Entrevista! Com muitas opiniões e um jeito leve e provocativo, youtuber Jout Jout se tornou uma das vozes das mulheres no Brasil

Foto: Caio Franco, Divulgação
Foto: Caio Franco, Divulgação

Ela já ensinou que ninguém precisa tirar o batom vermelho, cantou funk para divagar se é biscoito ou bolacha e conclamou a mulherada a não pensar duas vezes antes de fazer um escândalo se sofrer qualquer tipo de assédio. Julia Tolezano, 25 anos, bem que poderia ser aquela amiga sincerona para quem a gente liga quando precisa de uns conselhos sem filtros (e até umas boas sacudidas). Para a sorte de seus quase 1 milhão de seguidores, a fluminense escolheu dar a real sobre assuntos que vão de relacionamentos abusivos e feminismo à obsessão coletiva (e inesperada) pelo novo CD do Justin Bieber.

Com vídeos curtinhos e sem muita frescura, gravados no quarto, na cozinha e até na área de serviço, Julia acumulou mais de 114 milhões de visualizações em seu canal no YouTube, o Jout Jout Prazer. Não deu outra: em poucos meses, virou uma das vozes da geração que não pensa duas vezes antes de colocar a boca no trombone sobre o que acha errado por aí, mas que também não vê problema nenhum em mudar de opinião. Talvez seja justamente esse jeitinho Jout Jout de não se levar a sério que tenha catapultado a garota de Niterói, no Rio de Janeiro, à posição de uma das jovens mais influentes da sua geração – na internet e fora dela.

Leia mais
:: #TopDonna: 10 vídeos para assistir (e se viciar) na youtuber Jout Jout

Nos próximos dias, Julia desembarca em Porto Alegre para um bate-papo com os futuros alunos da UniRitter no Festival das Profissões. Além dos vídeos, publicados duas vezes por semana, passou a incluir na rotina de youtuber palestras e eventos – onde reúne, como chama carinhosamente, a Família Jout Jout. Ela aproveita a passagem pela Capital para lançar também Tá todo mundo mal: o livro das crises, em que destrincha inseguranças e angústias comuns à Geração Y em textos com o mesmo ar despretensioso e carregado de humor inteligente a que assistimos no YouTube. Não podia ser diferente: embora tenha transformado o apelido que ganhou do namorado (e parceiro de business), Caio, em uma espécie de nome artístico, Julia está longe de ser uma personagem para a câmera. Afinal, quantos youtubers você conhece que aparecem jogados no sofá de pijama e coque no cabelo, para dividir experiências como fazer cocô na casa do namorado? E para mandar um papo reto sobre masturbação e autoexame?

— Cada uma fala do seu jeito, e são todos igualmente maravilhosos e necessários. Mas eu tendo a falar de um jeito que seja leve, descomplicado e muito natural — conta ela, em entrevista por telefone à Donna.

jou2

E o que significa isso, Jout Jout (como a própria adora se autoquestionar)? Bem, significa que é justamente o jeito “gente como a gente” que fez com que a mulherada – e muitos homens também – se identificasse tanto com a youtuber espevitada e sem travas na língua. Julia é aquela mulher que troca fácil uma tarde no shopping por uma maratona de seriados na Netflix (um de seus programas preferidos, aliás). Gosta de dizer que passaria o dia inteiro de moletom se pudesse – e é este seu look preferido para gravar, assim que escolhe o tema da vez entre os muitos pedidos na sua página do Facebook. Ela se permite ser vaidosa só quando quer. Aparece de batom colorido e os cachos soltos em um vídeo, enquanto no outro está de blusão e coque.

Outras entrevistas de Donna
:: Marcelo Tas fala sobre os tabus masculinos e a relação com o filho transgênero Luc
:: Ivete Sangalo fala de maternidade, redes sociais e cuidados com o corpo: “Essa ditadura da beleza não me pega”
:: Antes de shows no RS, Fernanda Takai fala sobre ser a única mulher no Pato Fu e igualdade de gênero
:: Blogueira Luiza Brasil fala sobre ativismo e as pautas do feminismo negro

Foi um simples batom, aliás, o ponto de partida para seu vídeo mais famoso, que lhe rendeu até convite para uma entrevista polêmica no Programa do Jô. Em NÃO TIRA O BATOM VERMELHO (assim mesmo, tudo em maiúsculo), Julia explica, tintim por tintim, como identificar um relacionamento abusivo – como quando o cara se acha no direito de dar pitaco no batom que você pode ou não usar. No sofá de Jô Soares, contou o caso de uma amiga que estava em um bar quando o namorado, que a acompanhava, sacudiu um guardanapo no rosto dela e ordenou: “Tira esse batom vermelho que você está parecendo uma puta”. O que, para Jout Jout, virou o “causo” perfeito para tratar do tema no canal foi alvo de questionamento de Jô:

— Mas não tem nenhuma (mulher) que realmente fique com cara de puta com batom vermelho? — perguntou o apresentador.

E Jout Jout respondeu:

— O que é cara de puta, não é mesmo?

Uma foto publicada por Jout Jout (@joutjout) em

É assim, questionando e provocando com graça e ironia, que Jout Jout foi eleita uma das sete embaixadoras do YouTube no mundo, em um projeto em parceria com a ONU para potencializar a participação das mulheres na plataforma. No currículo, inclua também merchandising para uma empresa de telefonia e até um spray aromatizador para usar antes de ir ao banheiro – clientes, garante ela, escolhidos a dedo. E o que vem pela frente? Como boa representante da Geração Y, Jout Jout diz que não tem ideia.

— Fico muito centrada no que estou fazendo. Não consigo falar o que vou fazer na semana que vem, e o próximo mês já é muito longe para mim — confessa.

Por enquanto, o que a gente pode esperar são vídeos cheios de humor e boas doses de ironia toda terça e quinta, prontos para sacudir os pensamentos pré-concebidos de todo o dia. Tá bem? Então tá bem, Jout Jout!

Entrevista!

Aos 25 anos, você já tem opinião formada sobre quase tudo. Isso deixa a gente curiosa: como era a Jout Jout adolescente?
A minha adolescência foi superinsegura. Não tinha nenhum contato com nenhuma formação política, ou coletivos feministas. Não tinha nada disso, era só a gente vivendo e existindo. Quando fui vendo, entendendo e estudando o feminismo, comecei a entender que tinha tudo a ver com o que eu acreditava como ser humano. Mas a minha foi a típica adolescência insegura.

Que encucações você tinha na adolescência e depois superou?
Eu tinha uma pressa quando conhecia alguém ou ouvia uma história, já lançava um julgamento sem ver o que realmente era aquilo. Aprendi muito com meu canal no YouTube: não é fácil assim você entender uma situação, tem muitos lados. E as pessoas chegam a conclusões muito precipitadas. O canal me ensinou a ver o que está acontecendo antes de sair falando qualquer coisa. Tenho que medir muito o que falo, sempre. Não de um jeito que me censure, mas de um jeito preocupado com o que vai ser passado e como isto vai bater e influenciar as pessoas. Foi algo que aprendi: prestar atenção e não sair falando sem pensar direito antes, sem entender todos os lados.

00bd27cb

De todos os temas de que você já falou no canal Jout Jout Prazer, que reação do público mais a surpreendeu, tanto positiva quanto negativamente?
Uma coisa que é positiva e negativa ao mesmo tempo é o fato de que as pessoas estão muito dispostas a serem influenciadas. E isso é assustador, porque você facilmente influencia muito a vida de alguém. Mas, ao mesmo tempo, é muito bonito que elas estejam abertas a melhorar. Então, é assustador seu poder de influência sobre alguém que nem conhece, e muito legal esta pessoa estar aberta a se influenciar e a se perguntar se aquilo tudo em que acredita realmente foi ela que pensou e acreditou ou se foi alguém que a ensinou e ela somente aceitou que aquilo é o certo.

Você recebe centenas de sugestões de temas toda semana. Como decidir o assunto do próximo vídeo?
Os temas vêm. Não fico guardando um tema porque ainda não sei falar sobre ele. Eu tenho um tema, ligo a câmera e gravo. Não fico pensando muito sobre como, vem
a inspiração e vai.

Que assuntos você acredita que já deveríamos ter superado há muito tempo, mas que hoje ainda é necessário colocar em pauta?
Todo o negócio de empoderamento da mulher: é bizarro como está atrasadérrimo. Aborto, essas coisas todas… e o tratamento tanto da sociedade com as mulheres, como das próprias mulheres com elas mesmas. A gente sempre acaba indo para o lado da mulher, mas encontro muito com meninos na rua que me falam: “Cara, muito obrigado por ter me ajudado a repensar várias coisas sobre o jeito que eu sou e como lido com o mundo”. Isso é muito gratificante para mim, porque o mundo não é feito só de mulheres.

Como você vê o feminismo e o termo feminista?
Está rolando uma implicância, mas não faz sentido. É o termo mais lindo que tem. É uma questão de estudar antes de falar.

Você se considera uma voz da mulher brasileira?
Uma das vozes, talvez. Mas não a voz da mulher brasileira, e sim uma voz em que muitas mulheres se sentem representadas.


Faltam mais Jout Jouts por aí?

(risos) É sempre bom, né? Quanto mais vozes, melhor. Eu tenho muitas vivências que outras meninas não tiveram, assim como elas têm vivências que não tive.

Estamos vendo como nunca os termos sororidade e empoderamento por aí. Você acha que as pessoas valorizam o significado desses conceitos? ou já estão torcendo o nariz?
Não importa se estão entortando o nariz. Temos de falar disso até estar até gostoso. Não está gostoso ainda. São temas muito importantes, não dá para parar de falar disso porque não estão gostando ou está incomodando. É para incomodar mesmo.

E como é sua autoestima, Jout Jout?
(risos) Como todos, né? O canal e todas as vivências que eu tive nesses dois anos me ajudaram muito. Quando abri o canal, imaginei que fosse ficar mais frágil por estar mais sujeita a críticas e opiniões de todo mundo, porque qualquer pessoa que tivesse internet e entrasse ali estava vendo. Mas é justamente o contrário: você fica muito mais forte. Entende que não importa tanto assim. Sabe aquela coisa que todo mundo fala, “Não se importe com a opinião dos outros”? Quando você tem um canal, realmente entende. É lógico que importa um pouco, mas não dá para dar toda essa importância. O mesmo vídeo pode ser o melhor da vida de alguém ou o pior vídeo da vida de alguém. Não tem como calcular, não tem como você se julgar a partir do que outras pessoas estão achando.

E como você lida com as opiniões negativas?
Faço análise toda quinta-feira, e aí a gente vai aprendendo. Não tem como parar nisso, sabe? Você tem que deixar para lá, porque senão você não segue.

No contato com o público, como você avalia o impacto de seus vídeos e suas ideias na vida das pessoas?
A maioria das pessoas fala sobre (o vídeo em que tratei de) relacionamento abusivo, me agradece por ter conseguido enxergar que estava em um e diz que agora está melhor e conseguiu sair disso. É sempre muita emoção. Também muita gente que aprendeu a amar e aceitar o corpo como é, e entender que tudo bem ser do jeito que se é, que não importa para ninguém, só para você. Essas duas vertentes são as mais faladas. E abrir mentes: “Você me fez pensar em coisas em que eu não pensava”, “Fez eu me repensar”.

Com00bd30d8o tem sido a repercussão do livro que você acaba de lançar?
Está sendo muito bom. As fotos que me marcam no meu Instagram, são 98% de trechos do livro, ou da capa do livro, ou algo que tenha a ver com ele. As pessoas estão gostando muito e se sentindo abraçadas, que era a função desde sempre. Era um livro meio que te abraçasse, tranquilizasse e te dissesse “Tá tudo bem, porque tá todo mundo mal junto aqui”.

 

 

QUE. AMOR.

Uma foto publicada por Jout Jout (@joutjout) em


Precisamos falar sobre o episódio de racismo envolvendo seu namorado, Caio. Como vocês lidaram com a surpresa e os comentários das pessoas ao descobrirem que ele é negro?

A gente ficou tentando entender o que estava acontecendo e por quê. Foi horrível e tudo mais, mas fez Caio pensar sobre a história dele, sobre quem ele é, a sua identidade, um assunto de que ele não tratava. Não era uma questão para ele e agora é. Até hoje, ele bate cabeça com isso e está fazendo projetos em torno dessa questão. Foi interessante essa provocação para ele parar e pensar nisso. É algo que às vezes você não pensa sobre, meio que abafa, coloca debaixo do tapete e segue com sua vida.

Bate-bola! O que Jout Jout pensa sobre…

Aborto

“A mulher deve ter total controle e poder de decisão sobre o que acontece com ela e no corpo dela, e o corpo é dela e de mais ninguém. Eu sou pró, não sou uma grande incentivadora do tipo ‘Vamos todas abortar agora, o novo método anticoncepcional é abortar’, não é uma leveza assim tão grande. É mais tipo ‘Eu sou uma mulher, tenho o meu corpo e tenho direito sobre ele, então não vem querer decidir o que vou fazer com o meu corpo porque eu vou decidir’.”

Pressão para ter filhos

“Chato isso. Qualquer pressão que tenha a ver com algo que a gente não quer, e que os outros querem para a gente, é meio chato.”

Mulheres machistas

“É uma realidade. Somos doutrinadas a reproduzir isso e reproduzimos por muito tempo. Eu reproduzi, você provavelmente reproduziu também, e continuamos reproduzindo algumas coisas. É a criação e é o nosso dever como ser humano rever isso e se trabalhar o tempo todo. A gente não nasce já prontinho, vai se ajustando.”

Musas fitness

“Acho que tem seu espaço. Desde que não machuque ninguém, tá tudo ótimo.”

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna