Entrevista! Aos 48 anos, a atriz, mãe e musa Dira Paes é a mais jovem homenageada com o Troféu Oscarito

Foto: Nana Moraes, divulgação
Foto: Nana Moraes, divulgação

É bom esquecer referenciais ao falar na paraense Dira Paes. A média de idade com que os agraciados recebem o Troféu Oscarito no Festival de Cinema de Gramado pelo conjunto da obra é 69 anos. Dira receberá a honraria máxima do evento na próxima sexta-feira aos 48. É a mais jovem homenageada com o troféu.

Isso significa que o prêmio foi concedido a uma atriz inexperiente? Nada disso. Dira tem 33 anos de carreira e mais de 30 filmes no currículo. Somadas novelas e séries, são mais de 20 outros trabalhos em dramaturgia.

Quer mais? Pois bem, aos 44 anos, Dira embasbacou o país e viveu dias de musa ao protagonizar cenas quentes na minissérie Amores Roubados (2014). Sensualidade que, para bem da verdade, já se insinuava quatro anos antes com a malemolente Norminha, personagem de Caminho das Índias (2009) que colocava sonífero no “leitinho do Abel” para aproveitar a noite durante o repouso do marido. Mas nada comparado ao frisson que viria das cenas com o galã Cauã Reymond, quando Dira se viu entrevistada no Fantástico falando sobre a passagem do furacão Celeste pela televisão: “O que acho maravilhoso é justamente eu não ser mais uma jovem. Nesse momento em que a beleza juvenil é tão exaltada, que faz com que as mulheres estejam desesperadas para manter um corpo de 20 anos atrás. Ser elogiada nesse momento da vida é revigorante. Não só por mim, mas por todas as outras mulheres. Mas não deixo a vaidade subir à cabeça porque outros personagens virão, e eu preciso estar despida da Celeste para eles tomarem conta de mim”, disse a atriz à época.

Curiosamente, o último deles veio pelas mãos do mesmo diretor de Amores Roubados. Em Redemoinho (disponível na TV por assinatura para assinantes dos canais Telecine), de José Luiz Villamarim, Dira vive a ex-prostituta Toninha, um completo oposto da sensual Celeste, mostrando a versatilidade que é marca da atriz.

Foto: Nana Moraes, divulgação

Foto: Nana Moraes, divulgação

Depois dos 40, Dira não apenas virou musa. Também viveu pela segunda vez a experiência da maternidade. Casada com o cineasta Pablo Baião, ela foi mãe aos 39 anos, de Inácio, e aos 46, de Martim. Este, por fertilização.

– É um tema complicado de falar demais porque sei dos riscos. Não quero ser bandeira disso. Eu queria ser mãe mais jovem, mas foi como aconteceu a minha história – resume a atriz na descontraída conversa com Donna às vésperas de desembarcar em Gramado.

Na entrevista, Dira diz que é preciso que se assimile um “novo normal” de mulher. Uma normalidade que ela mesmo representa questionando alguns estereótipos e padrões. Concordamos com Dira. Precisamos de “novos normais”, sim. E é justamente o fato de incorporar tantos deles que faz de Dira uma mulher tão espetacular.

“Precisamos de um novo normal de mulher”

Foto: Diego Vara, Agência RBS

Atriz recebe o Kikito na 37ª edição do Festival de Gramado, em 2009 | Foto: Diego Vara, Agência RBS

A sua relação com o Festival de Gramado e com o cinema do Rio Grande do Sul já é bastante profunda. O Troféu Oscarito era o que faltava para coroar isso?

Eu tenho paixão pelo Festival de Gramado. Antes de filmar no Estado, o meu contato com o cinema do Rio Grande do Sul era por meio do festival. Lembro que o meu primeiro encontro com a cidade foi muito lúdico. De descobrir esse lugar tão lindo, tão diferente das minhas referências. Mas isso foi lá no comecinho dos anos 1990. Aí sou convidada a filmar no Rio Grande do Sul e meus laços se estreitaram por meio do cinema, da arte. Fiz filmes aí literalmente de norte a sul, de leste a oeste: Anahy de las Misiones (1997), Noite de São João (2003) e Meu Tio Matou um Cara (2004). Pude aproveitar esse lado gaúcho em todos os níveis. Arrisco dizer que conheço esse Estado aí mais do que muitos gaúchos (risos).

E o que ficou desses lugares aqui por onde você passou?

Assim como o norte do Brasil, o sul fica nessa fronteira. Sem diálogo com o sudeste, o centro-oeste. Eu percebo muito essa “parecença”, essa proximidade com a minha terra, o Pará. De estarmos confinados ao nosso estreito. Isso faz o povo ser muito receptivo. Um Estado que tem muito a oferecer ao seu visitante e uma cena cultural muito particular. Porque como dialoga menos, acaba desenvolvendo uma cena própria. Isso é muito bom porque você vê a raiz do povo, a memória refletida nos comportamentos, na música. Eu conheci muito a música ali de Uruguaiana. A gente participou de muitas rodas de gaita, de viola. Na cidade, quando a gente fez Meu Tio Matou um Cara, vi essa Porto Alegre rock’n’roll, com uma cena teatral muito grande também. Todo mundo ama fazer peça em Porto Alegre, porque tem um público de teatro cativo – mais uma vez – como Belém. São públicos que os artistas amam muito. Eu tenho grandes amigos aí, a Araci Esteves, o Jorge Furtado, a Nora Furtado, a Gisele Hiltl. Esse Estado de vocês é um berço de talentos.

Foto: divulgação

Em “Anahy de las Misiones” | Foto: divulgação

Quem assistiu ao seu última longa, Redemoinho, se impressiona com o desconstrução da sua personagem, a ex-prostituta Toninha. Especialmente porque é do mesmo diretor de Amores Roubados, José Luiz Villamarim, e a Celeste era exatamente o oposto disso. Como isso funciona para a atriz?

Tudo o que a Celeste tinha, a Toninha não tinha. Acho bom. Você quer se reinventar. Quer que o público reconheça que você está fazendo uma coisa nova e não que está emprestando o que você é para um personagem. Procurei criar uma postura em que o meu corpo não tivesse exuberância alguma, marcado pelo tempo. Um corpo errado, com a postura errada, com o quadril projetado pra frente. Isso já muda tudo, porque isso não é a Dira. Eu procuro ficar sempre com a coluna reta porque quero ser igual à minha mãe, com a coluna reta, linda, maravilhosa aos 80 anos. Algumas quebras são quase invisíveis, mas são fundamentais para a atriz.

Por exemplo…

Por exemplo: a minha sobrancelha ela está raspada a gilete. É uma coisa que o público, às vezes, não percebe. Mas se olhar com bons olhos você percebe como essas pequenas coisas descontroem a mulher. Um detalhe da sobrancelha pode te levar para esse lugar. Não tentar mudar só o cabelo, sabe? Aliás, procuro mudar o mínimo possível o exterior visível. Porque mudar de personagem não é mudar de cabelo. O cabelo é um enquadramento, claro. Mas não é isso que dá o tom de um personagem. O que dá é a compreensão da obra do (escritor) Luiz Ruffato, em que se baseia o filme, a delicadeza dos enquadramentos, a atriz se entender como mais um mecanismo do filme e não o grande mecanismo do filme. Esses detalhes. Quanto menos de mim tem, a gente se sente mais inteiro como personagem. Às vezes, tem uma coisa sua que você empresta e dá certo. Mas é bom quando você cria mesmo, traz coisas novas.

Como a Norminha de “Caminhos das Índias” | Foto: João Miguel Jr., TV Globo, divulgação

Como a Norminha de “Caminhos das Índias” | Foto: João Miguel Jr., TV Globo, divulgação

Falávamos da Celeste. Você se surpreendeu com a repercussão daquelas cenas quentes? Roubar a cena em um seriado com Ísis Valverde, Patrícia Pillar…

Roubei (risos)? Obrigada. Foi surpreendente, sim. Fiquei realmente muito feliz. Porque eu tinha acabado de fazer Salve Jorge. Eu estava muito cansada, não estava eufórica. Foi uma novela maravilhosa, intensa, onde o meu personagem, a Lucimar, brigava muito, berrava pra rua. O tema (o tráfico de mulheres) era pesado também. No penúltimo dia de Salve Jorge, o Zé (Villamarim) me ligou: “Eu queria te apresentar um projeto”. Quando cheguei lá, fui recebida com toda a equipe gritando: “Celeste! Celeste!”. Foi um presente. Mas eu me surpreendi porque sou uma jovem senhora né? (risos) Causar um frisson público e notório assim lógico que faz bem ao ego de qualquer pessoa. Só não põe isso aí do jovem senhora na manchete não, hein, pelo amor… Já me arrependi de ter falado.

Certo, não colocamos na manchete. Colocamos lá dentro meio escondido…

Olha lá, hein? (risos) Só para dar um adendo pra Celeste. Ela tinha uma coisa de que gosto muito. Ela é uma mulher que tem grana, que está muito bem resolvida na vida dela, e escolhe como vai ter prazer. Mas, depois que vê que pode perder tudo, ela se recolhe àquela vida de verdade. E ela é de verdade. E acho que isso é bem comum e bem contemporâneo. Não é bem uma traição, ela estava querendo mesmo era se divertir. Pela aventura, pelos frissons. É um privilégio fazer um papel feminino que mostre isso.

Em passagem pelo Festival de Gramado | Foto: Diego Vara, Agência RBS

Em passagem pelo Festival de Gramado | Foto: Diego Vara, Agência RBS

Falando nisso, há uma discussão mundial sobre a falta de papéis interessantes para mulheres acima 40 anos, até por uma questão de representatividade. Como você vê esse tema?

Mulheres maduras despertando sentimentos e vivendo situações normais de pessoas em qualquer idade, né? Sim, concordo. Quando você vê Merryl Streep fazendo um discurso daquela profundidade (no Globo de Ouro de 2017), quando você vê a Patrícia Arquette ganhando o Oscar (2015) e falando sobre isso, vê que até na indústria mais bem-sucedida essas questões estão em voga. E nós também queremos colocar essas questões na tela. Percebo a necessidade de um novo normal para a mulher. Eu vejo que esse retrato da mulher de meia-idade que já abriu mão das suas condições femininas não existe mais. Esse novo normal já existe, na verdade. Só que nós ainda não assimilamos. Eu até brinquei com essa história de uma jovem senhora, mas as coisas mudaram. É claro que não me sinto uma senhora. Lógico que não me sinto. Outro exemplo: acabei de ter um filho (aos 46 anos): estou nesse novo normal em que mulheres têm filhos mais tarde.

E você vê mudanças no horizonte? Mais papéis em que isso apareça?

Sim. Como a gente sempre tem uma inspiração na vida pra criar, já vejo esse olhar sendo conduzido para outro caminho nos últimos roteiros que tenho recebido. Na televisão, isso é mais perceptível. As personagens do José Luiz Villamarim são exemplos. As da Gloria Perez também. Poxa, Gloria é uma pessoa importante demais na minha carreira. Eu quase entrei na novela dela, mas não pude porque recém estava terminando outra.

Como a Celeste de “Amores Roubados” | Foto: Estevam Avellar, TV Globo divulgação

Como a Celeste de “Amores Roubados” | Foto: Estevam Avellar, TV Globo divulgação

Em A Força do Querer? Era um dos personagens que existem hoje ou seria outro escrito para você?

Ah, não vou dizer. Já te dei uns bons trunfos aí. (risos)

Gostaria que você falasse sobre duas personagens suas que foram muito marcantes, a Dona Helena, de 2 Filhos de Franscisco, e…

A Norminha?

Eu ia falar a Solineuza, de A Diarista. Mas podemos falar da Norminha (da novela Caminho das Índias, de 2009) também.

(risos) É legal que você citou duas personagens pelas quais as pessoas me abordam muito na rua para a minha própria surpresa. Como é a sua figura na tela, você acaba sendo um termômetro da recepção dos filmes, das séries. As pessoas te abordam e saem falando sobre a vida. A Dona Helena, volta e meia alguém para e vem me falar que aquela era a história da sua família. E, poxa, o filme já tem mais de 10 anos né? Aí a gente vê que ele tinha uma brasilidade muito grande. É muito gratificante fazer arte sobre o Brasil porque são muitos os Brasis, como diria Guimarães Rosa. Eu amo muito esses personagens que não falam tanto mas que falam tudo, sabe? Acho que a Dona Helena era muito isso. Já a Solineuza, tem uma geração aí que sei lá, com uns 20 anos agora, que todo mundo era fã da personagem. É um fenômeno como ela conversou com as meninas. E era muito bom de fazer porque era o humor sem freio, a teatralidade. Que era o grande trunfo da Norminha também. Elas sempre me lembram da potência que uma personagem pode ter no afeto do público.

Em registro de Instagram com os filhos | Foto: Instagram, reprodução

Em registro de Instagram com os filhos | Foto: Instagram, reprodução

Ela é a cara do Brasil

Por Roger Lerina

Dira Paes é a maior atriz do cinema brasileiro. Sei que esse tipo de afirmação peremptória está sujeita a contestações e protestos. Azar, não ligo – e não arredo pé. Desafio quem me desdiga depois de ver a paraense atuando – seja em filmes impactantes como Baixio das Bestas (2006) e A Festa da Menina Morta (2008) ou em produções pouco inspiradas tipo Órfãos do Eldorado (2015) e Mulheres no Poder (2015). Aliás, uma das qualidades da atriz é justamente a capacidade de brilhar mesmo quando o entorno não ajuda, resgatando da mediocridade – ainda que precariamente – qualquer produção em que apareça, apenas graças a seu talento e seu carisma.

Não me entendam mal: não ignoro que estamos muito bem servidos de grandes atrizes – da veterana Fernanda Montenegro à jovem Leandra Leal, passando por Sonia Braga, Marieta Severo, Glória Pires, Betty Faria, Vera Holtz, Denise Fraga, Drica Moraes, Simone Spoladore, Mariana Lima… Mas são poucos os artistas que imprimem sua presença de forma tão imediata e indelével quanto Dira: não importa se ela está no centro da cena ou de canto, se é a mocinha ou a vilã, protagonista ou coadjuvante – basta entrar em quadro para atrair o olhar da gente, que dela não quer mais desgrudar.

Com 33 anos de carreira e mais de 30 filmes no currículo, Dira já foi dirigida por cineastas reconhecidos como Walter Lima Jr., Helvécio Ratton e Breno Silveira – mas também apostou em realizadores provocadores, como Matheus Nachtergaele, Eduardo Nunes e Cláudio Assis. Aqui no Sul, participou do ótimo Anahy de Las Misiones (1997) e de Noite de São João (2003), ambos dirigidos por Sérgio Silva, além da comédia Meu Tio Matou um Cara (2004), de Jorge Furtado. No Festival de Gramado, ganhou os Kikitos de melhor atriz pelo curta-metragem Ribeirinhos do Asfalto (2010) e coadjuvante pelo longa Noite de São João.

Premiações e loas à parte, Dira Paes tem ainda uma outra peculiaridade toda especial: a atriz que estreou no cinema aos 15 anos no papel de uma índia no filme gringo A Floresta das Esmeralda (1985) é dona de uma beleza tipicamente brasileira, que preenche a tela com a cor da nossa terra. Diante do sorriso luminoso de Dira Paes, não há como conter arroubos ufanistas.

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