Entrevista! Antes de shows no RS, Fernanda Takai fala sobre ser a única mulher no Pato Fu e igualdade de gênero

Prestes a fazer shows no Estado, Fernanda Takai dá seu recado sobre o que é ser mulher no mundo de hoje.

Foto: Bruno Senna
Foto: Bruno Senna

Fernanda Takai é a voz delicada nos microfones da banda Pato Fu e de uma elogiada carreira solo. E também escritora, cidadã que faz questão de se posicionar, mulher atenta a questões de gênero e mãe de uma garota prestes a completar 13 anos.

Na próxima semana, ela volta ao estado, para se apresentar em Porto Alegre nesta sexta, na turnê do novo disco do grupo mineiro, Não pare para pensar, com uma levada para cima. O show em Novo Hambugo foi cancelado.

– Esse disco traz mais alento mesmo, traz coisas mais positivas sem deixar de enxergar a realidade, que não é nada fresca. Parece que são sempre os mesmos problemas que já estão aí há muito tempo e que é muito difícil de a gente resolver, mas temos que tentar. Se a gente não tentar, não tem para onde correr. Então, estamos sempre achando uma luzinha para correr atrás.
Casada com o parceiro de banda John Ulhoa e completando 45 anos em agosto, Fernanda conversou com Donna por telefone, desde Minas. E o papo, que você confere a seguir, foi muito além de música.

São 25 anos no Pato Fu. Que balanço você faz deste período em sua vida, em que amadureceu aos olhos do público?

Comecei no Pato Fu quando tinha 21 para 22 anos e acho que o tempo tem passado cada vez mais rápido na medida em que a gente vai ficando mais velha. São outras responsabilidades. Comecei a escrever, a cantar com outras pessoas, a cuidar de uma filha… Isso tudo faz com que nosso dia fique curto. Nos tempos de hoje, em que tudo é monitorado nas redes sociais, todo mundo com o celular pronto para filmar e fotografar e tudo mais, envelhecer e amadurecer aos olhos da plateia é quase natural. Gosto de ter a idade que tenho, gosto de fazer parte desse tempo de hoje, em que o mundo todo está ao nosso alcance.

Você é a única mulher da banda. Muitas mulheres têm reclamado por mais espaço e mais igualdade no showbiz – e no mercado em geral.

Com muito tempo nessa estrada, vivendo nessa condição de ser, às vezes, a única mulher em uma turma de 15, 16 viajantes, eu me considero privilegiada de ganhar a mesma coisa do que os homens na banda. Acho que eles aprenderam a me respeitar e a me valorizar: é uma questão mesmo de educação, de convivência e de escutar o outro. A gente exercitou de algum jeito um aprendizado, principalmente dos homens em relação a mim e eu de tolerância em relação aos homens que, por acaso, não me davam a importância que eu achava que merecia. A gente se ensinou, ao longo do tempo, a se respeitar e a mostrar que ninguém, por questões de gênero, merece ganhar menos ou mais. Foi um aprendizado muito bom, mas está longe do macro, da sociedade e até da família de cada um de nós. Talvez o meio artístico, de alguma forma, seja mais sensível para essas questões: você está convivendo com arte, vivendo com expressões humanas muito diferentes umas das outras. Sou muito feliz por respirar esse ar das artes, mas vejo que, nas questões de religião, gênero, salário e de direitos políticos, as mulheres teriam que ocupar mais os espaços.

Estamos vivendo uma época que já foi chamada de primavera das mulheres, um movimento que começou nas redes sociais e está se espraiando. Como você vê isso?
Cada dia é uma primavera assim para cada uma de nós. Mas o que é bacana é a possibilidade de ser coletivo a partir do momento em que você tem as redes sociais e figuras que tomam para si o papel de liderança, de congregar as mulheres a se reunirem para discutir um assunto, como o que aconteceu recentemente aqui em Minas Gerais, em uma das ocupações dos prédios públicos nessa discussão do impeachment. Na curadoria dos cantores que iriam se apresentar, a gente viu que tinha, sei lá, uns 90% de mulheres. E foi quase sem querer. Ao final, havia mais mulheres no palco e na plateia do que em outros eventos. Aí no Sul mesmo, onde há grandes festivais, você imagina que no line up de cada dia tem 10 atrações e geralmente uma tem uma vocalista ou uma cantora solo – o resto é tudo homem. E quando a gente ocupa esses espaços, tomando o protagonismo da cena, é muito mais fiel à realidade do mundo, que é basicamente 50% de homem, 50% de mulher. Isso tudo tinha que ser mais dividido. Por exemplo, no Congresso tem poucas mulheres e muitos homens, e isto influencia o modo de se fazer política, o modo de ver o mundo. É como a educação: a participação das mulheres na política brasileira é um projeto para ser feito a longo prazo. Nós temos hoje no mundo de novo uma premier inglesa, a primeira ministra alemã… No Brasil, há a presidenta que hoje não está ocupando o espaço dela. Talvez nos Estados Unidos a gente tenha agora a primeira presidenta. Quer dizer, tomara que seja, ou os EUA vão estar pior do que o Brasil. Olha o que pode acontecer se o Donald Trump ganhar lá, né?

destemidos

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Você tem uma filha, nina. Como é criar uma garota nos dias de hoje?

Acredito muito no aprendizado. Preciso dar a ela todas as possibilidades para que possa se expressar do jeito que ela quiser, sendo mulher com segurança. Recentemente, vimos histórias terríveis não só contra mulheres, mas também contra gays. Ninguém está seguro por causa da sua expressão individual. Isso não poderia existir: você tem direito de se vestir como quiser, de ser o que quiser, desde que não esteja ferindo ninguém. As pessoas têm que ser respeitadas nas suas escolhas. Acho que a questão maior não é nem do feminismo, é do humanitarismo. Minha filha vai fazer 13 anos e, como todos os pais e mães – espero – acompanhamos o desenvolvimento escolar e você vê o que aconteceu ali na Idade Média e está acontecendo até hoje. Ou o que aconteceu no Brasil nos anos 1960, 40 ou 50 anos depois, e está acontecendo agora de novo. Mas, dentro dessa desesperança toda, a gente tem que fazer alguma coisa. E como o meu papel, além de ser artista, de escrever e tudo mais, é de multiplicar a opinião quando posso, me sinto no papel de fazer isto: de participar e dar a minha opinião, de estar presente em alguns movimentos políticos, de saúde ou sociais. Às vezes, isso entra em conflito com o próprio pensamento individual de cada um da banda, então tento deixar claro que não é uma opinião da banda, mas minha posição como cidadã. Tenho uma ocupação que me dá muita visibilidade e vou lutar pelas causas em que acredito.

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Como é sua relação com a Nina e como ela acompanha o trabalho dos pais?

Ela frequenta pouco, comparado com alguns artistas que até levam os filhos nas turnês e tudo. A Nina nunca viajou com a gente, só de vez em quando, em feriado, para não faltar na escola. Sempre acreditei que a criança tem que ter os horários certinhos para estudar, dormir, comer e tudo mais. E esta não é a vida da estrada, que é uma vida sem horário para nada, voo que atrasa, às vezes você chega e não dá para almoçar nem fazer um lanche, toca e sai correndo já para outro lugar. Essa vida de filha de artista ela nunca teve. O que ela tem é muita convivência com artistas, gente que frequenta a minha casa. E gosto muito de ver espetáculos de música, de teatro, de visitar exposições, para tudo eu sempre convido a Nina. E os amigos dela também, porque ela ir sozinha no meio de um bando de adulto não é legal. Mas, se você chama mais alguém, já acontece uma troca entre elas mesmas, da mesma idade. Acho que arte é sempre importante na vida das pessoas: quem não gosta de ir ao cinema, ao teatro, de ler, com certeza tem uma visão de mundo mais limitada.

tuíte or not tuíte?

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Um dos seus livros se chama Nunca subestime uma mulherzinha. Você já se sentiu subestimada em algum momento?
Acho que escrevi o título até para mim mesma, porque sinto que até algumas das limitações que as mulheres sofrem partem da gente mesmo, por não acreditar que você é capaz de fazer aquele papel. Tipo: “A mala é muito pesada, não vou conseguir carregar”, mas sabe que dá para ter mala de rodinhas, né? É mais você, através do seu jeito, seja ele qual for, com suas habilidades pessoais, arranjar formas de vencer desafios e fazer coisas que, a princípio, acha difícil. A literatura entrou na minha vida meio que assim: eu topei, mas estava com um medo danado. Fiquei durante seis anos escrevendo, lancei três livros, me colocaram em vários eventos literários com escritores muito famosos e queridos, gente de quem gosto bastante. Mas eu estava ali e fui capaz de dialogar, colocar a minha opinião perto de um Zuenir Ventura, do Nelson Motta, de estar em um evento com Fernando Morais e conseguir mostrar a minha visão de mundo, que não é tão brilhante quanto, talvez, a deles, que têm o oficio de escrever há muito tempo, mas é de alguém que tem um tipo de vida e sabe colocar também as suas ideias no papel – e represento mulheres da minha idade, da minha geração, de mulheres que também trabalham e têm filhos… Tem um segmento que estou representando e tenho que ter essa voz, acreditar que sou capaz. Então, o Nunca subestime uma mulherzinha é da gente para a gente mesma em primeiro lugar. E, em segundo, para as pessoas, mulheres ou não, que convivem com essas criaturas que parecem frágeis e pequenininhas e tudo mais, mas, se você for tentar fazer tudo que elas fazem no dia a dia, vai ver que é muito difícil: alguém que goste de acordar cedo, preparar um lanche gostoso e saudável para os filhos, cozinhar, levar o cachorro para o veterinário. Então, nunca subestime as cozinheiras, as passadeiras, as costureiras, as suas mães, e reconheça o valor do cotidiano. E muitas vezes os pais que viraram donos de casa. Um amigo meu é house husband, gosta de cuidar do lar, dos filhos, da planta… É você perceber que realmente as pessoas têm vocação e função no mundo.

Serviço:
Pato Fu em Porto Alegre
Sexta – 29 de julho, às 21h,
Teatro do Bourbon Country (Av. Túlio de Rose, 80, Shopping Bourbon Country).
Ingressos de R$ 70 a R$ 130, com desconto de 10% para sócios do Clube do Assinante
Informações: teatrodobourboncountry.com.br

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