Jolie admite que não poderia ter feito esse filme se primeiro não tivesse dirigido Na Terra de Amor e Ódio (2011), sobre a guerra da Bósnia, e Invencível (2014), baseado na história real de um soldado norte-americano preso durante a Segunda Guerra Mundial.

– Fazer só filmes de guerra não foi um lance consciente; na verdade, foram histórias que me atraíram – explica.

 Jolie tem uma ligação profunda com o Camboja, e não só por ser responsável pela reorganização total de sua vida. Antes de visitar o país, em 2000, para filmar Lara Croft: Tomb Raider, ela era a maluquinha de Hollywood, uma esquisita gótica que foi à festa do Oscar daquele ano vestida de Elvira, a Rainha das Trevas e plantou um beijo na boca do irmão. Também pegava pesado e costumava ser bastante explícita em público com o segundo marido, Billy Bob Thornton, usando como pingente um frasquinho com sangue dele.
Foto: Ryan Pfluger, NYTNS

Foto: Ryan Pfluger, NYTNS

A dignidade e a singeleza que viu nos cambojanos, além dos efeitos longevos do genocídio, forçaram-na a encarar a vida de estrela sob uma perspectiva pouco lisonjeira.

– Quando você é exposta ao que está acontecendo no mundo, às realidades das outras pessoas, não dá mais para voltar atrás e fingir que não sabe de nada; não dá para acordar de manhã e achar que está tudo bem. Sua vida inteira muda – revela.

Ela adotou Maddox, hoje com 16 anos, de um orfanato, divorciou-se de Thornton, e caiu de cabeça no trabalho humanitário e ambiental, descobrindo inspiração nos sobreviventes de guerra e no pessoal das organizações que os ajudam.

– A verdadeira vontade de sobreviver, a força do espírito humano e o amor familiar se fazem muito presentes. É assim que todos deveríamos viver. Quando você convive com esses elementos, eles se tornam contagiosos e você aprende muito.

Embora ainda fosse agosto, as crianças – Maddox, Pax, treze anos, Zahara, doze, Shiloh, Knox e sua gêmea, Vivienne – já tinham começado a ter aulas em casa. Elas tinham acompanhado a mãe nos festivais de Telluride e Toronto – Maddox inclusive tendo o crédito de produtor executivo – e agora estavam compensando o tempo perdido, trabalhando com professores particulares em várias partes da casa, aprendendo, entre outras coisas, árabe, linguagem de sinais e Física.

Foto: Ryan Pfluger, NYTNS

Foto: Ryan Pfluger, NYTNS

Perguntei à atriz se ela se achava treinadora de um time pequeno.

– Na verdade, me sinto mais como parte de uma fraternidade. Somos muito unidos. Eles me ajudam muito. São os melhores amigos que já tive. Ninguém jamais me apoiou tanto como eles.

A última frase ficou pairando no ar, talvez como referência ou acusação a Pitt, que adotou Maddox, Pax e Zahara e é o pai biológico de Shiloh, Knox e Vivienne. O fim da parceria romântica de doze anos aconteceu em setembro do ano passado, depois de um incidente em um jatinho – supostamente envolvendo Pitt e Maddox – e que a teria levado a pedir o divórcio. Logo depois, Jolie e as crianças saíram da casa que era dele.

Ela confessa que First They Killed My Father pode ter sido o fator que a levou a se decidir pela separação. O filme se concentra nos parentes de Ung, alguns dos quais sobreviveram, e Jolie conta que pensou muito no significado da família durante a produção, em como os membros deveriam ajudar e cuidar uns dos outros (o filme é adaptado do livro de Ung, de 2000, de mesmo nome).

– Loung passou por muitos horrores ao longo da vida, mas também foi muito amada e é por isso que hoje ela está bem. Preciso me lembrar disso.

Decidida a fazer uma obra tão verossímil quanto fosse possível, Jolie, em parceria com o diretor Rithy Panh, que foi indicado ao Oscar, em 2014, pelo documentário A Imagem Que Falta, arregimentou milhares de cambojanos como figurantes. E conta que Maddox foi seu braço direito, trabalhando com o roteiro, fazendo as anotações durante as reuniões e papeando com Panh em francês. Como algumas cenas seriam rodadas nos locais onde ocorreram os massacres, a equipe técnica levou um grupo de monges para rezar, acender incenso e fazer oferendas antes do trabalho.

– Ela é muito querida lá – conta Panh, que também foi produtor do filme. E completa: – Fiquei impressionado com sua humildade e a forma intuitiva com que se comunicava com as crianças no set, apesar de praticamente não falar cambojano. (Jolie disse que a sugestão feita na Vanity Fair, a de que os pequenos foram cruelmente enganados durante o processo de seleção, foi uma “descaracterização”.)

Ung conta que Jolie, que é cidadã cambojana, tem o mesmo tipo de sensibilidade de seus compatriotas.

– No Camboja não se levanta a voz; você fala com as pessoas em tom gentil, cumprimenta as pessoas unindo as mãos, com uma reverência. Para ela, isso é natural.

Jolie também parece consciente da imagem que o público tem dela – uma rainha de gelo, inatingível, em contraste com a simpatia do garoto de cidade pequena do Missouri do ex-marido (a entrevista reveladora que concedeu para a GQ Style, em meados deste ano, ajudou a reforçar a imagem de bom moço).

– Na época de escola eu era punk e estava acostumada a ser peixe fora d’água, a ouvir todo mundo falando a meu respeito. “Nunca esperei ser aquela que todo mundo compreende, de quem todos gostam, mas para mim tudo bem porque sei que sou e meus filhos também sabem – conclui ela, me acompanhando até a frente da casa.

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna