Entrevista: Patrícia Poeta fala sobre a reinvenção na profissão às vésperas de completar 40 anos

Foto: Sergio Zalis / Divulgação TV GLOBO
Foto: Sergio Zalis / Divulgação TV GLOBO

Às vésperas de completar 40 anos, a apresentadora do “É de Casa” diz que agora o público pode conhecer uma Patrícia “mais leve, humana e sonhadora”.

Patrícia Poeta era correspondente em Nova York quando ouviu de um entrevistado a sentença que ela mesma colocaria em prática alguns anos depois.

– Patrícia, tem gente que se reinventa aos 60, aos 50 anos – disse o cineasta Fernando Meirelles, então comemorando as quatro indicações ao Oscar recebidas por seu filme Cidade de Deus (2002). – Eu não, estava superbem na publicidade e resolvi me reinventar antes do 40.

Pois a jornalista gaúcha também deu uma virada antes dos 40, que ela completa em outubro deste ano. Em 2014, deixou a bancada do mais tradicional telejornal do país, o Jornal Nacional, para estrear, meses depois, em agosto do ano passado, o programa de variedades “É de Casa”, que vai ao ar nas manhãs de sábado da Rede Globo.

– Sempre tive esse desejo de trabalhar no entretenimento, era um sonho antigo que foi aumentando com o passar do tempo – conta Patrícia em entrevista por telefone desde o Rio de Janeiro, destacando que, até os 37 anos, já havia feito de tudo no jornalismo. – Tive meu momento de moça do tempo, depois como correspondente, depois comecei a me interessar por cinema… E sempre gostei muito de contar histórias. Nunca consegui ficar fazendo uma coisa durante muito tempo, sempre tive meus momentos de aprendizado e agora vamos lá aprender, recomeçar.

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Foto: Sergio Zalis/ Divulgação TV GLOBO

Desde então, o público vem conhecendo outra Patrícia, mais informal. E com a intimidade que o programa propõe, não faltaram comentários sobre o novo visual da jornalista, que ressurgiu bem mais magra na tela.

– Hoje estou feliz, disposta, com peso e nível de gordura no corpo que são os indicados segundo a tabela do meu endocrinologista. Era por beleza? Não… Tenho corpo de mulher brasileira, acho as mulheres bonitas de todos tipos, nunca tive problema com isto, absolutamente. É uma questão de saúde mesmo.

Ao longo de mais de duas horas de papo por telefone, Patrícia relembrou o início da carreira em Porto Alegre e falou da relação com a cidade e com o filho, Felipe, 14 anos. Antes de desligar, fez um pedido à repórter:

– Capricha nessa entrevista porque tenho muito carinho pelo povo gaúcho. Acho bacana que os gaúchos valorizam os próprios gaúchos. Desde o nosso primeiro programa, sempre deram muita audiência, no Fantástico também. Então, tenho um sentimento de gratidão.

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Na entrevista a seguir, a apresentadora do “É de Casa” diz que agora o público pode conhecer uma Patrícia “mais leve, humana e sonhadora”:

Como você avalia a transição do jornalismo para o programa de variedades?

Como comunicadora, o que quero daqui pra frente é levar leveza para as pessoas, contar histórias inspiradoras. A gente tem o “hard news” do dia a dia, mas também tem histórias bonitas de vida, serviço, um mix de coisas… Adorei trabalhar 17 anos no jornalismo: tenho o emprego que eu quiser, tenho experiência, sento, escrevo, sei entrevistar. Poderia estar até hoje fazendo algo que já me deram e ganhando meu dinheiro no fim do mês, dizendo que é um lugar de prestígio, mas temos nosso dom. Cabe a nós buscar a nossa essência e dar o melhor. Ainda estou nessa busca: tentar ajudar as pessoas dentro do que posso fazer.

Vou muito à casa das pessoas, uma das coisas mais legais em um programa de entretenimento é poder fazer isto. Sentar para tomar um cafezinho, sem correria, poder conversar, e a pessoa contar um pouco dela para você: o que faz, os perrengues por que passou. É uma sensação diferente, que não tem preço. Cada um tem seu gosto, seu desejo profissional, mas para mim, Patrícia, ter esse contato direto com o telespectador, aprender com as pessoas, é muito emocionante. Apesar de ter um lado mais da seriedade da Patrícia, que as pessoas conhecem, agora vão ver meu lado dentro de casa, mais humano, leve, sonhador.

Você falou que a proximidade dos 40 anos trouxe um momento de reflexão sobre o que queria mudar na sua vida.

Na verdade, foi até antes dos 40: a mudança no trabalho veio aos 37. A primeira conversa mais séria mesmo, tipo “acho que está na hora, cumpri minha missão aqui, já rolou, já está tudo dominado, agora estou liberada, posso tocar aqui meu caminho, meu sonho”. Levou um ano para que tudo acontecesse. Vou completar 40 em outubro, mas acho que queria fazer essas coisas com energia ainda.

Hoje estou em uma combinação boa: uma boa experiência, já morei fora, tive filho, já me dividi em mil e nunca tive tanta energia quanto hoje. Tenho cuidado bastante da minha saúde. Eu me conheço muito, tenho essa coisa de “está na hora”, respeito meu próprio feeling, não tenho apego a poder, a dinheiro, respeito meu coração. Então, estou muito bem comigo mesma, fazendo um programa em que me divirto. É um novo perfil, uma nova forma de apresentar, ajudo a escrever o roteiro, faço um pouco de tudo e curto. Tenho essa sensação de que estou onde quero, fazendo o que quero.

O time do "É de Casa" (Foto: Globo/Renato Rocha Miranda)O time do “É de Casa” (Foto: Globo/Renato Rocha Miranda)

No “É de Casa”, cada apresentador tem um perfil de pauta que gosta mais de fazer?

No início, cada um estava meio que buscando um estilo de pauta. Eu prefiro assuntos mais de relacionamento entre mãe e filho, entre casal. Moda é outra coisa de que gosto, uma das minhas irmãs (Paula) foi modelo durante um tempo, é personal stylist também. A moda entrou na minha vida durante um bom tempo. Depois, morando em Nova York, você respira moda, não tem jeito. Hoje, no próprio É de Casa, que não é em um horário líder de audiência, tenho os looks mais pedidos da TV.

Também saúde, exercícios, comida saudável… Mas a gente agora tem tentado fazer de tudo um pouco: nesta semana mesmo, fiz matéria sobre potes plásticos e me diverti. E maquiagem: em Nova York, eu me arrumava sozinha, aprendi a fazer maquiagem sozinha, porque a vida de correspondente é muito solitária. Mas já levei o André (Marques) comigo para fazer dica de maquiagem, porque é divertido, ele fica perguntando. Todo mundo se diverte, o formato do programa é este: um sábado na casa das pessoas.

Há um vídeo que você fez para a Faculdade de Comunicação Social da PUCRS que viralizou porque mostrava como você já queria ser apresentadora de TV. A Patrícia daquela época já sonhava com uma trajetória como esta?

Obviamente, eu sonhava em trabalhar com jornalismo, a gente fazia muito trabalho de telejornalismo na época, tinha o Set Universitário (evento acadêmico que inclui mostra competitiva de trabalhos universitários), de que eu gostava muito, workshops e tudo. Era uma aluna muito aplicada, tirava muito 10, sempre fui assim, na escola, na faculdade… Chegava a inventar projetos de programas: ninguém ganhava nada, mas a gente já sonhava em criar algo que fosse divertido, que levasse serviço, informação e ao mesmo tempo fosse útil, informativo. Sempre sonhei com isso, curti muito o telejornalismo, as cadeiras de telejornalismo: a gente podia pegar os equipamentos e sair inventando, fazendo plano sequência, telejornal…

Aliás, meu primeiro emprego saiu da própria Famecos (Faculdade de Comunicação Social da PUCRS), a Lígia Tricot foi minha professora das últimas cadeiras de telejornalismo e, nessa cadeira dela, nunca vou esquecer, ela foi mostrar os trabalhos dos alunos e, na minha vez, falou: “Essa menina está pronta para o mercado de trabalho”. Levei aquilo como um superelogio, nem precisava de emprego no momento, cheguei em casa e fui dormir feliz. Então, até hoje, eu a chamo de madrinha de profissão, porque um ano depois ou meses depois, ela me deu o primeiro emprego (na TV Bandeirantes local).

Como foi o início na profissão?

Quando me pedem conselho, falo que eu era superdedicada na faculdade. Lembro que, quando fui pedir meu primeiro emprego, antes de entrar na Band, perguntaram qual a minha experiência e eu, recém-saída da faculdade, havia levado meu currículo toda orgulhosa porque só tinha 10. Mas a pessoa falou “Tá, parabéns pelo seu currículo, mas você tem experiência no quê?” e eu, que me formei superjovem, respondi “Em nada”. Então, falo, vai fazendo estágio, até para as meninas do meu fã-clube. E elas já trabalharam em vários meios de comunicação e hoje estão na televisão. Uma delas é estagiária na Globo, em um programa superdifícil de passar, e me mandou mensagem contando que passou. Então, é legal estar acompanhando o crescimento de outros jovens.

E o momento de deixar Porto Alegre?

Lembro quando fui chamada para trabalhar na Globo para ser a moça do tempo em São Paulo, que foi meu primeiro emprego. Até então, eu trabalhava na Bandeirantes. A Lígia me viu chorando, porque eu tinha passado no tal do teste e de repente me deu um negócio porque eu sou muito família, de fazer amizade com as pessoas, sou muito apegada. E eu estava meio chorando no cantinho, e ela sabia o quanto eu estava com vontade de trabalhar em um lugar que tivesse outras pautas, outras coisas, e me inspirar em outras pessoas. Meus novos colegas estavam se inspirando em mim, e eu pensei: “Está errado isso aqui”. Comentei com ela que iria levar minha fita, era uma oportunidade, avisei minha chefe e ela disse para eu ir.

Nunca tinha visto aquele mapa na vida, nem sabia para onde apontar, mas acabou que me chamaram e falaram “Você tem que começar semana que vem”. Daí me deu aquela coisa, ter que deixar minha família, meus amigos da Bandeirantes – os cinegrafistas que eram meus amigos, a gente ouvia pagode indo trabalhar, eu sempre levava bolo para comemorar o aniversário de todo mundo na redação. Então, me deu isso: minha terra, Porto Alegre, meu portinho. Aí a Lígia falou algo que nunca esqueci: “Você não vai deixar seus amigos, você vai fazer novos amigos. Esses vão continuar sendo seus amigos”.

Foto: Globo/Renato Rocha Miranda

Foto: Globo/Renato Rocha Miranda

Como é hoje sua relação com Porto Alegre?

Vou sempre que posso. Eu ia também a São Jerônimo, porque nasci na cidade e tinha parte da minha família lá, mas fui perdendo pessoas da família e meu ciclo lá foi sendo completado, então deixei de ir. Mas a Porto Alegre continuo indo, meus pais moram aí, minhas irmãs, meu afilhado, filho da minha irmã mais velha. Então, sempre que posso vou e levo o Felipe, meu filho, e meu marido.

A última vez foi em fevereiro, fiz um bate e volta em uma sexta-feira que consegui de folga: era aniversário de 75 anos do meu pai. Não avisei que iria, era uma surpresa. E ele sabe que, sempre em Dia dos Pais e em aniversário, mando uma cesta e faço uma carta longa, e eles ficam esperando, tanto minha mãe quanto meu pai, para ver o que vou escrever. E desta vez não mandei nada escrito, de propósito: já estava tudo combinado, tinha marcado restaurante etc. Só que ele não sabia e a minha mãe também não porque ela podia dar com a língua nos dentes sem querer. Aí, ela mandou uma mensagem quando eu já estava em Porto Alegre, “Pati, minha filha querida, chegou a cesta, mas não veio a carta, seu pai está procurando aqui”. Eles adoram, porque é uma tradição, é uma forma de estar perto quando longe, faço isso desde que comecei a morar fora. E aí me fiz de boba: “Mãe, vou ver o que aconteceu, se deu algum problema”. Na verdade, eu iria entregar a cesta, mas o porteiro não sabia e acabou entregando. Aí cheguei lá e falei: “Gente, fiquei sabendo que meu cartão não chegou, então resolvi dar meu recado pessoalmente”, e ele ficou superfeliz.

Faço de tudo para ir para Porto Alegre de vez em quando, nem que seja por um dia, para ficar com a família, matar a saudade, da cidade também… Meu filho gosta de ir também, ficar aí, curtir com o primo dele.

Como é ser mãe de um menino adolescente? Quais são os desafios para você?

Lá em casa, temos uma relação próxima desde sempre. Acho que, por ele ter nascido fora e sermos só nós três longe de todo mundo, o vínculo é maior: é tudo muito forte, não tem a vó por perto, as tias. Esta cumplicidade desde que ele era muito pequeninho ajudou nessa fase mais complicada que é a adolescência. É uma fase em que o jovem passa a querer mais o espaço dele.

O Felipe tem, sim, os momentos dele, mas também quer estar junto com a gente. Isso é bom porque conseguimos acompanhá-lo nessa fase, ajudá-lo a entender o que está passando, essas mudanças todas que acontecem nesse período. Sou mãe dele, sei ser mãe, há momentos em que a gente tem que repreender e ensinar, não tem jeito. Mas há momentos em que ele é meu amigo, meu parceiro: a gente faz esportes juntos, fazemos várias coisas, como amigos mesmo.

Há cinco anos, ele queria que eu surfasse, e eu não tinha coragem – e este é o esporte de que ele mais gosta. Até que eu disse: “Sabe o que mais, vamos lá, me ensina a surfar”. E ele ficou tão orgulhoso da mãe dele! Joguei futebol a vida toda com ele, nunca tinha jogado antes de ter filho homem; ensinei a jogar vôlei, que era um esporte que eu curtia no meu tempo de escola e que ele joga superbem. Não sabia jogar tênis e ele queria aprender – fizemos por dois anos aulas juntos. Hoje, a gente vai malhar juntos. Acho que, se você tiver esse relacionamento próximo na adolescência, tudo fica mais fácil, as coisas ficam mais simples do que elas parecem ser.

No Instagram do Felipe: "Esperei simplesmente uns 5 anos para esse dia chegar. O dia no qual eu ensino a minha mãe surfar. Um dos melhores momentos do carnaval 2016 para mim"

No Instagram do Felipe: “Esperei simplesmente uns 5 anos para esse dia chegar. O dia no qual eu ensino a minha mãe surfar. Um dos melhores momentos do carnaval 2016 para mim”

Há pouco tempo você passou por uma reeducação alimentar e perdeu bastante peso. Como foi esse processo?

Comecei um pouco pela estética: estava muito envolvida com o trabalho, criando muitas coisas, reunião no Projac, na minha casa, e aquela coisa de misto quente, brigadeiro, pão de queijo e bolo todo dia e você não sente. Já tive momentos na vida assim, em que você relaxa bastante. E comecei a colocar minhas
roupas para sair, e elas não estavam entrando. Nenhuma – calça jeans, aquela saia que você ama… Aí, falei “Vou ter que procurar um endocrinologista para poder voltar a usar minhas roupas”. E foi ótimo porque sempre fui de fazer esportes, sempre tive muita energia, e não tinha mais.

O endocrinologista pediu para que eu fizesse exames, e as taxas não estavam boas. Comecei o tratamento e, em um mês, deixei de comer porcaria, fui aprendendo outras coisas, algumas receitas superdeliciosas: não era só comer folha, até porque eu nunca fui disso, e não iria começar aos 39 anos. Tenho origem inglesa, gosto do chazinho com bolo à tarde, e italiana, gosto de uma boa lasanha, pizza… Não vou deixar de comer as coisas que amo. Mas aprendi a fazer uma pizza trocando só um ingrediente – pode ter o mesmo recheio, a mesma cobertura, só trocando uma coisa. Não deixava de sentir prazer na mesa, mas era bom para o corpo e para a energia. Estava me sentindo superbem, e o resultado dos exames foi ótimo – nunca tive tão bem em termos de saúde quanto hoje.

Minha vaidade é no limite, como a maioria das mulheres, mas o mais importante é minha saúde. Não acho que é beleza a qualquer preço. Tentei me cuidar para ter energia, poder subir numa prancha e surfar com meu filho.

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