Entrevista! Drica Moraes: “A mulher tem o direito de envelhecer”

Porto Alegre recebe “Lifting: Uma Comédia Cirúrgica”, protagonizada pela atriz

Foto: Antonio de Bonis, divulgação
Foto: Antonio de Bonis, divulgação

A atriz Drica Moraes desembarca na capital gaúcha para o Porto Alegre em Cena com a peça Lifting – Uma Comédia Cirúrgica, que ela conta ter nascido de uma ação entre amigas ávidas a fazer comédia. Porém, a sátira é uma das formas de abordar o que Drica, aos 48 anos, considera um dos grandes temas da mulher contemporânea: a obsessão pela beleza e a eterna juventude. Tema que também perpassa o seriado A Fórmula, que encerrou a última temporada em agosto. Na trama, a personagem de Drica participa de um triângulo amoroso com seu chefe e uma versão mais nova de si mesma, interpretados por Fábio Assunção e Luísa Arraes. Por telefone, Drica conversou com Donna sobre o assunto e sobre seus projetos futuros, que incluem uma longa estada por aqui em um futuro bem próximo.

Sabemos que Lifting é uma montagem bastante dinâmica, com diversos personagens. O que dá para adiantar?

São 12 quadros entremeados por música, um formato meio cabaré, meio teatro de revista. Do tempo das comédias ligeiras. Tudo girando em torno da obsessão pela beleza. Cada uma de nós quatro (além de Drica, as atrizes Ângela Rebello, Lorena da Silva e Luísa Pitta) interpreta quatro personagens. Uma delas, que eu faço, é a advogada de uma socialite denunciada por desvios de dinheiro público para implantação de botox e silicone. Também interpreto uma mãe em disputa com a filha. Ela pede um silicone, mas tem a condição de que passe na faculdade. O resto vou deixar para vocês assistirem. Mas é uma pegada muito cômica.

fotos: Antonio de Bonis, divulgação

As quatro atrizes da peça Lifting | Fotos: Antonio de Bonis, divulgação

Em A Fórmula, temas como a obsessão pela beleza e a eterna juventude também aparecem. É um assunto que a atrai?

Sim, mas nesses dois trabalhos em sequência foi uma coincidência mesmo. Sobre A Fórmula, a diretora me ligou em janeiro para começar a filmar em março. Eles queriam uma atriz que trabalhasse do humor ao drama, que desse conta dessas texturas todas em um triângulo amoroso. Por coincidência, nessa época, reencontrei três amigas que trabalham bastante com teatro no Rio. Falamos sobre a vontade de fazer uma comédia, de voltar a temas mais leves. A Ângela (Rebello) falou: “Tem um peça espanhola que eu estou traduzindo…”. Na primeira leitura, meio em portunhol, a gente já morreu de rir. Não saiu patrocínio, então colocamos um dinheirinho de cada uma e de amigos. Saiu de maneira despretensiosa, leve, meio improvisada. Foi um projeto que nasceu do acaso e do afeto.

E qual é a tua opinião sobre essa questão?

Pois então. A série trata disso. A peça também, de forma mais debochada e irônica ainda. Não é à toa, porque a ditadura da beleza é uma questão muito presente. A mulher tem o direito de envelhecer, ela tem o direito de não fazer plástica. E de fazer plástica, se quiser. De andar de minissaia, se ela quiser; de saia longa, se ela quiser. Ela tem o direito a tudo, se ela quiser. Mas nunca como imposição. E a sociedade, em relação à beleza, vive uma ditadura horrorosa. Sobretudo em relação às mulheres.

Neste ano, o Porto Alegre Em Cena homenageia as mulheres. Isso se dá em um momento de discussão sobre a ausência de bons papéis para mulheres acima de 40 anos. Há um questionamento sobre atores que envelhecem naturalmente enquanto seus pares românticos rejuvenescem. Como você enxerga essa discussão?

Acho que é uma questão cultural muito arraigada, tanto no Brasil quanto no mundo. O mundo é culturalmente machista. O homem mais velho com uma mulher mais nova é um lugar-comum. A mulher mais velha com o homem mais novo já é visto como uma patologia. A cultura é cheia de exemplos ligados a isso. A mulher não ter o direito de se vestir como quer, de poder assumir suas rugas, seus cabelos brancos, seus defeitos. A mulher tem que ser perfeita.

E já se percebe alguma evolução nos últimos anos? Me parece que a A Fórmula, ao mostrar esse triângulo amoroso entre um homem mais velho e a mesma mulher com diferentes idades, teve como uma das motivações debater isso, não?

Até acho que a sociedade está se modificando, mas a passos de formiguinha. Existe um movimento enorme das mulheres de denunciar qualquer mal-estar, qualquer sensação de agressão que elas sofram. Exatamente para pedir apoio. Para que essa voz fique cada vez mais forte. Para que esses abusos e essas distorções da sociedade sejam modificadas. É preciso que pequenas violências cotidianas, como essa questão da beleza, passem a ser encaradas como violência mesmo, e não como normalidade. Então, acho que tudo está valendo: peça, filme, série, denúncia, post. Não para criminalizar os homens, porque eles também vêm de uma cultura e não sabem o que fazer, mas para que se lance reflexões sobre isso. Daí a importância desse tema na série.

Foto: Raquel Cunha, TV Globo

Drica com Fábio Assunção e Luísa Arraes, atores de A Fórmula | Foto: Raquel Cunha, TV Globo

Em 2010 você passou por um tratamento de saúde bastante intenso (um transplante de medula óssea). Essa experiência teve alguma influência na forma de encarar a vida? Nesse insight de que beleza e juventude não é tudo?

Total, total. Pra mim, isso não é o que importa. Isso não quer dizer que eu não tenha vaidade. Tenho, acho saudável ter vaidade. Mas não tenho obsessão nenhuma. A questão da medida é muito séria, e a medida é a autoaceitação. O tempo passar é normal. É bom, é bonito. Os hábitos saudáveis vão naturalmente te levar a uma beleza. Você comer bem, ter bons hábitos, mas não com o objetivo de não morrer um dia. De não ficar velho um dia. Mas por prazer. A beleza tem que ser um prazer, não uma obrigação.

A beleza, mesmo a superficial, vem de dentro?

Sim. O bem-estar gera beleza, isso pra mim é uma verdade. Se a sua vida estiver ruim, se você estiver infeliz no casamento, a tua cara vai ficar um horror. Se você está infeliz pela maneira como você se relaciona com o seu chefe, a sua pele vai ficar péssima. Então, é preciso resolver as coisas práticas para a leveza aparecer no seu rosto, no seu corpo, enfim. Essas coisas, para mim, estão todas ligadas.

Quais são seus próximos projetos?

Eu tenho um filme para fazer aí no Sul! Meu novembro é todo aí. Nos vamos filmar Rasga Coração, do diretor Jorge Furtado. É baseado em um peça dos anos 1970 escrita pelo Oduvaldo Vianna Filho, o mesmo autor da primeira versão de A Grande Família. Eu faço Neca, a mãe, um personagem incrível. Estão no elenco também o Marco Ricca, o Chay Suede. A Luisa Arraes fará uma participação. Foi uma peça de enorme sucesso e será um filme de sucesso. Estou felicíssima com esse projeto.

Drica em cena com Fernanda Montenegro na série Doce de Mãe | Foto: Fabio Rebelo, TV Globo

Drica em cena com Fernanda Montenegro na série Doce de Mãe | Foto: Fabio Rebelo, TV Globo

Que bacana. Será um prazer te receber. Tu já tens algumas lembranças de Porto Alegre?

Obrigada. Tenho lembranças, claro. Primeiramente, o Theatro São Pedro e dona Eva Sopher, dois monumentos históricos nacionais. Dona Eva, sem nenhum botox, sem nenhum silicone, atravessou gerações e gerações. É uma das mulheres mais importantes do planeta. Está aí a prova de que uma aparência artificial não leva ninguém a lugar nenhum. Linda! Linda e uma das mulheres mais interessantes que eu conheci na minha vida. Acho que estar no Theatro São Pedro é a eterna fonte da juventude. E também tenho família em Porto Alegre. Tenho primos, minha enteada mora aí. Para mim, Porto Alegre… Porto Alegre é colo de mãe.

Da concepção aos espetáculos, a 24ª edição do festival Porto Alegre em Cena, de 12 a 24 de setembro, coloca as mulheres no centro do palco. Destacam-se na programação, além de Lifting – Uma Comédia Cirúrgica (nos dias 23 (às 21h) e 24 (às 18h) de setembro), peças como Antígona, com atuação solo de Andréa Beltrão (nos dias 21 e 22 setembro, às 21h) e, sexta (21h), sábado (21h) e domingo (18h), Chopin ou O Tormento do Ideal, em que as atrizes Nathalia Timberg e a pianista Clara Sverner fazem o papel do compositor clássico. Todos esses no Theatro São Pedro. Mais informações e ingressos no site portoalegreemcena.com.

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