Entrevista: Alexandre Herchcovitch fala sobre a parceria com o marido na marca À La Garçonne, filhos e liberdade criativa

Foto: André Schiliró, divulgação
Foto: André Schiliró, divulgação

Ele é um dos criativos mais importantes da moda brasileira. É o estilista que deixou a marca que leva seu nome para se reinventar. É o marido e parceiro nos negócios de Fábio Souza. E o pai de Ben e Fernando. Alexandre Herchcovitch, contudo, dispensa apresentações.

Em mais de 20 anos de carreira, este paulista de 45 anos sempre foi protagonista. Do underground às passarelas das grandes semanas de moda, com um estilo próprio, combinou transgressão e design sofisticado. E ainda se espalhou pelas vitrines em coleções de produtos licenciados, de tapete a óculos. Em fevereiro de 2016, surpreendeu o mundo da moda ao anunciar que não estaria mais à frente da marca Alexandre Herchcovitch. Mas já em abril do mesmo ano lançava uma coleção, agora como estilista da À La Garçonne, marca criada por Fábio em 2009 como brechó e antiquário. E então, mais do que nunca, abraçou a sustentabilidade, convertendo materiais reciclados e usados em peças-desejo.

Donna bateu um papo com Herchcovitch em evento de moda promovido pelo Senac Farroupilha. Ele falou do novo momento na ALG, da parceria com o Fábio e, claro, de Ben e Fernando, as estrelas da página do estilista no Instagram, em fotos fofas, acompanhadas da hashtag #famíliasouzaherchcovitch.

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Fotos: divulgação

A À LA GARÇONNE AJUDA A TRAZER PARA A PASSARELA O TEMA DA SUSTENTABILIDADE. QUAL É O DESAFIO DE PENSAR O PROCESSO CRIATIVO E SER REFERÊNCIA NESSE QUESITO?

Estou tratando não porque este tema está na moda ou porque foi trabalhado na SPFW, mas porque a À La Garçonne (ALG), que é uma marca que já existe há 10 anos, começou como um brechó e depois virou um antiquário. Com a minha saída da marca Alexandre Herchcovitch, assumi como estilista, começamos a fazer a parte de roupas. ALG é uma marca que não tem nem um ano e meio. O Fábio (Souza, marido de Herchcovitch), dono da ALG, sempre acreditou em não descartar nada que existe no mundo em móveis, em roupas, e sempre reusar e dar um novo significado. Isso ele sempre praticou nestes 10 anos. Quando entrei para fazer roupa, precisei seguir esses padrões também. Hoje, na ALG, a gente confecciona roupas novas com tecidos novos, a maioria reciclados que a gente encontra, ou não reciclados. Também damos um novo significado a peças usadas, transformando-as. Ou compramos roupas usadas, desfazemos a peça e usamos o tecido para fazer roupas novas. São modalidades bem livres de confecção.

VOCÊS TROUXERAM ATÉ PLÁSTICO VERDE NA ÚLTIMA SÃO PAULO FASHION WEEK.

É um plástico que vem do bagaço da cana de açúcar, que me fez de uma hora para outra pesquisar sobre esse assunto. Eu entendia de reciclagem, de reuso ou de sustentabilidade como um cidadão comum, e não como uma pessoa que agora tem que trabalhar com isso no dia a dia. Estamos atentos, e as pessoas também estão atentas a nós e oferecem muita coisa.

E COMO FOI PARA VOCÊ ENTRAR NESSE UNIVERSO DA SUSTENTABILIDADE?

Na minha família, sempre aplicamos por uma questão de valores até. Na nossa casa, os móveis são todos usados, eu sempre comprei muita roupa usada. Para mim, isso é um assunto normal, sabe? Economizar água nunca alguém precisou me alertar na vida. A minha personalidade já pensava deste jeito.

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Fotos: divulgação

A ÚLTIMA COLEÇÃO DA ALG FOI A MAIS APLAUDIDA DA SPFW, E TALVEZ SEJA A QUE MAIS CARREGA SEU DNA, COM ELEMENTOS COMO FETICHE, ESQUELETOS E A VIBE DARK.

Na verdade, é bom dizer que sou o estilista da marca, mas o Fábio, que é o dono, dá vários inputs comerciais e de estilo. Por mais que eu tenha mais notoriedade do que ele e as pessoas confundam, acham que a ALG é minha, ou que sou sócio, eu só trabalho lá. Vários destes inputs desta vez vieram dele, mas por coincidência já trabalhei estes temas de que você falou com muita propriedade.

(Interrompe a entrevista para atender os filhos ao telefone)

Benzinho, o papai teve de trabalhar e não era em São Paulo, era em outro lugar. Cadê o Fernando? Manda um beijinho pra ele. Estou trabalhando, filho. Foi na natação?

COMO FUNCIONA ESSA TROCA ENTRE VOCÊ E O FÁBIO?

Ele tem uma visão do que quer para a marca dele, e eu tenho a experiência de trabalhar há mais de 20 anos com moda e no mercado de moda do Brasil. Para mim, é uma experiência ótima e não diferente de outras que já tive quando trabalhei com outras empresas. Ele fala “vamos fazer”, e eu falo “vamos”. “Mas como vamos fazer diferente? Qual vai ser o jeito da ALG? O que funciona?” E isso com alguma propriedade por já ter trabalhado muito tempo com roupa. É bom, é uma posição diferente para mim. Sempre fui diretor, dirigi uma equipe, hoje estou sendo dirigido. Para mim, é um trabalho. Continuo exercendo minha criatividade, que é o que me mantém nos lugares. Quando posso exercer livremente a minha criatividade, para mim está bom.

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Foto: Instagram, reprodução

A RESSIGNIFICAÇÃO DOS MATERIAIS TAMBÉM É UM DOS NORTES DE VOCÊS. COMO É A ESCOLHA DO QUE SERÁ USADO NAS COLEÇÕES?

A gente faz uma pesquisa em cima do que o consumidor vai comprar. É uma marca que tem um direcionamento comercial violento, fortíssimo. O que o Fábio pede é que tudo que a gente desenhe e coloque na passarela tenha desejo de consumo imediato. Tem dado resultado. Temos feito a maioria da coleção pronta para consumir no dia do desfile, em see now, buy now. As pessoas têm consumido e a gente tem conseguido produzir a tempo para atender à demanda. É esse o input: fazer uma roupa que tenha desejo imediato de consumo.

A ALG JÁ TEM HITS COMO AS PARKAS PINTADAS À MÃO, QUE VIRARAM FEBRE. COMO É O DESAFIO DE PENSAR EM PEÇAS DESEJO E QUE TENHAM ESSE FLERTE COM O VINTAGE E A SUSTENTABILIDADE?

O see now, buy now, ou o consumo imediato, é um movimento que está em estudo, não algo que esteja consolidado ou que se tenha certeza que é esse o modelo a ser seguido. Tem muitas pessoas que questionam, porque você tem que produzir e estocar por antecipação, sem saber se aquele produto vai ser aceito ou não. É um perigo, você pode investir muita grana em uma coisa errada. Quem produz antecipadamente e vende a partir do desfile tem que ter muita cautela, entender do seu público e fazer uma composição de preço muito assertiva para não gerar estoque. Mais na ALG a gente detesta gerar estoque porque significa que tem alguma coisa parada, estocada. Somos muito precisos na hora de escolher o que colocar para vender.

VOCÊ JÁ CRIOU DIFERENTES COLEÇÕES EM PARCERIA COM MAGAZINES E LOJAS. COMO É O PROCESSO PARA CRIAR EM PARCERIA COM OUTRAS MARCAS?

São coisas que eu acredito. Independentemente da marca em que eu estiver, acredito muito nessas colaborações onde duas expertises diferentes se juntam: o design com a fabricação. Desde que fiz a primeira colaboração, há 15 anos, sempre entendi que você não consegue fazer bem tudo, então você se junta com alguém que faz melhor do que você e alia as duas tecnologias.

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Foto: Instagram, reprodução

E DEIXA A MODA MAIS ACESSÍVEL.

Isso é perfeito, porque muita gente pode querer ter um produto, mas não saber como comprar, ou admirar uma marca e não ser para o bolso dela. Quando você faz produtos em maior escala, consegue atingir mais pessoas e, por consequência, democratizar os estilos. Acho demais.

FALANDO EM PARCERIA, UMA DAS ÚLTIMAS NOVIDADES É SUA COLEÇÃO INFANTIL COM A PUC. PARA VOCÊ, QUAL A IMPORTÂNCIA DE CRIAR ROUPA SEM GÊNERO, PRINCIPALMENTE PARA CRIANÇAS?

Quando fui chamado para fazer a coleção, perguntei: “E para as meninas?”. E eles me disseram que achavam que eu conseguiria agradar a todo mundo. É uma coleção pensada para os dois. A camiseta, por exemplo, é um pouco mais comprida. Fica ótima no menino, mas, se a menina quiser usar como minivestido, ela pode. A modelagem dá nos dois. A maior importância é que a criança tenha contato com um produto que não está previamente dito se é para menino ou para menina. Não tem a classificação por cor ou por forma, é para quem gostar, não importa o gênero. O gênero está em outro plano ali, estamos falando do gosto de uma pessoa, independentemente se é menino ou menina.

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Foto: Instagram, reprodução

ALIÁS, O TERMO GENDERLESS ESTÁ MAIS EM ALTA DO QUE NUNCA. COMO VOCÊ VÊ ESSA TENDÊNCIA E O QUE VIRÁ POR AÍ?

Os corpos são diferentes: o homem não tem peitos, a mulher tem mais curvas. Não acho que vá haver 100% de moda sem gênero. Você, como mulher, pode comprar uma camiseta de homem larga e usar, mas, quando quiser usar um sutiã ou corpete, não vai comprar em uma loja masculina. A única diferença entre homem e mulher é a forma do corpo, não outra coisa. Quando você for usar uma roupa justa, que imita o formato do seu corpo, não consegue isso comprando a roupa do outro gênero. Quando se fala de moda agênero, é sempre uma roupa mais larga, com mais cara de masculino, mas eu não acredito e nem acho que a moda deva ser 100% agênero. O melhor é que tenha de tudo.

UMA DAS GRANDES DIFICULDADES DOS CRIATIVOS É EXERCER TAMBÉM O PAPEL DE EMPRESÁRIO. COMO FOI PARA VOCÊ TRANSITAR ENTRE ESSES DOIS PAPÉIS?

Continuo nas duas frentes, porque, além de ser o estilista da À La Garçonne, também sou diretor de novos negócios. De uma certa maneira, estou usando 100% da minha expertise para fazer crescer a marca. Além de estar à frente do estilo, também vou em busca das parcerias que você citou. Hoje, eu divido muito com o Fábio. Não estou completamente só, sempre trabalhei com a minha família. Sigo exercendo as duas partes.

COMO É TRABALHAR COM O FÁBIO?

É delicado, porque somos casados há 10 anos e trabalhamos juntos há um ano e meio na À La Garçonne. Temos de saber dividir muito bem. Tem milhares de casos no mundo de pessoas que trabalham juntas, em família: mãe e filha, marido e mulher, irmão com irmão. Essas relações são mais íntimas do que patrão e empregado, então você tem que ter o seu tempo como família. Tem que saber dividir, não levar coisa de casa para o trabalho. É muito fácil confundir, e isso pode atrapalhar uma das duas relações.

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Foto: Carolina Grossini, divulgação

COMO É O ALEXANDRE PAI?

Na verdade, o que me moveu a adotar foi a vontade de ser pai. Sempre tive e me senti preparado agora. Os meus filhos estão comigo há três anos. Senti isso há uns cinco anos, quando começou o processo. Pensei que era a hora. Nós somos pais bem rígidos. Damos vários limites para eles, e para mim isso que é educar. É saber dar limites, é falar não, é não ceder. É bem difícil educar e ser pai. Só tem coisas boas, mesmo com essa dificuldade de dizer não e dar limites. Às vezes, você fala que não pode, mas, no fundo, pensa que poderia, e abre um precedente. Dói um pouquinho, mas, quando você vê que seu filho entende por que não come carne, por que não come açúcar, não só porque está sendo orientado, mas porque entendeu o motivo de não poder ingerir tanto açúcar, fico feliz. Vejo que o limite que ensinei ou dei está valendo. Isso é muito recompensador.

NO INÍCIO DA SUA CARREIRA, A TRANSGRESSÃO ERA SUA MARCA. COMO O ALEXANDRE BUSCA TRANSGREDIR EM SUA ROUPA HOJE?

Hoje a transgressão é mais sutil. Por exemplo, a minha última transgressão talvez tenha sido eu ter decidido não trabalhar mais na marca que leva o meu nome. A transgressão talvez hoje esteja na liberdade que eu tenho de fazer o que eu quiser. Até de não continuar trabalhando na marca que fundei. E está tudo bem. Estou criando, estou aqui trabalhando mais ainda. E talvez assim, em uma coisa ou outra sutil. Neste último desfile, teve uma escolha de casting bastante própria. Tem alguns símbolos de transgressão, mas que, no mundo de hoje, estão mais absorvidos.

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Foto: Instagram, reprodução

O QUE MUDOU NA SUA VISÃO E O QUE PERMANECE COMO NORTE NESTAS DUAS DÉCADAS DE CARREIRA?

Talvez não tenha mudado muita coisa. Continuo pensando que moda é uma das maneiras com que as pessoas se expressam, que falam por meio das suas escolhas, da roupa que você está hoje ou o que está dentro da sua casa, com quem a gente anda. Fala muito da gente.

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Foto: Zé Takahashi, Agência Fotosite

HERCHCOVITCH, SIMPLESMENTE FASCINANTE

Por Patrícia Pontalti*

Tenho a primeira peça que comprei de Alexandre Herchcovitch. E comprei das mãos do próprio. E da primeira coleção. Uma jaqueta estampada por caveiras, primeiro símbolo da grife deste enfant terrible que sacudiu a moda brasileira com tal força, que seu nome segue protagonista do estilo nacional. Nunca vou me desfazer dela. Juro. Nem de muitas outras peças de outras tantas coleções de Herchcovitch, peças que suspirei ao ver na passarela, que me fizeram sonhar, que me provocaram muito desejo, tanto que até hoje olho para elas e tenho a mesma sensação de fascínio. Herchcovitch é assim, simplesmente fascinante, seja criando roupas, xícaras, lençóis, curativos, sapatos, óculos ou o que mais ele quiser ele sabe e pode, ponto.

Herchcovitch surgiu no underground paulistano, assinando roupas para personagens da noite clubber em ascensão dos anos 1990. Estourou no extinto Phytoervas Fashion com seu desfile de formatura na Santa Marcelina. Começou a fazer Mercado Mundo Mix – e foi aí que comprei a peça dele (estreante no métier, fiquei até nervosa). Sua moda era o beijo despudorado da transgressão na boca comportada da sofisticação. Látex, caveiras, faixas, amarrações, elementos SM se uniam à alfaiataria precisa, em uma construção harmônica do que poderia ser oposto, mas, pelas mãos do estilista, tornava-se inseparável.

O enfant cresceu – e suas criações cresceram com ele em desfiles por São Paulo, Paris, Nova York, e em lojas badaladíssimas, até em Tóquio. O melhor de tudo? Sua moda ficou mais luxuosa, complexa, mas sem perder o viés ousado, a personalidade outsider, o dom de provocar. Lembro-me de desfiles memoráveis, nos quais a roupa era envolvida por uma trilha estarrecedora, por um casting fora dos padrões antes mesmo de isso ser moda, por um certo mistério, já que poucas vezes Herchcovitch falou de inspirações. Ele deixava em aberto a janela da interpretação. E a gente viajava. Ô, se viajava.

Herchcovitch vendeu sua marca. Virou pai. Apaziguou aquele afã pelo estar presente, pelo fazer, pela produção enlouquecida de uma grande marca de moda. Quer saber? Acho que ele amadureceu de novo. E sofisticou de novo. E hoje faz seus ensaios de estilo, sempre precisos, à frente da À La Garçonne, de seu marido, Fábio Souza, e para outras marcas em coleções especiais. Admito: sinto falta da AH, sinto falta daquele frio na barriga que eu adorava sentir antes dos seus desfiles, de querer enlouquecidamente uma peça, de entrevistá-lo no backstage. Mas tudo bem. Tudo são fases. Adoro o que ele tem feito, inclusive seu exemplo de família – ele, ao lado de Fábio, é pai de dois filhos. E coleciono jaquetas, saias, calças e todas as outras excelentes memórias que ele me proporcionou, afinal, herchcovitchiana que sou, sempre serei.

* Jornalista e consultora de moda na empresa aspatrícias e colunista de Donna

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