Entrevista: Astrid Fontenelle convoca as mulheres a praticarem a sororidade

GNT/Divulgação
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Astrid Fontenelle é da sororidade. E não só porque faz questão de repetir o termo no programa Saia Justa, do GNT, e na entrevista a seguir. É porque, muito antes de sororidade se tornar a nova palavra de ordem do feminismo, a jornalista e apresentadora já era adepta da união entre as mulheres, baseada na empatia e na ajuda mútua. Um exemplo: sabe aqueles desafios da maternidade que poucas mães admitem para si mesmas, muito menos para outras mulheres? Pois ela, que é mãe de Gabriel, sete anos, e sua família de amigas falam abertamente disso e muito mais.

– A gente troca demais informação sobre nossos filhos: não escondemos umas das outras as nossas dificuldades reais. “Ah, mas nunca ninguém me contou isso.” É, mas a gente é mulher de verdade, a gente divide, a gente é da sororidade. Coisas que não eram ditas pelas nossas mães, que deveriam ser nossas melhores amigas. Mas não diziam por quê? Para nos poupar?

Toda semana, é esta a Astrid que as espectadoras recebem em casa para bater um papo sobre questões sobre e para mulheres, alguém que assume posições, questiona e compartilha as próprias experiências para se conectar com o público. E, a partir da semana que vem, a ideia é se aproximar ainda mais: começa nesta terça-feira, em Porto Alegre o projeto Saia Justa Por Aí, em que Astrid e suas três companheiras de programa, Barbara Gancia, Maria Ribeiro e Mônica Martelli, estarão ao vivo em cidades para além do eixo Rio-São Paulo.

– Esta formação do Saia Justa, nasceu da vontade de estar mais perto das pessoas – adianta Astrid.
– Acho que vai ser diferente, como se a gente estivesse fazendo o programa ao vivo, que, aliás, é a minha meta no mínimo para o ano que vem.

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O desafio não é apenas flagrar os temas do momento, que possam fazer diferença, mas saber como abordá-los.

– A maior dificuldade é o nosso recorte: como a gente vai falar sobre, às vezes, as velhas questões, com um olhar Saia Justa, sem preconceito, que vai avançar na discussão e não bater na mesma tecla. Porque falar do que está todo mundo falando desde o TV Mulher não caberia para a gente, né?
Aos 55 anos, Astrid tem um currículo que a coloca entre as grandes apresentadoras da TV brasileira: já tinha passagens pelos programas TV Mix e Mulher 90 quando entrou para a história como a VJ que inaugurou a MTV no país, em 1990, e ajudou a dar a cara do canal que reinventou a cultura jovem. Depois, vieram atrações como Programaço e Melhor da Tarde, na Band, até chegar ao GNT com Happy Hour, Chegadas e Partidas e, desde 2013, Saia Justa.

É nessas garotas que Astrid pensa quando pratica e divulga a sororidade:

– Uma questão é a gente aceitar esse vocabulário feminista e ver que o uso da palavra repetidas vezes e que ações iguais repetidas vão fazer com que um exemplo seja também repetido. E só assim você muda comportamentos.

Time do "Saia Justa": Barbara Gancia, Astrid Fontenelle, Maria Ribeiro e Mônica Martelli |Foto Eliana Rodrigues, divulgação

Time do “Saia Justa”: Barbara Gancia, Astrid Fontenelle, Maria Ribeiro e Mônica Martelli |Foto Eliana Rodrigues, divulgação

 

Na entrevista a seguir, da sororidade à MTV, Astrid faz o que sabe melhor: compartilha a própria história e convida ao debate.

Você se dirige ao público feminino muito antes do Saia Justa. Que avanços tem identificado entre as mulheres?

A Lei Maria da Penha: isso nos une. Vamos fazer uma série, a Saia pelo Mundo e Saia pelo Brasil. Uma jornalista baiana, Rita Batista, vai mostrar projetos que tenham a ver com mulheres empreendedoras e sejam significativos no Brasil, como uma ONG chamada Dentistas do Bem, que tem atendimento gratuito para mulheres vítimas de violência. Eles constataram que o local “preferencial” de os homens agredirem as mulheres é no rosto, na boca, no seio e no ventre. Então, é comum elas perderem os dentes. São duas dores, a psicológica, a mágoa que ela vai guardar, e a física, em que ela olha no espelho e lembra. Que pelo menos a gente cure a física. Esse assunto (violência contra a mulher) me toca muito, passei por isso na minha família, com minha mãe, que foi agredida violentamente por um cara. Quando garota, tomei um tapa de um garoto uma vez, em uma balada, e jurei que nunca mais ninguém iria me bater e que, se me batesse, o negócio iria imediatamente parar em uma delegacia. Eu tinha 16 anos. Este tema me faz mais ainda buscar a palavra nova que temos agora no feminismo, a tal sororidade, mulher junto com mulher.

Fala-se muito de como as mulheres competem entre si, e então surge essa palavra, sororidade, que propõe a ajuda mútua. Sororidade já é uma realidade ou ainda uma meta?

Meta! É meta na hora em que você vê a música pop fazendo sucesso ao falar da inveja da outra, do recalque da outra etc e tal… Sem julgamento moral sobre a canção: são canções pop, passageiras, mas que fazem sucesso e trazem uma representatividade muito grande para uma menina. É esta menina que a gente tem que formar melhor, ensinando a não competir para ver quem tem a roupa mais legal, menos celulite, um namorado mais bonito. Nós quatro (do programa) estranhamos a palavra sororidade, mas é incrível, somos sorores, irmãs… Aí, a gente começou a usar muito no Saia Justa: às vezes, tem coisas que fazemos involuntariamente, só porque a gente é da sororidade. Não é algo “Ah, vamos usar bastante a palavra para que fique na cabeça das pessoas”, não combinamos isso. Mas, quando a gente viu, em todos os programas estava falando pelo menos uma vez na tal da sororidade. É isso que a gente tem que mudar no comportamento da menina, temos que buscar essa irmandade.

Vocês dão opiniões contundentes e se expõem a cada programa. Que tipo de repercussão enfrentam e como é esse grau de exposição semanal?

É bastante puxado, mas acho que cada uma tem uma característica pessoal que a fortalece. A Barbara (Gancia) é muito provocativa, tem esse perfil como jornalista: é a mais cascuda, porque como foi provocativa a vida toda, sempre tomou muito pau. E acho até que gosta, isso a alimenta. A Maria (Ribeiro) é a provocativa para causar, gosta de não ser unanimidade. Ela é sarcástica, e este tipo de humor é difícil, a pessoa tem que acompanhar o raciocínio. A última foi quando ela falou que desconfia de que quem come carne não tem caráter – teve carta no jornal e tudo. E ela disse: “Pelo amor de Deeeeeeus, gente, vocês acham que é isso que eu penso?”. Ela fala para provocar. Sou Nelson Rodrigues: toda unanimidade é burra. Acho bom a gente ter alguém no nosso elenco de quem o telespectador também reclama. Mostra que estamos vivas. Agora, no ano passado, quando a gente ia falar de aborto e eu assumi que fiz, pensamos no que as pessoas iriam falar, o que iria impactar… Já fui a Maria na MTV, 50% me amava, 50% me odiava. Hoje, bem menos. Parece que depois dos 50 ganhei passe livre, as pessoas ficam boazinhas com as velhinhas. E, depois da adoção do Gabriel, as pessoas me colocam em um pedestal, como se eu tivesse feito algo para ser santificada, coisa de que discordo completamente.

Como você avalia a repercussão ao admitir ter feito aborto?

Eu sabia que falar que fiz aborto realmente iria quebrar uns caquinhos da minha imagem. Mas achei que valia a pena, estava de saco cheio de falar de números que a gente não pode dizer quais são, porque a maioria não fala que fez aborto – são números fictícios. Então, tinha que me solidarizar com elas: sororidade. E me preparei para, na noite em que o programa seria exibido, estar nas redes e tomar um sacode. Mas a solidariedade foi do mesmo tamanho do sacode que tomei. Aquilo só me fortaleceu: ouvir pessoas dizendo “Também fiz, sei o que você está sentindo” foi muito mais importante do que as que estavam falando que eu era uma pecadora. Não acredito neste pecado – acredito em Deus, sou católica e não tenho essa mesma leitura. A mulher é uma vítima dessa situação: da falta de educação do país, dos nossos problemas culturais, da nossa falta de diálogo em casa. Não estou dizendo que essas foram as razões que me levaram a engravidar, mas com a maioria é assim. Então, achei o custo-benefício excelente e estou pronta para a próxima causa. Estamos com outra para lançar, em que vamos expor outra menina do Saia. É importante? É importante para a maioria. E isso fez o sucesso dessa formação. Nas outras, sem demérito nenhum, questão de perfil, era muito intelectualizado. A gente tomou outro perfil, o de se expor, de contar as histórias da nossa vida, que são mais interessante, às vezes, mais próximas das outras mulheres, do que as histórias dos livros, dos grandes pensadores. Eles nos ajudam a elaborar as nossas questões, mas, na hora que a gente coloca a nossa questão real e aí embasa com algum pensamento, fica muito sincero. Acho que é por isso que as pessoas gostam há tanto tempo da mesma formação.

Você acha que mais mulheres famosas deveriam usar sua visibilidade para discutir questões femininas e compartilhar experiências?

Acho que sim. Lá atrás, uns 20 anos, teve uma capa da Veja (sobre aborto) com a Hebe, a Marília Gabriela… (entre outros nomes, estavam também Cissa Guimarães, Cássia Kis e Elba Ramalho). Pô, de 20 anos para cá ninguém mais fez aborto, só eu? Só assim a gente pressiona, aproxima, faz com o que o número real apareça e que a lei mude. Gente, é básico: do meu corpo cuido eu. Existem clínicas clandestinas a dar com pau. Estou longe desse universo há muito tempo, mas sei onde ficam aqui em São Paulo. Começa a puxar esse assunto… Médico denunciando garota – uma garota! – que fez aborto, o que é isso? Esta é apenas uma das questões em que a mulher corre risco nesse caminho de extrema direita que o Brasil está seguindo.

Astrid e Gabriel em registro no Instagram

Astrid e Gabriel em registro no Instagram

Vira mexe, discute-se o quanto as mulheres podem contribuir para a igualdade de gênero ao educar seus filhos. Como tem sido a educação do Gabriel nesse quesito?

Sou uma excelente mãe de menino. Tenho dupla responsabilidade: criar um ser humano melhor para a humanidade, sendo gentil, generoso, íntegro, honesto, e um homem que tenha um olhar muito cuidadoso e especial para a mulher. Ele gosta muito de meninas, já é uma espécie de protetor delas na sala de aula: se um garoto vai lá e bate em uma menina, ele vai tirar satisfação. E tem uma coisa de gentileza com as meninas e comigo, de segurar a porta, ajudar a carregar algo mais pesado. Ao mesmo tempo, ele vê a minha amizade com mulheres. O Dia das Mães aqui em casa foi com uma belga, que tem a mãe na Bélgica; uma amiga baiana que recebeu a ele e a mim quando nos encontramos em Salvador e que tem filhos adultos e veio para cá; outra que a mãe estava em Uberaba e eu que não tenho mãe viva. E falamos como é bonita essa amizade entre mulheres. Mesmo sem ter falado de sororidade, estava passando isso para ele. Gosto das coisas claras para ele. Não gosto de brincar, algo que é comum nessa idade, que ele namora. Nessa idade, não tem nada de namorar. Ele é BFF, como eles dizem, best friend forever, da menininha de quem gosta. Não vou criar as crianças na ideia de que homem e mulher só podem estar juntos se tem sexo no meio. Eles são amigos e podem estar juntos em tantos caminhos. Então, crio ele assim.

Ainda há muito avançar nesse quesito?

Estamos avançando, da Maria da Penha à educação dos meninos, mas ainda falta muito mais. À medida que as indústrias de brinquedo fazem panelinha cor-de-rosa para menina e não fazem para menino, é difícil. Mas já melhorou: tem panelinha prateada. Gabriel com dois anos de idade queria uma Barbie, e foi um caso na sala… Vai dar, não vai dar, eu querendo saber como me comportar nesta questão. Mas a maioria das mulheres dizia: se eu chegar em casa com uma Barbie para o meu filho, meu marido me mata. Ó como está a linguagem? Primeiro, ele não vai te matar, vamos mudar esse lugar-comum. E dei, né. Óbvio que dei.

Como seu marido lida com Gabriel nessas questões de igualdade de gênero?

O maior ensinamento que Fausto (Franco) passa para o Gabriel é o amor. Tem uma coisa na nossa casa que é assim: “Vamos não sei onde. Fausto, se não quiser tudo bem…”. E ele fala: “Vamos, a gente é uma família”. E o Gabriel já responde às vezes isso: “Vamos, porque a gente é uma família”. E o amor por mim. Meu marido está agora na Bahia e é certo que ele vai chegar com uma orquídea e um cartão em que estará escrito algo muito parecido com o último, mas vou achar lindo mesmo jeito. O Gabriel cresce vendo isso: é a maior lição que você tem, na prática, para dar a uma criança, o amor entre o homem e a mulher, entre uma família. Ele tem um lar muito tranquilo e sossegado, com muito respeito. Tudo na nossa casa é mostrado na prática: nunca falamos para ele o que é gay. Temos amigos gays, ele já foi a casamento gay. Para que ficarmos explicando a diferença para um casamento de homem e mulher, se para nós é igual? Quando ouvir alguém falando algo preconceituoso, ele vai pelo menos refletir: “Não é assim que vejo fulano e sicrano, amigos da mamãe”.

Você falou em entrevista sobre a importância de as mulheres também exigirem suas diferenças, especialmente no que diz respeito ao trabalho, e de como priorizou um emprego em que pudesse ter mais tempo com o Gabriel. Como é sua rotina e seu tempo?

Não sirvo como exemplo, sempre falo para outras mulheres: “Não se culpe por minha causa, porque minha vida foi diferente, sou uma privilegiada”. Eu me dei esse tempo, pude parar de trabalhar quando quis para ter o Gabriel e ficar o tempo que quis com ele. Até pouquíssimo tempo, não fazia nada na hora do almoço para ficar com ele. Escolhi trabalhar no GNT, em uma TV fechada, para ter esse tempo para ele. Mas sou muito solidária à mulher que luta por creche nas empresas, pela licença-maternidade e paternidade, pelo menos de um mês (a presidente Dilma Rousseff sancionou a lei que permite que as empresas possam ampliar de cinco para 20 dias a duração da licença-paternidade). Tem que trocar fralda, sim, embalar, ir ao supermercado porque é muita tarefa.

Você compartilha a experiência da adoção no programa e em entrevistas e, como disse há pouco, não vê sentido em ser canonizada por isso. Como avalia o impacto positivo de ter mais gente falando sobre esse assunto?

Se esta é uma bandeira, é a mais importante da minha vida, porque modifica a vida de um ser humano que sofreu um dolo terrível – crianças abandonadas porque têm uma doença, porque foram vítimas de uma violência extrema… É muito doloroso ver a situação dessas crianças, mas, ao mesmo tempo, não é caridade. Eu queria muito ter um filho e não queria ficar grávida. Meu método foi esse. A única coisa que você tem que ter é uma vontade verdadeira de ser mãe e pai. Então, falar sobre isso, dentro desse universo imenso que é a adoção, lutar por algumas questões… Por exemplo: uma certa revista de celebridades toda vez que botava minha foto com o Gabriel por bobagem (dizia que ele era adotado) – a última foi “Astrid passeando com seu filho adotivo no shopping”… Por quê? Quer que eu mostre o documento? Ele é meu filho. Não interessa se foi por inseminação artificial, se foi adotado… Mas sei que o adotado ganha um olhar mais generoso, bonitinho: “Nossa, como ela é boa, até adotou uma criança”. Então, briguei com esta revista junto com outras celebridades: “Não vamos fazer mais nada, e na próxima vez vamos fazer uma coisa judicial real contra vocês”. Pararam. Não me incomodo de falar sobre adoção. Falo quantas vezes quiserem. Agora, para falar que estou passeando no shopping ou que é aniversário do meu filho, por que tem que estar no título que ele é adotado? Ou no corpo da matéria? Não fiquem querendo vender revista só adjetivando meu filho desta forma. Ao mesmo tempo, outro dia encontrei com uma promotora de São Paulo, que veio me agradecer pela clareza e pela tranquilidade com que falo e (dizer) que efetivamente aumentou o número de adoções aqui depois de mim. Não vou nunca acreditar que foi por mim, mas há uma atitude crescente de pessoas que adotam estarem mais abertas a falar sobre isso. Sou de uma geração em que as pessoas escondiam seus filhos adotados, agora mostram.

Astrid em tempos de VJ na MTV

Astrid em tempos de VJ na MTV

Você sempre fará parte da memória afetiva da fase áurea da MTV no Brasil. Como foi essa experiência?

Mudou a cultura jovem brasileira. Eu era a mais velha da MTV, para você ter ideia. Éramos um bando de jovens apaixonados por juventude, música e comportamento jovem, trabalhando com esse grande material. A gente fazia com o sangue, com DNA, isso não tem preço. A gente nem precisava de muitos recursos. Já mais no final, quando fui gerente de jornalismo, tinha um repórter que sumia uns dois, três dias: era o cara que ficava indo nos guetos, nos becos, daqui a pouco estava no Sul, no Rio, mas voltava com uma fitinha do Planet Hemp, do Skank. Era responsável por um quadro chamado Banda Antes (que apresentava bandas novas): ele passou por todo mundo dos anos 1990. Olha o custo-benefício disso? Esses dias, um garoto de uma dessas bandinhas estouradas não sabia quem eu era. Aí, o outro guitarrista disse: “Como você não sabe quem ela é? Cara, minha mãe via MTV o dia inteiro, eu sei que ela foi a primeira VJ a entrar no ar”. Para mim, isso é muito valoroso: acho que foi o melhor período da minha vida profissional, o mais criativo, em que mais pude proporcionar a outras pessoas conhecimento, aprendizado. Muita gente se formou profissional de televisão na MTV, muitos que hoje são gente grande foram estagiários lá. Até hoje tenho fotos da MTV na parede.

Você segue em contato com aquela turma?

Agora fizemos 30 anos de MTV. Um dia, o Zeca Camargo – que é meu amigo, a gente se vê direto – me disse: “A gente precisa fazer alguma coisa, um jantar lá em casa…” “Na sua casa, mas você vai chamar quantas pessoas? Dá para chamar uma galera.” Eu estava gravando a última externa do programa Chegadas e Partidas. Olho para o assistente de câmera, que também é produtor de festas: “Cauê, arrumei um trabalho para você, é beneficente, não remunerado, mas vai entrar no seu currículo de uma forma magnífica. Você vai fazer a festa dos 30 anos da MTV, mas a gente não tem dinheiro, quer tudo de graça e não ter de pagar jabá para ninguém”. Durante a gravação, ele já descolou o lugar e a bebida, sem a gente ter que fazer nada, todo mundo dando de graça, tanta gente que cresceu e se criou com a MTV… Aí, uma noite, juntei em casa um grupo de meia dúzia com uma memória… Eles foram fazendo a lista e a gente automaticamente ia encontrando no Facebook. Criei um grupo de WhatsApp com 90 nomes. E teve o final da MTV, há uns três anos, que nos uniu bastante. O diretor na época, o Zico Goes, me ligou e disse que queria chamar os VJs para gravar depoimentos. Eu disse que topava, mas que, no dia da última transmissão, queria ser a última a aparecer no ar. “Eu abri, quero fechar.” A partir daí, fomos fazendo uma coisa crescente, até que, no dia do fechamento da MTV, nós todos nos encontramos no prédio da MTV e o encerramento foi feito lá. Gente que trabalhou na MTV, que estava vendo pela TV, não resistiu e foi para lá também. Já vi nego comemorar abertura de televisão, mas estar lá fechando, em uma celebração à la Zé Celso Martinez Corrêa, nunca vou ver. Minha última imagem na MTV sou eu abraçada com o Marcos Mion chorando. Estou muito bem, obrigada, onde estou, mas a gente estava lastimando esta perda.

A cada nova idade, a gente vai reinventando como é ter 30, 40, 50 anos… Como foi se inventar aos 50?

Os 40 são os mais significativos. Toda garota aos 20 se imagina como será aos 40, com a idade da mãe. Aos 20, me via aos 40 mais executiva, mais do terninho. Hoje, adoro um terninho, faço muito evento corporativo, mas é um terninho branco com tênis. Se você quiser ver como me projeto aos 60, 70, tenho uma página no Pinterest que chama “Para quando eu envelhecer”: me vejo com cabelo colorido, cheia de acessórios… Não me vejo uma velhinha. O mundo mudou nesse quesito para melhor, a gente sabe que vai viver mais, com qualidade de vida e liberdade de expressão. A gente tem a liberdade de escolher o que quer fazer. Esses dias, vi uma matéria sobre o Uruguai e a liberação do plantio de maconha: tinha uma senhora de uns 70 anos que começou a cultivar maconha e curou as dores nas articulações fazendo chazinho: pronto, arrumei o que fazer quando for velha, estou cheia de dor! Quero um chazinho para mim! Então, a gente tem essa liberdade hoje, foi uma conquista e tanto. Não sei a que geração a gente tem que agradecer. Acho que à minha mesmo (risos).

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