Entrevista: conheça a luta de Juliana de Faria, do Think Olga, pelo empoderamento feminino

*Viajou a São Paulo a convite do GNT

Juliana de Faria se preparava para dar a entrevista que você lerá a seguir, quando uma mulher que a observava há alguns minutos tomou coragem e a abordou:

– Posso falar só um minutinho antes? Queria agradecer. A Think Olga fez toda a diferença na minha vida. Mudei e fiz outras pessoas mudarem.

Contou, então, que vivera um momento difícil e conseguiu dar uma virada a partir do que viu e leu no site do projeto feminista fundado por Juliana em 2013 com a missão de “empoderar mulheres por meio da informação”.

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E esta jornalista paulista fez e faz diferença na vida e na discussão de milhares de mulheres (e homens) Brasil afora. Eleita uma das oito mulheres mais inspiradoras do mundo pela Clinton Foundation, é autora das campanhas Chega de Fiu Fiu e #PrimeiroAssédio. Ao lado da publicitária Nana Lima e da jornalista Maíra Liguori, também está à frente da Think Eva, organização-irmã da Think Olga que busca repensar a maneira como as mulheres são retratadas na mídia, a partir de consultoria para marcas e empresas sobre estratégias de comunicação para as mulheres de hoje.

– Avançamos muito no debate e na problematização dos estereótipos. Já existe uma consciência do problema – diz Juliana. – Precisamos de mão na massa e mudanças práticas.

De mão na massa, Juliana entende. O Think Olga lançou mais uma campanha, agora focada na relação das mulheres com o esporte – em especial as modalidades coletivas. E com direito a um aplicativo para pôr em contato quem estiver em busca de outras interessadas em ocupar as quadras esportivas pelo Brasil.

Foto Eduardo Magalhães, GNT

Juliana de Faria (de preto) no evento Teia, do GNT | Foto: Eduardo Magalhães, GNT

Na entrevista a seguir, concedida no evento Teia, uma tarde de conversas sobre e para mulheres realizada pelo GNT no início do mês, em São Paulo, Juliana detalha o novo projeto sobre esportes e avalia a mobilização feminina dentro e fora das redes sociais. Mais: ainda tocada pelo depoimento narrado no início deste texto, comenta o seu papel nas mudanças e discussões em curso.

Vivemos hoje uma efervescência do movimento feminista, com as mulheres se mobilizando cada vez mais e levantando suas bandeiras. Como é saber que você contribuiu decisivamente para esse momento?
Tudo isso nasce de questões muito pessoais, o #PrimeiroAssédio, e o Chega de Fiu Fiu, de dramas e traumas que são meus. E sentir que posso exercitar essa coragem e colocar minha história no mundo e ver que esta coragem viraliza entre outras mulheres e que elas têm a coragem de colocar as histórias delas também e, de alguma forma, conseguir lutar por soluções. É muito forte, muito bom. Ainda mais em um momento como este, em que, apesar dessa efervescência feminista, há um contra-ataque muito forte: me dá esperança.

Toda essa mobilização das mulheres coincide com a polêmica de um ministério sem nenhuma mulher.
Sou otimista, preciso avisar. Vejo como um momento em que estamos jogando luz nos problemas. Não ter nenhuma mulher no ministério talvez não seria contestado, como não foi por muito tempo. Parece que está doendo muito, mas é porque estamos enxergando enfim o que está errado, e há muita coisa errada. Mas enxergar é o primeiro passo para a mudança.

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Qual foi o detonador dessa mobilização crescente das mulheres?
A internet é uma das grandes ferramentas para disseminar o feminismo. Sei que não chega a todos, mas chega em alguns, e isto cria uma conexão muito forte entre as mulheres. Posso contar a minha história de mulher que mora em São Paulo e ter ressonância com uma mulher de outro Estado. E aí a gente pode criar essa teia, essa comunidade. Mas não podemos nos esquecer das mulheres que conquistaram os direitos que temos hoje. Tudo isso é um caminho, o feminismo não foi criado agora, não foi criado pela internet.

Você já disse em entrevista que não concorda com o termo “novo feminismo”.
Não existe, sou contra isso. É o mesmo feminismo porque os problemas são os mesmos. Se você assistir ao documentário na Netflix She’s beautiful when she’s angry, são os mesmos problemas, dos anos 1970 até hoje. Mas, claro, a gente se fortalece por um movimento que existe há muito tempo e vem crescendo e, por sorte, hoje a gente tem a internet e pode se conectar com outras mulheres de forma muito mais fácil e muito mais rápida. E pessoas que não têm dinheiro, sobrenome e influência nenhuma, como eu, podem conseguir fazer uma campanha que movimentou muita gente para falar dos próprios assédios. Eu não tinha nada, não sou ninguém, mas tinha acesso ao Twitter e consegui colocar na pauta esse debate sobre o assédio.

Que avanços você já identifica desde que as mulheres começaram a colocar a boca no trombone?
O próprio caso do assédio sexual: há três anos, fora de movimentos feministas, no mainstream, na grande mídia, nem era comentado porque era tão normal quanto respirar. E a gente conseguiu fazer essa mudança. As mulheres são assediadas ainda? São, uma realidade que é cruel e triste. Mas hoje elas sabem que, quando são assediadas, isto é errado e, se tem um culpado, é o assediador. Claro, nem todas sabem, mas estamos trabalhando para isto. A grande mídia já fala disso de uma forma muito mais responsável. Quando a Chega de Fiu Fiu nasceu, tinha piada, colunista que falava mal de mim, as matérias eram sobre “Será que é exagero ou não?”. E hoje é compreendido que assédio é errado. Então, é uma mudança e foi muito rápida, sendo algo cultural.

Foto reprodução

Qual o papel dos homens? Muitos têm se manifestado sobre essas questões, mas há feministas que reiteram que as mulheres devem ser as protagonistas nesses debates.
Tem várias coisas. A gente tem que ter um diálogo, sim, com os homens, porque é uma mudança coletiva. Nós temos que mudar as mulheres para que elas possam começar a compreender que algumas das coisas que vivem são violência, sim, porque nem todas têm esse olhar. Eu mesma fui compreender só agora algumas coisas que aconteceram comigo, que foram assédio. E também ter esse mesmo diálogo para que os homens entendam que, quando fazem fiu fiu na rua, é assédio. Mas que também entendam que as mulheres precisam ter um protagonismo no movimento feminista, porque nossa voz não é maioria em nenhum lugar do mundo – nenhum, zero. Então, é um movimento em que precisamos falar da nossa experiência. Não espero que todo mundo entenda as nossas vivências, mas as respeite. E, para respeitar, eles precisam saber que vivências são essas. E, para saber, nós que precisamos falar. Não pode alguém que tão tem a minha vivência falar por mim. Mas o diálogo pode ser estabelecido sem problema nenhum.

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Qual será a próxima iniciativa do Think Olga?
Acabamos de lançar uma campanha, Olga Esporte Clube, e a ideia é fortalecer o relacionamento da mulher com o esporte. A mulher não se apropria do espaço público, não estamos na rua jogando futebol, nem vôlei nem nada, por medo de assédio. A gente sabe que o espaço público não é nosso ainda, temos de conquistar. Quando pensamos em esporte para mulher, pensamos em esportes para deixar a gente magra, como pilates, que eu adoro, mas são esportes solitários. Não estamos aprendendo inteligência emocional, não estamos fazendo networking, não estamos aprendendo a lidar com várias pessoas. Então, é isso que estamos tentando retomar com as mulheres: menos emagrecimento e mais diversão, Vamos fazer algo juntas!

Quanto teremos de percorrer até recuperar o esporte pelo prazer e ter o espaço e o reconhecimento devido para as atletas profissionais?
Espero que possamos encurtar esse caminho com as ações da Olga Esporte Clube. Nossa forma de buscar soluções é colocar a mão na massa, fazer barulho, mostrar bons exemplos, criar ferramentas de mudança. Em julho, lançaremos o MoveOlga (aplicativo para ajudar mulheres a encontrar parceria para praticar esportes). Nossa expectativa é juntar mais mulheres em torno da prática. E que elas possam buscar soluções também para seus microuniversos.

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