Entrevista! Autora best-seller, Rita Lobo defende que qualquer um pode aprender a cozinhar

Na contracapa de seu mais novo livro, Cozinha Prática, Rita Lobo provoca: Você conhece alguém que faz risoto, mas não consegue preparar o arroz soltinho? Fica na dúvida entre usar alecrim ou manjericão na receita? Tem medo de assar pão em casa?.

Se você, como eu, respondeu três vezes “sim”, está na mira de Rita, a ex-modelo que se tornou uma das maiores vendedoras de livros de gastronomia no país, à frente do site, produtora, editora e plataforma de vídeos Panelinha, que completou 15 anos em 2015, e do programa Cozinha Prática com Rita Lobo no GNT. A paulistana de 41 anos promete: “Este livro vai mudar sua vida”. Para fazer tamanha diferença na mesa alheia, impõe-se algumas missões: 1) desfazer a ideia de que saber cozinhar é um dom que se tem ou não, provando que todos podem – e devem – aprender; 2) valorizar os hábitos e a culinária do país e 3) alertar que nem tudo o que vem embalado merece ser chamado de comida. E não falta quem a acompanhe nessa jornada, como ela conta por telefone: mulheres, homens, gente que cozinha porque precisa e gente que acredita que precisa cozinhar para viver melhor.

— O que eles (leitores e espectadores) têm em comum é o entendimento de que a alimentação precisa ganhar mais prioridade na nossa vida — destaca.

VÍDEO! Rita conta qual o prato coringa para quem não sabe cozinhar

Foi assim com a própria Rita que, como eu e talvez você, nunca havia demonstrado uma vocação especial para a cozinha até de fato decidir se dedicar às panelas. Ela primeiro ficou conhecida como a jovem modelo de cabelos encaracolados que estampava capas de revista no início dos anos 1990 e chegou a estrelar um programa de moda na MTV, o MTV a Go Go – para tristeza dos curiosos, os sites de busca rastreiam poucas imagens da época. Um dia, aos 18 anos, decidiu encerrar a carreira de modelo e matriculou-se em um curso de gastronomia em Nova York, nos Estados Unidos. Logo descobriu que, quase tanto quanto cozinhar, adorava passar adiante o que aprendia.

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E aí surgiu a Rita como a conhecemos hoje, dedicada a disseminar a ideia de que quem cozinha come melhor – e ainda economiza. A partir da experiência de trabalhar e cozinhar para a família, a mãe de Gabriel, 13 anos, e Dora, 11, tornou-se referência em como preparar o jantar de hoje já de olho em formas de aproveitar as sobras e adiantar o almoço de amanhã. Mas tudo sem radicalismo: mesmo firme no propósito de cozinhar com menos pompa e servir com menos cerimônia, ela relativiza seu maior bordão, o “Desgourmetiza, bem!”.

— A única coisa do universo gourmet que me incomoda é quando a comida de fora é sempre melhor — diz Rita. — Temos de valorizar nossas comidas, nossos ingredientes e, especialmente, nossos hábitos. São os hábitos alimentares regionais que protegem a gente contra a comida industrializada e o fast-food.

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Na entrevista a seguir, a apresentadora explica por que aprender a cozinhar pode mudar a sua vida – e a de sua família. E decreta: pilotar o fogão deveria ser tão obrigatório e importante quanto ler e escrever.

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“É fato: perdemos as habilidades culinárias”

Donna – Em Cozinha Prática, você promete que vai mudar a vida do leitor. Todos podem ter esperança na cozinha?
Rita Lobo – Todos. Quem me acompanha há algum tempo me ouve falar: digo muito que cozinhar é como ler e escrever, todo mundo deveria saber. Mas há uma segunda leitura disso: você não nasce sabendo ler e escrever, vai para a escola para isto. E aí ou você pode virar jornalista e escrever bem ou, sei lá, ser uma pessoa que mal redige um e-mail direitinho. Na cozinha é a mesma coisa. Claro que há gente que tem dom para cozinha e cozinha melhor do que os outros, mas esta pessoa também aprendeu. A gente tem a ilusão de que cozinhar é uma coisa mágica, transmitida pelas avós em um sopro (risos), e não é verdade. No Brasil, olhamos por tanto tempo com desdém para a cozinha, como coisa de empregada ou de mulher desocupada, que não nos demos conta – e agora começamos a nos dar – de que é uma ferramenta para uma vida melhor, mais saudável e saborosa e que, sim, algo que se tem de aprender.

Donna – Você lembra que há muita gente que faz risoto e não consegue fazer um arroz soltinho. Em que momento a tradição da culinária caseira perdeu espaço?
Rita – Isso não aconteceu só no Brasil. Tem alguns pontos: o mais importante é que a mulher precisou parar de cozinhar para ganhar o mercado de trabalho. É complicado mesmo trabalhar, cuidar da casa, dos filhos e fazer café da manhã, almoço e jantar. Diria que é quase impossível. E a indústria alimentícia quer que a gente acredite que não precisamos cozinhar, que eles dão tudo pronto para a gente. Em termos de saúde, sabemos que é uma grande mentira: a saúde da pessoa está diretamente ligada à alimentação saudável, feita em casa. Não é só alface, é churrasco, arroz de carreteiro, mas feito em casa. De alguma forma inconsciente, a gente sabe que precisa cozinhar: então, virou uma moda, que se faz no fim de semana, para não perder completamente essa ligação com o trivial, do bolinho fofinho, o arroz solto, o feijão bem temperado. É fato: perdemos as habilidades culinárias. Então, ainda bem que virou moda, que as pessoas se interessam por fazer um risotinho especial para receber o amigos porque é uma deixa para dizer: “Tá vendo que você consegue fazer o risoto?”. Se aprender a cozinhar, consegue fazer mais coisas, o que é bom não só para a saúde, mas para a casa, a família e a economia. A gente gasta menos, se fizer as contas.

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Donna – Acabamos voltando à culinária caseira depois da onda gourmet.
Rita – A onda gourmet ajudou a colocar a mesa de casa na pauta. Vejo com bons olhos. Como eu tenho essa coisa de falar “Desgourmetiza, bem”, as pessoas acham que tenho algo contra, e não tenho. Só acho que ninguém consegue viver só de comida gourmet.

Donna – Quais os mitos e os medos das pessoas até entrar na cozinha?
Rita – Se de fato você não tem intimidade nenhuma com a cozinha, acha que macaxeira e aipim são coisas diferentes (risos), entrar na cozinha é um pesadelo. Nosso trabalho no Panelinha, seja no site, nos livros, no programa Cozinha Prática é dizer: não é que você vai perder o medo de cozinhar, você vai aprender a cozinhar, e as coisas vão ficar mais fáceis. E acho que temos tido sucesso nisso. Na turnê de lançamento do livro os depoimentos são unânimes: as pessoas vêm falar sobre como não imaginavam que aprender a cozinhar seria algo transformador na vida delas e da família.

Donna – Como foi transformador para você?
Rita – Para mim, foi além da conta, virou minha vida. Tem uma coisa curiosa: não cresci em uma cozinha vendo minha mãe cozinhar – ela é dessas mulheres que não sabe cozinhar. Acho, inclusive, que foi criada para não saber. E eu também: não tive uma educação de “Minha filha, você tem de saber cozinhar”, bem ao contrário. Quando já tinha quase 20 anos, estava procurando ver o que fazer quando crescer (risos), decidi fazer um curso de gastronomia.

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Donna – Você já tinha deixado a carreira de modelo?
Rita – É engraçado, minha carreira de modelo é presente só para quem tem uns 40 anos. O público do Panelinha se surpreende: “Não acredito, você foi modelo!”. Foram três anos, e, quando fiz 18, decidi parar porque queria achar uma profissão que não tinha aquela sensação de profissão de férias (risos). Nesse momento, em que estava pensando no que fazer, tive vontade de fazer um curso de gastronomia, menos como uma opção de carreira e mais um investimento para a vida.

Donna – Você já sabia cozinhar naquele momento?
Rita – Até então, cozinhava bem pouco. Tinha uma ou outra coisa que sabia fazer. Morei sozinha uns tempos modelando, então um basiquinho, uma sopa, um grelhado, um mata-fome, eu sabia fazer. Da infância, o que eu sabia quando era pequena era bolo, algo que tinha aprendido e de que gostava. Aí fui ver escola e descobri uma muito legal em Nova York e fui fazer esse curso. O que foi transformador para mim é ter descoberto que gostava muito de contar para as pessoas o que estava aprendendo. Das minhas amigas, na época, não tinha ninguém interessada em cozinha, e eu dizia: “Gente, sabe aquele ovo poché que a gente come no fim de semana? Aprendi a fazer e é super simples!”. Quando você não sabe cozinhar e faz um prato especial, é uma sensação de vitória e naquele momento eu tinha vontade de que todo mundo soubesse. Foi transformador no sentido de que mudou minha vida e de que eu gostaria de estender esse aprendizado para as pessoas.

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Donna – Você diferencia comida de verdade de produto alimentício.
Rita – Comida de verdade pode parecer um clichê, mas tem uma diferença. A comida de verdade é aquela que você compra os ingredientes minimamente processados e transforma por uma preparação culinária. Quando você tira da embalagem, põe no micro-ondas e aquece ou coloca em água fervente e um pozinho, não é comida de verdade, não deveria nem ser considerado comida (risos).

Donna – Com todas as premissas e considerando quase impossível uma mulher que trabalha fazer café, almoço e jantar das crianças, como você se organiza?
Rita – Brinco que o Panelinha é o único lugar em que as pessoas levam a marmita do trabalho para casa. Minha relação com comida no dia a dia é muito diferente da das pessoas. Em nosso escritório, temos cozinha de testes, outra onde são gravados os programas, o acervo, a redação e estou em contato com comida o dia inteiro – e levando comida para casa. Mas, quando meus filhos eram bem pequenos, até por opção minha, trabalhava em casa e vivia muito esse dia a dia de chegar às 18h e pensar o que seria o jantar – e jantar de criança pequena é diferente do de adulto… Isso me deu um entendimento de cozinha doméstica que muito dificilmente quem não passou por isso vai entender. É o que eu chamo de ponto da multiplicação: planejar o almoço já pensando em algo que se dê uma adiantada para o jantar, como aproveitar (as sobras) em uma receita que não fique com cara de “já te vi”. Isso vem de uma experiência minha, hoje potencializada porque tem uma equipe só pensando nessas coisas comigo.

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Donna – E o almoço de domingo na sua casa?
Rita – No final de semana, boto meu marido (Ilan Kow, seu parceiro no Panelinha) para cozinhar (risos). Ele gosta de cozinhar, e saquei que, na cozinha, eu mais atrapalho do que ajudo (risos): se estou do lado, ele fica me perguntando; se não estou, faz do jeito dele, e isto que é legal. Ele gosta muito de experimentações, mais para o lado do Oriente Médio, com mais especiarias, receitas mais elaboradas. Tem um livro que lançamos ele usa muito como base no final de semana.

Donna – Com o Masterchef Júnior tem se falado bastante do envolvimento de crianças nas cozinha. Como é com seus filhos?
Rita – Acho o Masterchef um absurdo, um pavor. Cozinha é negócio muito sério para virar competição de criança. As crianças têm que ser envolvidas na cozinha de acordo com as possibilidades e limitações delas e sempre com muita supervisão com o intuito de criar uma relação boa com a comida, entender que alimento é fonte de prazer e não o inimigo.

Donna – Há essa visão da comida como inimigo?
Rita – As pessoas fazem tanta dieta, tanto “isso pode e isso não pode”, sem glúten, sem lactose, sem carboidrato, que a comida, que deveria ser fonte de prazer e saúde, vira o inimigo. Criança na cozinha é desejável, para ir criando uma relação saudável e entendendo a diferença entre lasanha congelada e um molho à bolonhesa que leva quatro horas para ser feito e, por isso, o sabor é inigualável (risos).

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Bate-pronto

Ingredientes obrigatórios: Frescos, in natura.

Utensílio indispensável: Quanto mais básico, melhor tem que ser a qualidade. Facas, panelas, tábuas para os essenciais. Minha preferência é sempre por materiais naturais. Fujo do plástico.

Um chef: Nigel Slater

Um restaurante: Rules, em Londres. Uma viagem no tempo.

Uma bebida: Só uma?

Um programa de gastronomia na TV: (Saída pela direita…) Ir jantar no Fasano, um bom programa.

Um prato da culinária gaúcha: Adoro sagu com nata.

O que não merece entrar em uma cozinha: Comida pronta, ultraprocessada, como lasanha congelada ou nuggets, temperos prontos, como caldo industrializado ou molho de tomate.

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O que a Rita é para nós

Tatiana Tavares, Destemperados

Leve, informal e com uma fala próxima da vida real. Não é à toa que Rita Lobo faz um estrondoso sucesso nos programas de TV, nos livros, no blog e em qualquer plataforma em que atua – a ponto de lotar suas sessões de autógrafos como poucos da área gastronômica conseguem fazer. Na semana passada, ela esteve em Porto Alegre autografando seu novo livro. A quem foi até lá, impressionou a fila que se formou.

De modelo a cozinheira inspiracional de uma geração de mulheres na faixa de 20 a 40 anos, Rita nos mostra que não precisamos ser oito ou 80, que podemos sair do guisado com cenoura e chegar a uma receita bacana mas que não tenha nada de frufru. E provavelmente é essa característica que faz dele um sucesso, somada, claro, ao carisma de Rita. Ela torna o mito do bolo de cenoura perfeito algo factível. E isso, para uma legião de pessoas que não foi treinada nos dotes domésticos, tem uma certa magia.

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Mesa farta

Rita já vendeu mais de 300 mil livros. Seu mais recente é Cozinha Prática um “intensivão” para quem quer aprender o básico dcozinha, com 60 receitas e dicas de técnicas, utensílios e afins. Editora Senac, 304 páginas, R$ 79. No total, publicou 10 títulos: lançou seis e editou quatro de outros autores. 

 

Suas duas contas no Instagram somam mais de 500 mil seguidores: Editora Panelinha e Rita Lobo. A página do Panelinha no Facebook tem mais de 164 mil curtidores.

 

 

 

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